Friday, October 26, 2012

À Lis-boa e bela!

"As cidades falam comigo. Ouço-as ao pé do ouvido... não como ouço as pedras, transfiguradas pelo tempo. Ouço-as com o cuidado que ouço um ancião.
As cidades respiram e têm cheiro. Não a tijolos ou calcário; exalam essências secretas que não ousaria definir...t
êm elas um mundo subterrâneo ignorado. Não um submundo catapultado de argila e níquel, oxidado pela frieza das horas. Mas lágrimas...



As cidades estão vivas e respiram; ofegam e não param de pronunciar clamores... falam sobre mim, os outros, quem partiu e quem chegou. Choram e sorriem; tem paixões e seus humores. E reconhecem cada um de seus habitantes.
São protegidas pelos céus, pelos ventos e árvores, suas raízes e copas. E observam o vôo dos pássaros e protegem quem lhes dorme às ruas...uma cidade é sempre no feminino! Ela é muito mais do que luzes e prédios imóveis, nomes de ruas ou monumentos de bustos e estátuas de generais montados em seus corcéis de bronze.



Uma cidade é uma embarcação ancorada num ponto cardeal do oceano chamado Terra, é feita de lendas e enganos, genética e verdades, glória e esquecimento, solidão e vontade.
A cidade em que habito é assim."








autoria: Sérgio Borda Indarte

Sunday, October 14, 2012

7 meses sem cigarros 7 quilos a mais, como faz?


Estou há 7 meses sem fumar (palmas pra mim que eu mereço), ok e nesse meio tempo ganhei uns 5 quilos, os 7 ali do título foi número de mentiroso, pra enfeitar, ou tanto faz, já que sempre fui iô iô, engordo e emagreço, eu nem olho direito quando a balança sobe demais, e dificilmente permaneço por mais de 5 anos com o mesmo peso.

Parar de fumar e engordar,  está para o sal e a pimenta (aqueles potinhos na mesa de restaurante), e como a cabeça funciona com essa vitória parcial (parar de fumar), e descontentamento momentâneo, de não se estar satisfeito em ganhar peso (quem estaria? só os magros, né?), acontece por causa da mudança no metabolismo, e acontece em muitos casos, eu sei eu sei. Mas dos males o menor, parar de fumar é muito mais importante que uns quilinhos a mais, eles não vão me intimidar e muito menos tirar meu sono, esse é o meu mantra, mas não custa nada fazer um esforcinho pra tentar voltar ao normal. Querer se enganar é muito pior.
O namorado não reclama, na verdade homi gosta de carne, homem gosta de agarrar e não é cachorro, não curte ossos, mas nem é uma questão de homem gostar, eu me prefiro sem esses bacons supérfluos, haja motivação!

Quase que ia me esquecendo dessa data hoje, os dias 14. Esqueci que eu parei (de contar), só lembro de vez em quando: "não sou mais fumante" e vou ver no calendário. 'Olha, já passou mais um mês.'
Está sendo mais fácil do que eu imaginava (seria meu lado camaleônico, adaptável, e não que seja lá tão fácil como digitar a palavra "fácil"), não sinto falta do cigarro em si como nos primeiros meses, e isso até me assusta.
Esses dias sonhei que ainda fumava, e em meu sonho sentia uma certa vergonha pela falta de persistência "eu tinha parado"(era a realidade entrando dentro do sonho), mas foi só acordar e perceber, que tinha sido um sonho mesmo (que alívio), o que quer dizer que há uma parte de mim que ainda fuma, mesmo não fumando mais, estranho isso se for pensar, as aparências sempre enganam, os sonhos dizem tanto da gente, como as coisas funcionam dentro de nós.
Então no sonho estava fumando, mas era ex-fumante que fumava. Vai explicar?
No sonho não veio à tona os quilos a mais na balança (e no meu corpo). Sei que sou exagerada, não tenho um corpo perfeito, aprendi a gostar de mim, a dar os meus truques, a cabeça sempre é o mais importante do que a imagem no espelho.



Sem o cigarro me sinto melhor, claro (não há como negar), mais saudável e a sensação de vitória ao vício não tem preço, blablablá.
O único problema foi adquirir peso/massa/banha (argh!!!), as roupas do inverno passado não servem mais, todavia eu sabia que isso iria acontecer, estava avisada, e mesmo assim eu arrisquei, o que de um lado da balança me orgulho (nunca mais fumei), do outro me incomoda pois como diz um amigo"magreza e dinheiro não faz mal à ninguém", pois a gente não engorda no lugar que se quer, não vejo nenhuma alegria em ter que comprar roupas num tamanho maior, e tem a vaidade, tudo é vaidade, digamos, que eu concorde em termos, falando apenas de aparências, ninguém gosta de aparentar triste, feio, descontente com o próprio visual, pesado, e a gordura (localizada) pode funcionar como fator negativo na auto-estima, é complicado ter um corpo, a parte de dentro e a parte de fora em harmonia, são tantos fatores a considerar, e principalmente a qualidade de vida, repensar métodos, alimentação, tudo em prol do bem estar, mas como negar que a gente se sente bem quando come uma barra de chocolate, aquele aroma de bolo no forno? Elaborar uma refeição mais caprichada, sem ter que pensar quantas calorias, aquilo vai te engordar?

Gostaria de devolver esse presente de grego através de caminhadas, bicicleta, corrida, yoga, subir escadas (descobrir novamente essa maneira de me movimentar) a gente esquece e sobe escadas rolantes, elevadores, e não perder a oportunidade de dançar, sim essa é a chave do meu próximo sucesso, me movimentar, fazer, sair, subir, descer, coisas que sempre gostei, não só porque quero mandar "a oferenda de volta ao mar"(os quilos a mais), mas porque quero tentar, dançar, dançar, dançar... Mas como dançar? Aonde dançar, com quem dançar e sair? Os tempos mudaram,voltar a ser jovem como antigamente dançar todos os dias, im-pos-sí-vel, eu mudei, mudei de país, mudei de vida, mudei de estilo de vida, tudo muda até as estações mudam.


E como toquei nas estações do ano, o inverno está por vir tempo de hibernar e de engordar, pois hibernar e engordar é outra duplinha dinâmica no frio, assim como o pimenteiro e o sal.
Como faz(er)?
Cartas pra redação!






Sunday, August 12, 2012

Ninguém gosta



Ninguém gosta

Ninguém gosta
de ser abandonado
de não ser ouvido
de ser e se descobrir traído
de ser esquecido
de não ser lembrado
de ser coagido
de ser obrigado
de ser enganado
de ser interrompido
ninguém gosta

Ninguém gosta de ser maltratado
de ser acuado
de ser pressionado
de ser ignorado
de ser criticado
de ser amaldiçoado
de ser praguejado
de ser ofendido
se sentir usado
ninguém gosta

Ninguém gosta de amar
e não ser amado
de escrever e não ser lido
de gritar e não ser ouvido
de sofrer e ser preterido
de adoecer e não ser curado
de esperar e não ser atendido
de partir de si mesmo e permanecer perdido
ninguém gosta

Ninguém gosta de enganar a alma
de acovardar-se diante do medo
desistir e ter fraquezas constantes
de promessas ilusórias
de ignorância e falta de memória
ninguém gosta

Ninguém gosta de que o tempo
o torne cego, surdo e mudo
isolado das belezas simples
pesado pelos dias passados
se descobrir velho e cansado
de acordar num belo dia e perceber
que ninguém se importa
e nem a própria vida é importante.




Sunday, May 13, 2012

Pare Agora!

