Thursday, August 31, 2017

Tchau querida!



Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes? O mar da história é agitado. As ameaças e as guerras havemos de atravessá-las, rompê-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas.
Maiakóvski

E assim a presidenta da República Federativa do Brasil, se despede do cargo. Dois mandatos com eleições diretas, pelo povo. Um infelizmente, incompleto, interrompido por fascistas por um golpe político parlamentar e midiático.
E assim, me despedi do Brasil, em 31 de agosto de 1996. Tchau queridos amigos e família no Brasil, vou além mar, ver novos horizontes, dar o passo no escuro.
É estranho, logo hoje...que completo 20 anos na Holanda, essas despedidas, esse golpe de estado midiático, político e parlamentar se consolida no Brasil, pelos fascistas e 'políticos' que governam ad infinitum pra suas 'famílias', amigos da família, seus interesses, pro umbigo, pros bancos, pro capital, pro Tio Sam, pras amantes. O povo, que povo? E lá eles sabem do povo, querem saber do povo? Se hoje em dia nem voto é mais necessário? Que se exploda o povo!
A impressão que tive, que nesses 14 anos com o governo do PT, o Brasil ficou quase 'pau a pau' com a Holanda onde moro no que se refere benefícios sociais (um Brasil que nunca vi), um Brasil de esquerda, claro grandes diferenças básicas, sentia um crescendo, um progresso social, muitas melhorias e benefícios porque também os recebo, benefícios são direitos, e desenvolvimento de verdade, benefícios não é VAGABUNDAGEM, benefícios trazem o BEM comum, numa sociedade injusta, onde ricos já nascem ricos e ficam mais ricos, e pobres, tem que obedecer as regras desses ricos que chegaram há muitos anos.
Foi daqui da Europa que vi a economia do meu país no apogeu no governo Lula, vi Lula sendo tratado com muito respeito e admiração no exterior, verdadeiro estadista e em várias manchetes, algumas até guardei, comprei o jornal de papel.
Vi as sandálias Havaianas nos pés de 'todas as pessoas' no verão, aquelas bandeirinhas iniciais pra marcar território, vi acordos entre os dois países, comprei sapatos, café brasileiro, vivi eventos culturais Brasil/Holanda, vi boas notícias nas manchetes internacionais, vi e li muitas matérias sobre o Brasil, aquele BOOM Brazil, onde todo mundo quer ir, pro sol, pra realmente viver e não sobreviver, o sonho do calor dos trópicos, a floresta amazônica o pulmão do mundo, a diversidade ecológica, o litoral imenso abrindo o país para o mundo. Onde a vida é melhor? Vi também, pessoas serem beneficiadas, pelo bolsa família, pró-uni, minha casa e minha vida, vi o Brasil sair da linha da fome na ONU, vi os olhos para o Brasil na Copa de 2014 e Olimpíadas (mesmo com toda a propaganda negativa), mesmo o povo hater, descrente, o evento vai ser cancelado, será um elefante branco, vi gente feliz indo para o meu país pela primeira vez, tudo daqui. Dei aula de português. Vi que as pessoas estavam andando bastante de avião por lá, que os negros, os estudantes, as mulheres e a comunidade LGBT, foram pras ruas, iam pras ruas, cada vez mais as ruas, lutar por direitos, por 20 centavos, lutar por mudanças, como nunca depois da dormência da ditadura militar. Brasileiro é bonzinho, cordato e contente com samba/carnaval/bundas.
Vi coisas que não entendi, o tal BATER PANELAS, e vaiar a presidenta, numa copa das confederações. O que era aquilo? Me assustei, e a partir dali, comecei a parar de ver e me informar, quem realmente era essa pessoa Dilma Rousseff? E vi um Brasil dividido...entre esquerda direita, um país do FUTEBOL POLÍTICA: um FLA X FLU entre quem é a favor de levar todos os brasileiros pra frente numa Nação mais humana, ou quem acha que isso é ‘besteira’ coisa de comunista que quer comer criancinha.