I know

Quem me acompanha no Cara livro sabe: sim, eu parei de fumar, e amanhã completarão 2 meses, sem nicotina, dia 14 de maio de 2012.

Dois meses sem o cigarro depois do café, depois da comida, no papo ao telefone, na balada, na caminhada, na saída das lojas, no encontro com amigos (fumantes), depois daquelas horas..., dos momentos de filosofia, bla bla e mais blablabla. Telma eu não sou gay (...) meu bem, eu PAREI, e diga ai, que essa patrulha anti-fumo é pessoal, eu me patrulho, eu mudei. 

Ai que duro, ai que difícil...ai que mentira, eu que escolhi, optei, parei.
Consegui e pronto, não fumo mais, masco muito chicletes sem açúcar, sou horrível mascando chicletes, fico feia, mas dane-se, preciso deles, de vez em quando, nem gosto muito de chicletes, o chiclete inventei pra fechar a boca, pois no primeiro mês engordei 2 kg, estou controlando a balança, e é normal engordar 4 kg (tem gente que engorda mais), o metabolismo muda, é normal, ter um pneu ao redor da cintura, ai que medo, mas pra tudo há um controle, e às vezes as coisas são piores que parecem.

Você se sente melhor, né? 

- Não, não me sinto melhor, me sinto péssima, às vezes. E essa pergunta (de não fumante, óbvio), já me dá vontade de dar um soco, sim eu me sinto melhor, mas estou bem mais agressiva. (faz parte do processo de purificação, querer matar alguém que se atravessa com perguntas de "boa intenção"), estou ainda em fase de abstinência, será que essa pessoa sabe o que é isso? Abstinência, vício, vencer o vício, mudar.

Sim tenho mais resistência, sim me sinto mais saudável, sim eu estou orgulhosa de mim mesma, sim, é uma grande vitória, e seria uma vitória final, mas não, todo dia é uma batalha, todo dia sem fumar, uma vitória. Corri uma "tipo maratona", de quase 7 km na minha cidade, sim, eu consegui correr o percurso todo sem parar, e sem botar os "bofes pra fora", sem sentir aquela dor lateral, me senti em pleno processo de detox, saudável, a tal, pra realmente gostar mais de mim, e me vencer, ficar com dentes mais brancos, pulmões limpos, e tudo o mais. 
Antigamente os médicos receitavam cigarros, acredita?


Até quando vou segurar? Sei lá, espero que pra sempre.

Não quero louros de ninguém, e não sou hipócrita em dizer que FOI FÁCIL, não foi, e não está sendo fácil, mas também não foi difícil, o difícil é todo dia, não é uma situação FIXA, parei, acabou, está acabado, palmas, pega lá seu troféu de ex-fumante, vá pra casa, não fume mais, e pare de encher o saco! Ah! se essa maneira resolvesse vícios de anos, a maneira do vapt vupt, tem uma ciência ai, tem uma inteligência ai, parar depois de mais de 22 anos, como eu parei "cold turkey".

Mas não me sinto melhor (visivelmente), as mudanças são internas (dentro do corpo mesmo), eu era ótima antes, só que fumava, eu era uma fumante civilizada (viu só? posso me defender), só causava mal à mim mesma, nunca fumava dentro de casa (sem fumantes passivos por perto), fazia chuva, sol, vento, neve, e como é frio lá fora na Holanda, como faz tempo ruim, cinza, vento, frio frio frio...mas eu fumava lá fora, tinha meu casaco de fumar lá fora, meus sapatos de fumar lá fora, o cinzeiro lá fora, pensava na vida quando fumava lá fora, e agora eu não vou mais pra fora (quando o tempo está ruim). 

Normalmente na visita em casa de uma pessoa não fumante (a maioria das pessoas não fuma e nem tem mais cinzeiros em casa), eu adiava o fumo, pedir pra sair lá fora, na chuva, na fazenda, deixar o papo quente, pra acender a chama do meu vício, ai que belezinha, eu adiava, não fumava, claro o papo devia estar muito bom, porque muitas vezes pensei, não fumante é muito chato, ao circular pelas rodas de fumantes ensandecidos, ansiosos anônimos, drogados e prostituídos, gente de fino trato como eu.

Claro, na casa de fumantes (os poucos que restam), eu me sentia fazendo parte do grupo, da tribo, da clã, mas como odiava lugares (bares/clubs) com alas FECHADAS de fumantes (já que aqui na Holanda a maioria dos lugares não tem um exaustor de circulação de ar como temos no Brasil), janelas abertas? o que é isso... aqui é janela fechada, um nojo, fumante como eu odiava esses lugares, esses infernos cheios de brasas e fumaças, cof cof cof.

Sim, eu colocava as bitucas no chão a revelia, depois colocava perto de outras bitucas pra me sentir menos culpada, mas estava aprendendo a colocar no lixo, a apagar e jogar nas lixeiras públicas, ou levar pra casa (no caso de não encontrar um lixo na rua), era obrigada pelo meu filho, que dizia que as bitucas causavam muito mal ao meio-ambiente e que o filtro demorava 5 anos pra se decompor e que jogar lixo no chão era inaceitável (irracionalmente nunca considerei bituca de cigarro lixo, sentiu a ignorância da patroa aqui?). No início eu só guardava as bitucas quando ele estava comigo, depois comecei a me sentir culpada de largar sujeira no chão já que praticamente dava poucas baforadas, e quando parei de fumar...comecei a perceber o quanto as pessoas jogam bitucas no chão. Jogar aonde? 
Nas lixeiras pra causar incêndios? Em cinzeiros públicos inexistentes? Onde jogar as bitucas? Nenhum maço de cigarro está escrito: FUMAR É PREJUDICIAL A SAÚDE, e LEMBRE-SE de apagar o CIGARRO e NÃO JOGAR AS BITUCAS NO CHÃO, guarde no bolso, bolsa, leve pra casa, coloque no lixo de sua casa, o governo se responsabilizará por suas bitucas, junto com o lixo lixo nas coletas de lixo, e mandará pra os grandes lixões na África junto com outros cacarecos e sujeiras perebentas, e estamos conversados.



E dizem que o prefeito de Nova Iorque queria proibir das pessoas fumarem no Central Park tempos atrás?
Tá, mas como funciona o imposto? Os governos precisam dos impostos sobre os cigarros industrializados, o povo precisa de xxx pra ir pros hospitais, usar os hospitais (oh! como assim?), e morrer em paz (depois de meses de tratamento), mas os sistemas de saúde (como o da Holanda) precisa pagar a conta desses hospitais, os governos estão em débitos com os hospitais, mas o governo precisa do dinheiro da tributação do tabaco, precisa sanar os débitos com os hospitais, ai ai ai, como fica mesmo, melhor escrever aqui, se fumar o bicho pega, se proibir de fumar o bicho come e corre solto por ai, e eu não sei resolver esse problema, me deixa em paz.

Respiração, como respiro bem agora sinto que o ar puro, inspiro, expiro...seguro, vou lá de vez em quando, pare agora! E o agora foi dia 12 de março de 2012, como se fosse ontem. 




Wednesday, April 25, 2012



Eu raramente choro, aliás...não choro mais, parece que os dramas da minha vida evaporaram, lágrimas de crocodilos então? Nem sei mais o que é isso, me emociono, mas as emoções mudaram, onde foram as lágrimas?