Com a internet, só sentia a distância no fuso horário (5 horas no verão, ou 3 horas no inverno, daqui). Vi, de longe...as pessoas mais abastadas, começarem a reclamar do PT, como se nem um partido político fosse, como se fosse Satanás, a peste, manipuladas pela mídia (?) ou só azedas pela lenda por ter que dividir os cômodos das casas por quem comem as tais criancinhas? Vi a demonização de um partido, por ser de esquerda, por ter um barbudo iletrado, do povo, um metalúrgico. A elite não gosta de ‘pobre’, a elite brasileira é retardada mesmo, e depois por ter uma mulher (sem marido, dentuça?, gorda? usa roupa 'desapropriada') quer ser chamada de presidentA?
Ora pois, muitos ‘pobres’ também gostam de riqueza, as que eles não tem, mas tem muitos pobres que sabem que o que ricos querem é isso, que você faça uma guerra contra si, sem mesmo prestar conta com isso. Vocês já viram as roupas da primeira ministra alemã? Imagina se os alemães terão tempo pra isso? Ora pois o que 'analfabetos funcionais', reclamam com suas contas bancárias cheias, e seus cartões de crédito com o pagamento em dia? E suas 3 ou 4 viagens por ano pra Europa, Miami, Cochinchina? Vi evangélicos crescerem como cogumelos perto da bosta depois da chuva, e pior na política. Que país é esse? O que está realmente acontecendo? Muitos diziam, tudo culpa do PT. E claro, alguma ‘culpa’ também tem um partido que se manteve no poder, e poderia ter feito mais, muito mais pelo povo, mas em política sempre tem muita puxação de tapete, tapinha nas costas, é um terreno estranho, principalmente quando os políticos são essas pessoas sem visão humana de um mundo futuro melhor, que negam a realidade, e criam a sua própria piorando a do povo.
A saída da Dilma, no dia de hoje 31 de agosto, por políticos pés de chinelos, donos de helicópteros com cocaína, latifundiários escravocratas, representados por essa elite conservadora, arcaica, misógina, só me mostra que a Holanda a partir de hoje vai ficar novamente muito DISTANTE do Brasil. A democracia do Brasil, está na UTI. O solo brasileiro, não é mais ‘nosso’, é do capital por causa dos puxadores de tapete da democracia.
Lá vou eu ter que explicar a desigualdade social novamente do Brasil. Lá vou eu ter que explicar novamente que a presidenta honesta, foi condenada por políticos corruptos. Lá vou eu ter que traduzir que um vice-presidente, traiu a presidente, arquitetou um plano, junto com um deputado e fez uma limpa das pessoas que comem criancinhas, e assim as criancinhas de verdade, novamente terão fome, e os velhos continuarão banguelas, e se essas criancinhas ficam no farol pedindo dinheiro, roubando e não na escola, fica tudo muito difícil de explicar.
O futuro é sinistro, porque o presente é sinistro.
Eu estou garantida no meu bem estar, tenho teto, comida, e saúde mas se isso me desse felicidade, seria mais uma egoísta como aqueles 61 senadores e deputados. Estou triste porque os cortes virão no futuro, e para quem mais precisa. E como dizer que é uma ponte para o futuro? Uma ponte para o abismo, mas alguns soltaram rojões, teve até fogos de artifício, acabei de ver no FB, gente que deu ‘check in’ em grupos de festa do impeachment.
O fascismo ilustrado é mais sinistro ainda.
Tchau querida, vai andar de bicicleta, vai continuar a ler Maiakovski dar palestras em universidades, cuidar dos netos, e se lance como governadora em breve do Rio Grande do Sul, onde mora sua filha e eu fico com Fernando Pessoa, Mário Quintana, Marco Borsato também aqui com a minha inseparável bike, e viver a vida com os meus filhos, minhas flores, minha solidão, meus invernos e o cantar dos pássaros, eles passarão, mas nós passarinho.
Afscheid nemen, bestaat niet! * = despedidas não existem.
PS - texto de um notes do Facebook (31/08/2016)