Será que ainda sou humana? Será que ainda me emociono de verdade? Tudo o que não quero é ser piegas, ser dramática, não quero mais isso, perda de tempo, apesar de saber que o tempo não se perde, se aprende, se vive, hoje em dia eu percebo as coisas como elas são, sei que tudo pode mudar do dia pra noite, numa fração de segundos, mas não me desespero como costumava me desesperar, não me (d)escabelo, não me arranho, não grito mais, não quebro espelho, não rasgo papéis, e fotos (nunca rasguei), e nem maldigo a Deus, eu sei que ele não existe, eu seguro a onda, eu amadureci, eu mudei, eu mudo.

Mas hoje chorei, e bastante, chorei por causa de morte * causa justa, chorei porque estou viva, e percebo que cada vez que a morte ronda, ela deixa pessoas tristes, confusas, ela deixa a gente com a boca aberta, com aquele vazio, vácuo, dá aquela rasteira...eu choro por nós os vivos, chorei pela fragilidade de nossas vidas, chorei porque vamos morrer um dia, e que todo mundo ao nosso redor vai morrer também, sem avisar (praticamente)...chorei porque não posso fazer nada, chorei porque o marido da avó das crianças morreu, deixando a mulher sozinha. Chorei porque ele teve um ataque no coração, um golpe fulminante, assim...nesse dia lindo de sol e céu azul, raridade na Holanda. Nesse começo de primavera fantástico, que deixa nós meros mortais do hemisfério norte felizes e cheios de energia. Chorei porque ele sempre foi legal comigo, desde que cheguei na Holanda, sempre pronto pra me ajudar. Chorei porque o conhecia há 15 anos.

O coração dele parou, e ele se foi...e nós ficamos, sempre alguém fica, uns vão, outros ficam, ninguém volta pra contar.
E me preocupo, sinto por eles os que ficam, eles sentem, e dos que vêem o corpo morto, de frente...os que dão a notícia, os que não estão preparados a lidar, com essas coisas da vida, a morte, porque na verdade, na vida real, quem está preparado? As pessoas próximas, as pessoas que sentirão falta no dia a dia, claro todos podemos viver sozinhos, somos sozinhos, porém é triste.

A vida continua após a morte, é preciso cuidar do funeral, do caixão, dos rituais de morto, é preciso se despedir do morto, é preciso protocolo, convidar as pessoas, participar a morte, mandar cartões, fazer cartões (é assim que é aqui na Holanda), se paga um seguro funeral (enterro/cremação), terá café, chá, bolo ou só biscoitos? Meus pêsames, se manda cartão de condolências, é educado, faz parte, o que não faz parte, é achar palavras, sorte que os cartões já possuem essas palavras que a gente não acha, assunto delicado, quem gosta? Morte, ninguém, compreensível.

É uma partida, uma despedida,para dar algumas resposta à nós que ficamos, em vida, nesse planeta, nessa esfera, nessa dimensão, nesse Universo.

Pra onde irão os mortos? Onde irá  opa Jan Willem?

Ultimamente tenho pensado muito na morte, nos mortos...e cada dia me convenço, que não resta nada, que a matéria se esvai, que o tal espírito/alma/energia...se dissolve no Universo, Multiverso, que nem antes da vida, antes da vida, não existia vida, se houver reencarnação, será outro corpo/carne/ossos, nunca esse.
Que não há vida após a morte para aqueles que morreram, apenas há vida após a morte, pra nós que estamos vivos, é muito duro, é muito triste, nunca mais veremos os parentes mortos, os amigos, nunca mais nos encontraremos, mas essa idéia...é a idéia de vivo, pra isso existe LUTO.

Não é preciso chorar (demais), nem se desesperar...acabamos calados, mudos diante da morte, sem explicação nenhuma, os que se foram, só ficam na nossa memória. Nós ficamos, até chegar o nosso dia, e assim ficaremos na memória, por um tempo determinado daqueles que ficam, pra depois deixarmos de existir pra sempre, ou pra existir somente em literatura/história...como os bons e maus que passaram por esse mundo civilizado, os famosos de verdade.
De resto, nada tem importância...é triste admitir, mas nada mais importa.

E quanto ao choro, fui consolada e consolei, tentei, consegui, cada um tem seu próprio luto, é individual.
Que fiquemos em paz, mortos e vivos, enquanto houver vida, e depois da morte.




Monday, March 19, 2012

6 dias sem cigarro - parei

Consegui, há 6 dias que não fumo.
Uma vitória diária. No primeiro dia, lembro bem, o dia inteiro os pensamentos eram, acender um cigarro, e não acendar mais nenhum cigarro...pois bem, o tempo está passando, e eu não acendi nenhum.

Lembro que uma amiga fumante disse: você não vai ficar chata que nem ex-fumante, né?

Bom, né? O que dizer?
De qualquer maneira ainda está cedo, pra saber qual será meu comportamento, mas pelo que me conheço, eu terei que mudar o meu discurso, fumante é fumante, ex-fumante é ex-fumante, e não fumante (que nunca fumou) nunca fumou e não conhece, os dois lados, sei lá, só quero ser eu normalmente, ser eu sem cigarros, eu NOVO.

No outono da vida, no auge dos meus 51 anos, a boa idéia numa bela idade, parei de fumar.
Comecei a fumar com um conceito, aliás essa minha tendência conceitual me acompanha ao longo da minha vida, quase tudo pra mim tem um conceito, um capítulo, um tomo, como se estivesse escrevendo um livro imaginário.

A cara tava seca demais, a garganta tava seca demais, me sentindo velha demais, contra fumantes (hipócrita)  fiz uma promesa, e agora era a hora de cumpri-la. Promesa, anos atrás achei que ia parar aos 50. Os 50 chegaram e nada, mas 51 está bom. Comecei com 26 (1986), parei mais ou menos 3 anos (entre a gravidez da Dominique, depois Dimitri, dei 10 meses de peito pro Dimi), voltei quando me divorciei, então vamos fazer essa conta, não fumei durante 3 anos, então foram 22 anos de vida de fumante, levando o treco na minha boca, inalando, dando baforadas. Não posso dizer que era uma fumante inveterada, mas era viciada, e ainda por cima, uma fumante completamente desajeitada, nos últimos tempos, dava umas 4 baforadas e colocava o cigarro fora, na rua estava com paranóia que as pessoas me julgassem, aliás era como se todo mundo (passantes não fumantes, ou sem cigarros nas mãos), olhassem pra mim dizendo em pensamentos: "Ela ainda fuma, coitada, hahaha".

Me sentia um lixo humano, porque...sobrava um tantão do cigarro (dinheiro jogado fora), e ao mesmo tempo fumava com mais frequência, já que fumava menos. Entenderam?
Chega de veneno de rato! Basta!

E como nada me interessa mais nesse momento, eu vou colocar aqui tudo relacionado com essa fase que estou passando, de ex fumante, que posso avisar, está sendo bem difícil, não que agora só pense em acender o cigarro, porque agora quem quer vencer sou eu, porque o vício da nicotina é osso duro de roer, só quem já fumou e parou sabe, ou quem nem tentar tenta, por medo de falhar.

Pra começar, eu já devia ter começado a escrever, mas não deu, eu até queria fazer um outro blog, mas pra que abrir outro, fazer outra conta? Essa é minha vida, esse é meu bloguinho.

Hoje foi um dia que eu senti muita falta do cigarro, mas de jeito nenhum quero fumar novamente, estou me sentindo muito bem, e diferente, parece que comecei uma nova vida, me mudei de país, de cidade, de emprego.