Sunday, February 5, 2017

Um gato pra chamar de meu

Postagem do outono de 2015.

Ando pelas ruas com a maior energia, se ando sozinha, é uma festa, no sentido que faço o que quero e ninguém me enche o saco, se ando com a minha filha, procuro lugares não muito tumultuados onde ela não saia do eixo dela. Se ando com meu filho e namorado, precisaria escrever sobre isso numa outra ocasião, eles me podam e às vezes parecem que eles me odeiam, não propriamente odiar, mas são contra o meu jeito de ser. Assim, na ida para algum lugar, ou sem destino, se vou pra rua, sou completamente dona de mim, porém no fim do dia...estou cansada, como uma anciã de 100 anos.  Hoje por exemplo fui pra Haia (Den Haag), voltei pra Leiden e tomei um trem e fui no meu filho que matou aula, dois dias sem ir na escola (mama mia), o que fiz para merecer isso? E lá chegando ele tinha acabado de acordar, meio-dia. Mandei ele tomar banho, e ir pra escola, que a coordenadora (diretora) queria falar com ele, no que ele demorou uma hora e meia pra tal. E quando eu sai para um lado de trem, e ele de bicicleta, ele não foi pra escola. Foi fazer a identidade dele, já que só tem o passaporte.

Estou cansada. Duas semanas atrás deu tudo errado quando fui buscar a minha filha. Ela começou a me bater na rua, e tive que ligar pro pai dela para buscá-la. Ela desconta em mim, todas as frustrações. Depois se arrepende. Não é à toa que ela mora num 'begeleidingwoning', numa moradia com acompanhamento, assistentes, toda monitora e auxiliada nas atividades diárias. Me canso. Eu faço tudo pra agradar as pessoas, mas o que está acontecendo que estou esquecendo de mim? Não, não esqueço de mim, e não sou a única. Ter filhos, marido, namorado, pesa muito em responsabilidades, e às vezes estou somente cansada, e são nesses momentos que sinto. Eu mereço me dar atenção.

Fico cansada e estou cansada e começo a me queixar pra mim e lá vem o diálogo interno, o que será que está acontecendo. Eu deveria chutar o balde, e mandar todos pra pastarem. Penso no meu namorado, que acha ridículo minha maneira de fazer as coisas, colocar a mesa bonitinha, guardanapos combinando, copos todos do mesmo tamanho, garfos/facas na posição correta. Umas uvas para enfeitar, e ele reclama, que é uma besteira eu fazer isso. Claro, eu deveria mandar ele pastar também.
E esses dias de golpe, impeachtment, falcatruas, brigas com amigos, que nem sei se são amigos. Não quero agradar ninguém, cansei, estou cansada.
Por mim sumiria, iria para um lugar bem longe de todos, sem internet...e voltaria com outro nome, escolheria uma meia dúzia de amigos no Facebook, e começaria do zero, de tanta frustração, naquelas, foi comprar cigarros e nem fuma.