O mais interessante em parar de fumar, é  como a gente se livra de um hábito horroroso, anos e anos de vício e dependência de cigarro, a gente não se reconhece mais sem cigarros e temos que nos reconhecer e conhecer novamente, nos reeducarmos, é tudo novidade, e temos que prestar atenção a todo instante, porque era sempre um café, um cigarro, uma refeição um cigarro, uma conversa bacana, um cigarro, telefone, cigarro, uma caminhada (um cigarro), ...sorte que hoje em dia ninguém mais fuma dentro de ambientes, e os fumantes estão sendo cercados por todos os lados, coitados, mas é ainda cedo pra contar vitórias, a vitória é o diária como já disse. A recaída pode ser fácil...e eu quero persistir e ser forte.


Outra, dá uma fome do 'cão', e ficar gorda, seria um castigo, não uma recompensa, tenho que tomar cuidado, sorte que eu tenho uma experiência horrorosa com comer demais (literalmente me entupir de comida), um dia que fumei uma maconha (lá pelos idos dos anos 70, tinha uns 16 anos), pois foi quando fumei maconha (e muito pouco), nunca gostei, sempre achei maconha uma chatice, nunca tive o "perfil" de maconheira, porque era contra o cigarro, e contra maconha, mas jacaré sempre morre pela boca.

E cheguei em casa, comi a geladeira inteira (tudo que tinha de restos, e olha que na nossa casa tinha comida demais na geladeira, sempre tinha sobremesas, lasanhas, pães, bolos, geléias feitas pela minha mãe, sempre chegava alguém morrendo de fome da rua e minha mãe cozinhava pra um pelotão), coloquei catchup em tudo pra acompanhar os salgados (me entupi) que vergonha contar isso agora, me senti tão mal, tão mal, mas tão mal, sentei no sofá no living (era moderno dizer living nos anos 70) completamente cheia, enjoada, stoned, parecia que ia explodir que nem a Dona Redonda da Saramandaia (veja o vídeo acima), e o homem no restaurante do filme Monty Phyton..., minha mãe querendo ajudar, quis me trazer um copo d'água com um remédio pro estômago, ela não imaginava que eu tinha me drogado, e eu não podia falar que era larica, e parecia que eu tinha um saco sem fundos...que meu estômago não existia, e nem falar direito conseguia, tive que ficar parada por horas no sofá, até a comida descer, foi uma tortura, uma experiência, inesquecível e desagradável, burra, merecia mesmo, adolescente idiota faz burrada mesmo.

Óbvio, que nem lembrei dos conselhos do vô Horácio, uruguayo, magro, elegante, inteligente, charmoso, caminhava muito, dizia que nunca comia dois pratos de comida, nunca repetia, que ali estava sua sabedoria, comer somente o necessário, o cérebro é lerdo dizia, viveu 93 longos anos. A dona Redonda não explodiu.
E agora eu vou dormir, amanhã...serão 7 dias, e estou curiosa pra ver o que vai acontecer, amanhã quero beber água quando der aquela vontade de comer qualquer coisa, mas não quero explodir, e ficar infeliz, quero curtir esses primeiros dias do resto de minha vida de ex-fumante.


Saturday, March 10, 2012

Paralisia do sono e crenças pessoais

Já se passaram alguns dias desde a minha primeira(?) experiência de Paralisia_do_sono. A paralisia do sono é um distúrbio do sono muito comum, mas nunca tinha acontecido comigo, nas minhas aventuras oníricas, já tive sonhos premonitórios,  já vi meu corpo levitar, ir até o teto enquando o corpo estava deitado na cama, e eu me olhando lá de cima dormindo. Já tive pesadelos horríveis (assim como todo mundo), já tive muitos sonhos eróticos (como todo mundo), já tive sonhos lúcidos (no futuro próximo quero me aventurar nesse ramo), ...sonho e adoro, normalmente lembro de meus sonhos, mas é só acordar e perceber: um sonho é apenas um sonho, nunca tem sequência.

Dizem que a metade da população do planeta têm ou terá, pelo menos 1, 2 vezes na vida um episódio de paralisia do sono, quem viver verá, se você que está lendo isso nunca teve, sinta-se avisado, é pior que pesadelo, muito pior, é um pesadelo acordado, e a diferença que percebi (antes de saber sobre o assunto), é que os pesadelos sempre têm um final feliz (a gente acorda antes de se esborrachar no chão por exemplo ou antes que o monstro horrendo faça a gente em picadinhos), na paralisia do sono não, pânico e pavor permanecem presentes ao acordar,  a única alternativa é se informar, saber que é um dos distúrbios do sono, que tudo está na nossa cabeça.

Antes de continuar, gostaria de dizer que se você não tem nenhum interesse por onirismo: interrompa essa leitura, siga ao próximo blog, antes que você leve uma surra. Quem avisa amigo é!

Vou dar meu relato pessoal (abaixo) e quero dizer de antemão como ele se associa com minhas crenças pessoais inconscientes, normalmente os sonhos na paralisia do sono estão associados com a cultura dos povos (oriente ou ocidente, povos primitivos, suas religiões e crenças) que podem aparecer em forma de alucinações = fiz uma pequena pesquisa (afinal teria que dormir na mesma cama), não sosseguei enquanto não achei uma resposta aceitável (para poder dormir novamente) e escrevendo agora nesse blog, estou dando mais ênfase à esse assunto e espero que isso não seja processado no meu não-consciente, afinal não quero ter outro tipo de sonho como esse tão cedo), apesar de saber que dificilmente terei a mesma experiência, e dessa vez estarei preparada com algumas dicas básicas que aprendi. Li bastante sobre o tema e vi que as diferentes crenças são evidenciadas nos relatos de distúrbio do sono da maioria das pessoas. Li relatos de pessoas em blogs e sites científicos e não científicos, (de vários cantos do planeta), li muita bobagem relacionada ao tema é claro, por ignorância, fiz a triagem do joio e do trigo, li em português, inglês e holandês (os relatos se assemelham independente dos idiomas), ainda não li livros relacionados ao assunto, dois deles me interessam: O livro tibetano dos mortos e o livro de /Sleep-Paralysis-Night-mares-Connection-Anthropology de Shelley R. Adler encomendarei assim que possível, tenho um fraco por minha vida paralela, por meditação e estados de consciência, e muita coisa que diz respeito a essas viagens inter galácticas de nossa mente, tudo que me ajuda a interpretar minha vida, meus anseios, a superar meus medos mais profundos, tudo que me acorda e me interessa, curiosidade é o que nunca me faltou.

O que sempre me fascinava no mundo onírico, é que não temos controle de praticamente nada, não podemos planejar passo a passo, não podemos limitar as coisas e eventos como o fazemos quando estamos acordados, mas eles nos ajudam muito a lidar com a camada mais tênue entre a consciente e a percepção, a intuição dando direções à uma vida mais verdadeira, na incansável busca do (auto)-conhecimento e recentemente descobri que sim, podemos sim fazer um treinamento para termos e identificarmos um sonho lúcido, e a até a paralisia do sono abre essas portas, mas isso deixarei para outra postagem.



Para relatar o meu sonho, preciso com antecedência me ater a um fato muito importante do meu passado (o meio em que nasci, o cenário; Brasil Católico, mãe católica, colégio de freiras, frequentei coral de Igreja, etc), participei  das crenças de meu povo ativamente (feriados santos), vamos rir um pouquinho minha gente (risos). Não questiono mais isso, são fatos. Paralelo à isso sempre surgiram dúvidas desde pequena aos dogmas do Cristianismo (Espírito Santo, Virgem Maria, Ressureição de Cristo, os mais comuns), mesmo sendo OBRIGADA a acreditar nessa doutrina, nesses dogmas, eu sempre questionei calada, (ninguém obriga ninguém a acreditar em nada realmente), acreditamos no que queremos acreditar. E mais tarde depois no budismo que pratiquei (já aqui na Holanda) sendo que a filosofia budista sempre me atraiu, abro parêntese para dizer que não considero um mal (não podemos mudar o passado), apenas entender os fatos e relacioná-los ou questioná-los à luz da razão. Ser ou não religioso é um rótulo que carregamos, cabe a cada um saber de si, ao longo de nossas vidas, quer aceitemos isso ou não, a etiqueta externa (religioso, ateu, agnóstico, seja o que for), e há um certo rótulo interno (digamos que exista uma determinada lavagem cerebral feita no passado), que mesmo ao refutarmos essas experiências passadas , ficam elas lá latentes. As imposições vêm do externo, de fora para dentro, e assim nossas crenças vão se manifestando sem nos darmos conta racionalmente, sendo implantadas na nossa consciência, o mesmo que implante de cabelo (a pessoa é careca mas tem um cabelo postiço), mas no fundo ela sabe que aquele cabeça é ilusão, ele pode sonhar que esteja ainda careca,  a prótese de silicone seria o mesmo exemplo. Na tenra idade (infância), esses são conceitos vindos de fora, também valores (de fora), como bem e mal, o bem e mal é relativo. Já o que se manifesta na camada interna (inconsciente/subconsciente) mesmo que isso não seja consciente pela maioria, não temos controle, o que se processa é simplesmente processado, misturado, triturado, nonsense, até comum num universo onírico. Não estou e nem pretendo provar nada científico ou dizer que foi uma experiência espiritual, apenas quero exemplicar minha experiência pessoal, tentando ser mais clara e racional possível. Não quero questionar religiões, nem fé aqui (hoje).


Rezar pra mim sempre considerei uma forma de proteção, e de pedir coisas, assim era quando pequena, para dormir com os anjos tinha que rezar. E os pedidos: Eu prometo ser boazinha se conseguir passar nos exames, conseguir o que quero, e essas coisas, bem como me livrar dos males (de todos os tipos) do diabo, dos monstros ou pessoas ruins, foi me ensinado que era pra rezar aos mortos, senão eles não entrariam no céu (ameaça) isso na infância, fui crescendo e as orações eram para ajudar os doentes, proteção, etc,...quando pequena achava que rezar era muito chato, porque eu começava e caia no sono, quer dizer, às vezes não tinha tempo o suficiente de fazer o sinal da cruz (do final) pra fechar a oração, e esperava não passar nem pelo purgatório, porque afinal quem quer ficar num lugar ermo de pessoas chorando e rangendo os dentes até se redimir de seus pecados? (todo o cristão depois dos 7 anos é um pecador). Eu sempre tive mais asco da idéia do purgatório, porque sabia que era muito boazinha pro inferno, afinal não tinha cometido nenhum pecado mortal, só venial, ou seja, ia ter que passar pelo PURGATÓRIO. E outra, por anos a fio, em Porto Alegre, cada vez que passava na frente de uma igreja, fazia o sinal da cruz, às vezes eu tinha vergonha de fazê-lo, mas como boa católica (era obrigada), e se alguém me pegasse e me culpasse: passou na frente da igreja e não fez? Seria pecado, e teria que me confessar, e a irmã ia dar nota baixa por comportamento, vai saber o castigo. E quando o fazia (na presença de alguém não tão católico assim, faziam troça da minha cara (não era cool). Até que um dia (nem lembro quando), desisti e larguei de mão aquele martírio, daqui por diante, não faria mais o maldito/bendito sinal da cruz ao passar na frente de igreja, assumi a responsabilidade.

Crucifixos e adornos eu sempre gostei (aliás adoro cemitérios, cenários lúgubres e cinzentos), eles significavam que os vampiros, demônios, ou qualquer forças malévolas que fossem se apoderar de mim, sumissem pra bem longe (sempre fui fã de filmes de terror). Pensando de outra forma, o escudo de proteção invisível da nave Júpiter 2 (Perdidos no Espaço, minha série favorita), o anel pra chamar Shazan surtia o mesmo efeito, a réstia de alhos, as balas de prata (onde achar, e lá criança carrega armas de fogo?), o taco de madeira fincado no coração (essa proteção contra vampiros achava muito lerda), armas protetoras contra o mal, sem esqueçar a LUZ (do sol).

Os anos se passaram e eu vim morar na Holanda, já como católica não praticante, e aqui na Holanda no geral as pessoas não são religiosas,  já foram protestantes (a percentagem existente é mínima), os estrangeiros constroem seus templos, suas mesquitas, suas igrejas, e a religião protestante (e pequena parcela católica está em extinção) há claro comunidades religiosas, sectos, e uma finita e considerável população New Age.

Lá pelo ano de 2002 se não estou enganada, tive uma introdução ao budismo numa reunião levada por um amigo ( shakubuku) , e gostei muito porque estava tentando aumentar meu círculo social, e lá encontrei pessoas bem legais, italianos, holandeses, japoneses, e gostei da atmosfera pois fazíamos reuniões nas casas das pessoas (fiz várias na minha casa), fazíamos chanting juntos, e conheci pessoas que sou amiga até hoje. Acontece que a São Tomé aqui, continuou sendo São Tomé. Me identifiquei por uns tempos com a filosofia budista, de outro lado, não pude negar minha consciência martelando, no budismo a igreja era disfarçada, e até o pior, o problema é sempre o mesmo, os tais fiéis (querendo resolver os seus problemas) e assuntos desnecessários ao redor, fé inabalável devemos ter em nós mesmos, e no livre arbítrio do que é bom pra nós e ponto final.

Ai Meu Deus, ai meu Buda (qual deles?) que dilema, e de repente estava até podando meu vocabulário, uma confusão mental, e resolvi ser sincera comigo mesmo, e abandonei a etiqueta das duas. Não sou NADA, não quero ser nada DISSO, me deixem em paz. E me tenho paz até hoje.

Relato:

Deitada sozinha no lado esquerdo da cama (de casal = meu lado), no meu próprio quarto de barriga pra cima, tapada com os meus edredons normais (cobertor extra), apenas com a cabeça de fora. Sinto um perigo eminente (estou de olhos abertos), o perigo toma proporções maiores, terror, pavor, medo, ameaças, e eis que sinto e vejo a figura de uma mulher magra ao lado direito de cabelos brancos semi longos desgrenhados, perto da guarda da cama (acho que é minha mãe morta, mas minha mãe não era magra, e seu cabelo apesar de branco sempre estava arrumado, fiquei na dúvida), peço ajuda mentalmente pois ela como mãe e morta vai me ajudar, o perigo está no ar e é apavorante, mas ELA NÃO ME OUVE, porque estou muda (o pedido de S.O.S. foi só na minha cabeça), da minha boca não sai nada, absolutamente nada, só no meu pensamento, e ela vai embora, nem sei se era a minha mãe ou não *, afinal minha mãe me remetia a um semblante de bondade. Me sinto abandonada, ameaçada, apavorada, ela foi embora, não percebeu que estava em perigo, ou não quis me ajudar só ficou ali, me olhando, tento fazer o SINAL DA CRUZ (não tenho outra saída, no meu sonho sabia que aquilo era ridículo (lucidez), uma apelação, mas era isso ou a morte), mas eis que não posso me mexer (o meu segundo pedido de ajuda e proteção falha)...fecho os olhos novamente (questões de segundos de sonhos), abro novamente ESTOU ACORDADA (no meu quarto, na mesma posição) um pouco mais cinza claro (as paredes são pintadas de branco), mas estou dormindo e ao lado esquerdo (o lado que ainda estou deitada de barriga pra cima imóvel) está uma criatura masculina magra não dá pra ver direito suas feições (depois descobri que era um humanóide), acinzentada, careca de cabelos ralos, alguns fios, ele está sentado ao lado da cama (só posso ver o tronco, os membros superiores a cabeça e sentir a má intenção, e seu braço esquerdo está próximo de meu peito (por alguns segundos pensei que poderia ser um tipo de sonho erótico, tenho frio), mas seu braço parece que entra no meu tórax pra tirar minha vida, pegar meu coração, que pavor, fecho os olhos, isso é a morte penso (a única saída fechar os olhos), abro (pois não sei o que é pior deixá-los abertos ou fechados) e ele não está mais ali. Me sinto nesse momento, completamente em pânico (imóvel), acordada, como se no meu quarto estivesse 'cheio de assombrações' agora invisíveis, (essas duas pessoas mortas que apareceram no meu sonho) o que elas querem de mim? E eu muda e imóvel, paralisada, atônita e sentindo uma imensa dor (não física), medo, pavor, terror, morte, estaria morta? Penso ligeiramente nas crianças dormindo nos quartos ao lado, SOCORRO DIMITRI, SOCORRO DOMINIQUE, estou muda, eles não me ouvem, nunca tive medo de nada, moro numa casa de 3 pisos sózinha com as crianças, o que está acontecendo comigo? Acordo (dessa vez de verdade)  apavorada (o quarto é o mesmo), eles se foram, mas estou com medo de pegar no sono novamente (medo de me virar, medo de me levantar, pânico),  completamente angustiada. (fim).