Quando o cansaço vem culpo a idade, ou seria a acidez do corpo, as frutas que não como (ou como de menos), legumes de menos, o vinho, a yoga diária que virou olhar pra fora e viajar na maionese, olhe pra dentro Bebete! Mas o que fazer? Sempre tive muita vitalidade, energia, mas o gás agora tem que ser melhor trabalhado, nada a fazer, é a idade mesmo? Ou sim, continuar nessa labuta e achar uma harmonia, entre o cansaço físico e o mental, e a minha vitalidade e energia, dando limites para os outros não forçarem a barra.
... os longos 55 anos andando, caminhando, pintando cabelo, mirando um monitor, o celular, sentada na cadeira, poltrona, sofá, miro um espelho passando batom, os carros passam, as bicicletas passam, as pessoas passam, o tempo passa e não sou vista, e nem quero ser vista, como antigamente, acostumei assim e até me escondo, quando resolvo fazer uma aparição, ou chamo atenção me sinto uma estranha no ninho (saio do esquema do comum com algum detalhe), eles me olham, mas não me vêem realmente...coloco um chapéu, coloco um gorro, quero ser discreta e sigo na camuflagem, preciso ser discreta, passar batido e as folhas vão caíndo, amarelas, vermelhas, como se ainda fossem belas, tudo na minha cabeça diante de meus pés, elas caem e secam, feias, desidratadas, esqueléticas, mortas. Outono, essa estação maravilhosa, todas essas cores, esses convites...à preparação do longo inverno, também maravilhoso, a hibernação, o vinho, o chocolate com creme, tudo uma festa, com livros, papéis, luminárias, o piano capengando mas indo. ♫...até Netflix eu tenho para me manter longe de mim.
Ponho o pé fora da porta, toda montada (vestida da cabeça aos pés) pessoas doidas, bêbadas, estrangeiras, urinam nas alamedas, se drogam à luz do dia, me xingam...eu sou daquelas que ando nas alamedas, se procuro é por coisas belas, uma vitrine de loja, ou de casa, os gatos que andam por ai atrás das vitrines, um chão, um piso, uma folha que ainda não morreu, lojas de antiguidades, artes, monumentos históricos, meu olhar fotografa o banal, o normal, o comum, incomum e me deparo com loucos, bêbados, sem teto, gente que circula por ai, sem refúgios, sem lar. Gente infeliz, que não pensa direito, sobrevivem sei lá como. Sorte que para casa 1 infeliz tem 9 felizes* circulando pelo planeta, e como eu gostam de viver a própria vida e não ser estorvo para ninguém. E toda a felicidade que falo, é ficar na sua, não odiar o outro por ser outro, um desconhecido.
Entro num dos cafés prediletos, barista, sou exigente...tenho a liberdade de escolha. Odeio comércio só com objetivo comercial, financeiro, ideal comercial, sem alma. Gosto dos pequenos cafés, onde os donos são aqueles que trabalham, pequenos comerciantes atrás do que curtem, do que gostam de fazer, do que sabem. Artistas e não somente vendedores, artesões do bem estar. Um café latte s.v.p.! Um biscoito, uma água pra acompanhar, uma torta de maçã ou de caramelo com gengibre, sempre um livro e um cadeiro capa dura na bolsa, fora o celular, e a necessidade viciante de compartilhar um estado de animo. Esses segredos de pessoas como eu, o ser feliz andando a esmo, nas alamedas, se vestir pra mim, tomar café, chá, livros, piano e sempre em busca de inspiração em brechós, lojinhas...
A vida segue errante, chega um momento que nada lá fora é tão interessante quanto as minhas caminhadas pelas ruelas, becos. Tudo já passou, como se tivesse vivido na grande prosa da vida, vários livros, vários contos, vários poemas e não me resta mais nada, a não ser sobreviver e viver a meu modo, acabaram-se os ensaios, e esse é o pensamento cansado, porque no dia seguinte...o humor muda, o pique muda, fico sonhando em encontrar alguém como eu, pra conversar, parecido, mas diferente...e olho tudo que tenho, tudo que colecionei, todos os cartões, papéis, móveis, cores, livros, olho pra mim com esse cabelo longo, penso novamente, pintarei ou não pintarei...corto ou não corto? Se eu pudesse teria alguém fazendo por mim, cuidando dos meus cabelos, mas como não tenho, eu mesmo tenho que me esforça. A 'boa' aparência no reflexo no espelho, os cuidados com o meu templo, meu corpo...dizem muito sobre como me sinto por dentro. Tudo que faço é pra mim...sou uma caçadora de inspiração, tudo me inspira como se tivesse ainda a curiosidade daquela menina de 13 anos, com a vida repleta de aventuras pela frente.
Ser muitas não é uma tarefa fácil. Fácil acho é ser alguém que é uma só, um só. Eles nascem e já sabem o que são, o que querem fazer, o que os move...e nem a palavra fácil se adequa.
Eu sou o contrário, por medo de fracassar em meio à tantas escolhas eu não me jogo completamente, não me dou ao direito de arrependimentos, não me arrependo, palavra riscada no meu vocabulário particular. Eu pondero, penso, me organizo, demoro muito para tomar uma decisão perante tantos caminhos, tantos interesses, apesar de minha destreza de resolver pepinos como mãe, como uma mulher emancipada, independente, descobri que sou ótima, nesses anos todos e lá se vão...13 anos no divórcio, enterrei de vez um pseudo príncipe que vai me salvar de todos os dragões, do mal. Vejo pessoas cometendo os mesmos erros que cometi. Todos eles foram ótimas lições, apesar de todo o sofrimento, toda a lenga lenga, do amor, do desamor, do medo da solidão. Se eu soubesse antes que eu me bastava, não estaria agora a escrever essas linhas.
Volta e meia aparece um gato aqui dentro de casa, um gato bichano mesmo, que não é o meu, e penso...que desapego, não preciso de nada e ninguém pra chamar de meu, porque tudo é meu e ao mesmo tempo nada.
E um gato pra chamar de meu, mesmo que seja esses gatos da vizinhança, seria mais um apego ou trabalhar o desapego, porque ninguém é dono de ninguém.


Tchau querida!

Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes? O mar da história é agitado. As ameaças e as gue...