A paralisia do sono é simplesmente um distúrbio do sono, nada mais que isso, agora eu sei, sabendo disso, desse tipo de sonho, estou acordada pra muitas coisas, que mesmo que eu não queira, ainda estão adormecidas em mim.Acordei com uma certa vergonha de ter feito o sinal da cruz (como assim não sou mais católica e não acredito em sinal da cruz) pensando ligeiramente (afinal estava em perigo), somente quando pesquisei na internet e dois amigos do Facebook me contaram o que era, fui pesquisar e aos poucos aprendi e entendi o que aquele tal Sinal da Cruz significava no contexto (achei exatamente a explicação racional desejada) foi-se a vergonha. Nossa mente é uma caixa de surpresas, que venham os pesadelos, os monstros mais bestiais da ignorância, as almas mais penadas e sobrenaturais, bem-vindo sejam os pesadelos mais obscuros, entre vivos e mortos arrastando correntes, agora sei que eles são fichinha, e têm sempre um FINAL FELIZ; paralisia do sono, não, o final feliz você tem que procurar por si próprio ao acordar, se informando sobre o assunto, senão, você ficará com medo de dormir no mesmo quarto, na mesma cama, de pegar no sono, tanto faz sozinho ou acompanhado, pois mesmo que você tenha alguém ao lado, ele jamais vai poder protegê-lo de si mesmo. E que venham agora os sonhos lúcidos, Amen.

* a mulher magra do sonho só pode ser Old Hag, vivendo e aprendendo.

** queria agradecer a esse blog português, obrigada.



Thursday, February 2, 2012

Fumar é ainda sexy?



Preciso parar de fumar (um dia), que dia? Ainda não decidi.
Gostaria que fosse um belo dia. Decisão tomada, parei e pronto, nada de remédios, nada de pastilhas, adesivos, acupuntura, nada...e ainda por cima não engordar, e não sentir vontade de fumar, entrar pra o time de ex-fumante da noite pro dia. Como? Fazendo uma promessa.

A pele agradeceria, o pulmão...o fôlego, a saúde em geral, a minha reputação como vitoriosa, porque realmente, parar de fumar para um viciado em nicotina, é uma vitória.
Às vezes tenho vergonha de fumar...me escondo, fumo quando não estou perto de escola, ou de não fumantes (eles me julgam com aquele olhar "ela ainda FUMA"), não fumo antes de um "encontro/consulta" importante, tenho vergonha e pronto, não fumo andando de bicicleta (coitado do coração), escondi de minhas alunas de yoga que fumava quando dava aula de yoga (elas nunca perceberam), não fumo de luvas (passo frio mesmo), me sinto rebaixada, viciada e prostituída diminuída, burra, com a alma vendida aos grandes fabricantes de tabaco, do século passado aqui na Holanda um maço de cigarro é caro, e se for ver bem, eu dou 3 baforadas e jogo fora, puro desperdício de dinheiro, muitos fumantes dizem que eu não fumo, mas eu bem sei que fumo, sim...e estou vivendo (na dúvida, entre parar de vez, ou mandar tudo às favas, até chegar o dia D).

Sei sei, não fumo dentro de casa...não suporto fumaça de cigarro, gente fumando em lugares fechados, acho um nojo, passo mal, argh...sou uma fumante sensata e tenho consideração com não fumantes.

Mas tem outra versão, a versão realista, com amigas (fumantes), saímos pra beber, no verão Prosecco, no Inverno Prosecco...e dá-lhe cigarro, risadas, conversas calorosas, pois a vida já é dura o suficiente, e quem garante que iremos morrer de câncer? E quem garante alguma coisa, não nos sentimos meras "estatísticas"...conheci gente de 94 anos que fumou e morreu, outra de 18 que nunca fumou e morreu, ainda fumo e me deixa criar a desculpa que quiser, o pulmão é meu, o dinheiro...e fumar é sexy (na foto), desculpas, desculpas e mais, desculpas, vício não é brincadeira.

Dane-se, porque muitos fumantes são pessoas diferentes...mais ousadas (mais burras, arriscam suas vidas), interessantes (aparentemente), fumar é sexy...(os dentes ficam amarelos, a língua mais suja, o cheiro dos dedos mais fedidos (é só lavar mais as mãos), e o da roupa então, dos cabelos, a pele mais seca, fica escamosa, dá-lhe cremes) uma boa pegada com mãos e cheiro de nicotina,..., claro, eu faço parte desse time, seria hipócrita não gostar de homem fumante. Cada um sustentando o seu próprio vício, (que mal tem?), muito mal, poderiam usar o dinheiro pra viajar.Admiradores da lua (qualquer uma) numa noite fria de inverno (se o céu não tiver encoberto), e no verão, de preferência ao ar livre, adultos, um homem e uma mulher, dois amantes, dois fumantes...o cheiro de amor e nicotina, dividir o cigarro (não gosto muito, mas acontece), na praia (claro, não combina com natureza, nem com água do mar, da lagoa, da piscina), não somos perfeitos,  mãos, me passa a toalha, seco as mãos... dane-se também...o Universo é vasto, não se fuma mais dentro de lugares, ao ar livre...Vamos fumar lá fora? Que romântico...até o primeiro parar de fumar...
Estou esperando alguém, eu fumo...(me enveneno).

Ultimamente esse é o meu lado bi-polar...continuar a fumar, esperar que um raio caia do céu, e diga: Pára agora!!! Continuar a dar dinheiro pra cooperar com o capital das grandes empresas, corporações até, ou parar de fumar como uma boa yogini, porque pareço uma má yogini, óbvio, eu sou... dar bom exemplo aos meus filhos (meu filho simplesmente não entende minhas desculpas), ser careta total, pois não fumo maconha, bebo socialmente vinho tinto nas refeições, oops jantar, um cálice é bom pro sangue, pro coração. Bebo vinho tinto desde criança, e de lá pra cá são 51 anos, uma boa idéia, e seria uma ótima idéia, parar A-GO-RA... mas e o medo de ficar gorda, a necessidade psicológica de levar algo à boca que estou ciente que terei, o nervosismo e o criticismo de uma ex fumante (sempre fui contra o cigarro, até quando comecei em 1986), criando a desculpa do cigarro como companheiro, muleta, na solidão, no desespero das más notícias, recaídas, seria o cigarro o verdadeiro vilão? Não, é o vício.

Gente que fuma é burra e pé de chinelo...bom, ex-fumante, espero que não seja, porque a Rainha Beatrix parou: leia aqui.


Parar, seria muito mais fácil, me sobraria mais dinheiro pra gastar com coisas boas, com eventos interessantes (como assim? sem cigarro? devem existir),  e o prazer de fumar com amigos, rir, depois de um café? Copinho na mão. O prazer misturado com vício, e vida social, alívio de tensões cotidianas (a yoga não basta?) hoje em dia os fumantes vão pras sacadas, se locomovem numa festa, lá dentro os não fumantes não ousam a ir à espaços frios, com temperaturas negativas, não dão uma pausa, não visitam quiosque de cigarros e revistas, não trocam idéias com os donos da bancas sobre amenidades (claro, o cara precisa faturar0, sobre a vida longa ou não de isqueiros, sobre o aumento do cigarro e os impostos, as proibições e novas leis, o assunto iria diminuir, porque diminui...não será mais necessário comprar cigarros, se comunicar com essas pessoas, a garganta agradece, adieu. Me dá um maço de marlboro? Vermelho ou Light? Por favor um L&M de € 5,50! (mais barato que o Marlboro). The end.

Poucos fumantes de hoje em dia têm piteiras ou fumam com elán (a coisa tá ficando vintage),  eu tenho duas, uma de boqueta de ouro, e outra ganhei de presente do extravagante (ex) editor Pedro Paulo de Sena Madureira , com quem tive o privilégio de conviver na boêmia (pronuncia-se bo-ê-mia, não esqueçam) de São Paulo nos anos 90, ele claro e seu cara metade Carlos Henrique. Pra mim ele era uma figura mítica na noite e só, só? Sempre vestido como um dandy de gravata borboleta, sempre com aquela piteira na mão ou nos lábios, que ganhara de presente de  Marguerite_Yourcenar.

Como parar de fumar? Como fazer que nem meu pai, que aos 40 anos parou, parou...de sopetão, começou a chupar balas de menta dizia, cada vez que dava vontade, daquelas clássicas de papel verde, antes muito antes do Halls menthos-lyptus entrarem em ação no mercado...aquele chuá na boca...
Papai contava esse episódio com um certo orgulho cheio de modéstia, pois não era dado a se gabar sobre o vício do tabagismo, chegara um momento que ele dizia que não podia mais conversar com as pessoas, a vontade de fumar era tanta, que ficava se tateando, até achar o maço...e a concentração na conversa era parca, o que acarretava uma situação desconfortável era o ano de 1957, ano que o cigarro era símbolo de charme,  prazer, status...e fumar era permitido, em todos os lugares, até nos hospitais, para mulheres era símbolo de emancipação, para homens masculinidade, amenizar o nervosismo. Minha mãe nunca fumou, imagino a cena, ela pedindo pra ele parar, dar bom exemplo (quem sabe?)...mas e a minha cintura? Ficarei mais Sponge Bob Square Pants (cintura quadrada), quantos quilos eu vou ganhar, não quero ganhar nada, quero só deixar de fumar, que nem fez meu pai.

Não me orgulho de fumar (estou me repetindo) seria muita burrice minha fazer apologia ao uso e vício da nicotina nos tempos de hoje, apesar de saber que nem tanto ao sul, nem tanto ao norte, usar tabaco é muito antigo, é um vício social ("eles" viciam a gente), e só faz mal a pessoa que dele seu uso faz (se a criatura fumar longe de crianças) e não jogar bituca em tudo quanto é lugar, chiclete faz até mais sujeira e custa mais pra limpar as ruas (desculpa).

Enfim, voltando à promessa, seria a minha própria palavra, sou uma pessoa de palavra, e me cobro. Eu versus Eu. Eu (que fiz a promessa) vs Eu viciada...quem vencerá?

Prometerei parar oficialmente à mim mesma, nada de promessas à santos, deuses, orixás...nada de cunho religioso, fanático, nada disso, no caso de algo acontecer...(uma dádiva dos deuses do monte Olimpo, ou Forças cósmicas, ou até telúricas = algo importante e significativo)... Uma promessa simplesmente, que é como uma dívida a cumprir, o compromisso, o método, meu método.

Ainda não é oficial, sei que preciso, sei que será melhor pra minha saúde, pros meus dentes, pra minha pele, pro meu bolso, sei que me policiarei, sei que virarei uma chata de galocha (normalmente um ex fumante é mais chato que não fumante, é e pronto), sei muita coisa, arrancarei meus cabelos, só não sei ainda como será o período de abstinência mesmo...e nem o dia.

A promessa ainda não foi feita...deixa lá eu dar umas baforadas antes, pois só de falar em cigarro, me dá uma vontade louca de fumar. Quem viver, verá.






Friday, January 6, 2012

"Houston, we have a problem."

Hoje mais do que nunca me lembrei dessa frase de socorro.

Depois de ficar 1 semana sem os DD's, a minha filha (o meu filho...ele volta amanhã) voltou hoje pra casa, e claro eu estava morrendo de saudades, e louca para dar o chocolate que mandei colocar o nome dela, do chocolatier belga Dominique Persoone que trouxe especialmente pra ela de Antuérpia, que no final ficou até meu amigo de Facebook.

Minha filha se chama Dominique (como muitos também sabem), tem 13 anos e é uma menina muito saudável, aparentemente, louca por chocolates e Anne Frank.
Algumas pessoas que acompanham esse blog (dá pra contar nos dedos), sabem que ela é autista, mas a maioria não sabe o que é conviver com uma pessoa autista, a vida inteira, no caso nesses 13 anos de vida. O diagnóstico de autismo clássico foi dado aos 4 anos de idade, depois de mais de 10 meses de pesquisas intensivas no Centro de Autismo em Leiden...de lá pra cá, minha vida tomou um rumo jamais pensado e imaginado, não me encaixo na categoria de pais de "criança (só) NORMAL"...e quando digo, normal, é de criança que se comunica, que berra, que manipula, que faz companhia, que acompanha, que pensa junto, que briga, e faz as pazes, criança que enche o saco com pentelhação quero isso quero aquilo. Como o símbolo do autismo, a cabeça da minha filha, é um quebra cabeça, daqueles impossíveis, e às vezes tenho a sensação que estar presente, é tudo que posso oferecer, ela nunca pede nada,

Dominique tem esse nome lindo, que modéstia a parte escolhi depois de muito pensar, por causa da alegria da música "Dominique, nique, nique"...e porque tenho um fraco por nomes franceses, soam tão bem aos ouvidos. Se ela não tivesse sido chamada Dominique teria sido: Giselle (o nome de uma grande amiga minha do segundo grau, que veio de Santarém pra viver em Porto Alegre) e do ballet Giselle...que é magia para muita garotas, principalmente daquelas que nunca puderam quando criança participar de aulas de balé como eu.
Minha amiga Giselle, também se chamava Martha (com "th", que chique, né?), sabia francês, nas escolas do Pará era francês ao invés de inglês, e era excelente em matemática, principalmente em equações de primeiro e segundo-grau (que eu era péssima).
Trocávamos conhecimentos, eu explicava inglês pra ela, e ela matemática pra mim. E só não coloquei o nome quando tive filha, porque aqui a pronúncia na Holanda seria "Rizzél" (e não Gisell(e).


Mas como sempre começo algum assunto, e vou para sei lá aonde? Não quero perder o fio da meada, do título dessa postagem no blog.
O ano de 2012 chegou, e a primeira semana já passou, mas a vida continua na mudança de calendário, e com ela os problemas de cada um.
Sempre achei que problemas eram pra serem solucionados, mas quando temos um problema sem solução como fica?
Não posso dizer que a minha filha é o problema em si, mas a atitude dela, portanto, lanço essa mensagem na garrafa, e talvez alguém leia...aliás o problema é o autismo em si, essa palavrinha estranha, de definição mais estranha ainda. Acho que na verdade autismo não tem explicação, explicar pra quê? É o mesmo quando se tem alguma dor, como explicar a dor...a outra pessoa pode até entender, mas não sente.

Já há alguns anos ela é "doidinha" pela Anne Frank, nem quero voltar atrás...mas acho que nos últimos 3 anos se não estou enganada, é Anne Frank no café, almoço, jantar. O primeiro livro (Diário de Anne Frank) que ela ganhou, foi da "tipo babá" (begeleiderster = é uma pessoa que passa 3 horas com ela por semana), mas não é somente uma babá. Também cansei de explicar essas coisas aqui na Holanda, pois não há comparativo no Brasil que eu conheça. É uma pessoa digamos, que trabalha para uma firma, e monitoriza autistas, individualmente (indo na casa), e também nos finais de semana (grupo de no máximo 4 autistas, quando eles vão passar 1 final de semana por mês fora de casa) e quando se tem um PGB (persoonsgebonden budget), uma lei na Holanda AWBZ (Algemene wet bijzondere ziektekosten) Lei geral de doenças especiais e seus custos. No caso, eu tenho direito a pagar um capital anual para pagar esses custos dessas pessoas especiais que ficam com ela nessas 3 horas por semana, e mais um final de semana por mês que ela vai pra algum lugar na Holanda com 2 acompanhantes (adultos mulheres) e outros autistas, no máximo 4.

Pois essa pessoa que se chama Ellen, depois de tanto anos trabalhando pra mim (nós), deu o "Diário de Anne Frank"  de presente, uma edição antiga, usada, de capa dura, como uma encadernação daquelas de antigamente boa, com cordão, papel amarelado, nem tanto...e o mais especial que o original, pois Anne escreveu em holandês.
Depois de um bom tempo ter andado pra cima e pra baixo, eis que as páginas foram caíndo...(algumas), e um belo dia achei na lixeira do quarto de Dominique, as páginas caídas, e algumas arrancadas...
Já tarde demais, não consegui achar todas as páginas, e com uma dor no coração, coloquei algumas páginas soltas e algumas rasgadas no lixo. Dominique acabou com o livro...
Fora o poster de Anne, outros livros (sobre a II guerra mundial), várias cópias xerox de alguns personagens/integrantes do esconderijo (Peter, Margot), ela tem quase um acervo, anda pra cima e pra baixo com essas cópias, e ultimamente ela fica perguntando:

- Você acha o Peter bonito? (Peter era o menino que morava no esconderijo da outra família que foi conviver com os Frank), ela tem uma cópia A4 de uma foto do Peter.
- Ele parece que tem "auto-confiança"?
- Ele parece sei lá o que nessa foto?
- Você acha que ele é(ra) tímido?

Como se Peter ainda existisse...

Às vezes fico com vontade de gritar e dizer: esquece esse Peter (ele está morto)...
Esquece a Anne, ela está morta.
Esquece tudo...
Mas a Dominique é assim: ela se apega nessa obsessão, e deixa quase todo mundo louco ao redor: eu, o irmão, até os professores, essa obsessão está demorando pra passar, por falta de outra...ou sei lá, por qual motivo. É a obsessão dela, e tem algo de sinistro nisso, mas nada tenho a fazer pra mudar, esperar a próxima que poderá ser bem pior.

No Natal, ela ganhou mais 2 DVD's do filme (versões diferentes), e na verdade ela queria a versão "The whole story", mas não conseguir achar nem na internet...com legendas em holândes, aliás nem sem legendas.
E do meu namorado ganhou novamente "O diário" (livro novo) sendo que ele até comentou esperançoso: "Espero que Dominique não rasgue esse". Claro que não, respondi... Dentre todos os presentes, ela se agarrou naquele e não largou mais, nem os DVD's ela deu bola, afinal não era "The whole story" com o ator do Gandhi no papel de Otto Frank. A segunda semana das férias de dezembro, ela foi passar na casa da avó, e claro...na bolsa, levou o livro...se ela pudesse, tomaria até banho com ele, de tão contente.

Hoje ela voltou pra casa, e perguntei onde está o livro?

- Na casa do papa(i) respondeu.

Pensei co meus botões, que estranho...como ela deixou na casa do pai, se tinha ficado tão contente com o livro?

Ela me disse (a maneira que entendi), que era pra moderar...ou quando estivesse na casa do pai, teria o livro pra ver/ler. (que ela já deve ter lido, folheado milhares de vezes).

Eis que subo no quarto dela e encima da escrivaninha, qual não foi a minha surpresa quando vi, algumas páginas soltas, já pressentindo algo 'estranho' no ar.
Dito e feito, eram páginas soltas do "Diário de Anne Frank" (o novo) que ela tinha gostado tanto.
Abismada, desci na sala (onde ela se encontrava no computador), perguntei pra ela (tentando não me mostrar zangada), perguntei...que página eram essas do livro velho ou novo (sabendo pela cor "não amarelada" que era do livro novo, mas querendo ouvir dela.

É do velho. Disse...

Conta a verdade Dominique, não estou zangada com você.

Depois de ter certeza que eu não estava zangada, me confessou que era do novo.

E eu perguntei, mas cadê o resto do livro? A capa bacana (vide foto acima) com a foto e aquele sorriso da Anne?

Coloquei no LIXO na casa da "oma" (avó).

No lixo? Mas dá pra colar com durex (fica horrível lógico,...), enterrar no quintal, sei lá...

Mas assim é a Dominique, faz uma cara de que não entende nada, se ausenta estando presente. Sem emoção, sem expressão até...a expressão existe mais porque eu estou na sala, eu estou tentando me comunicar com ela, mas ela olha pra mim como se não entendesse nada, simplesmente as páginas começaram a despencar, e ela colocou (a maioria fora).

Fico com medo. Olho pra ela...e dali, não sai mais nada, nenhum questionamento, nenhuma pergunta, nenhuma explicação. Eu tento fazer perguntas, mas vejo que é sem sentido, que não terei nenhuma resposta. Cada vez mais ela se isolada, não tem amigas, não participa, não assiste nem TV, não se interessa por quase nada (exceto Youtube, sempre os mesmos vídeos - Anne Frank, Anne Frank, Anne Frank)...às vezes Lost...(o seriado).
Desistiu das aulas de equitação, não demonstrou paixão alguma depois de 1 ano, levei-a numa apresentação de coral que poderíamos participar (músicas sacras na língua holandesa, ela não abriu a boca).
Só me acompanha pra sair, quando é obrigada...porque por ela ficaria no quarto trancada, fazendo nada, estalando os dedos, cheia de tiques, só desce para as refeições, pra beber água. Umas semanas atrás disse que precisava de uns "jeans", no que fomos nas lojas, e acabei comprando várias roupas, porque aproveitei a oportunidade.
Quando aparece alguma visita, e ela se "obriga" a ficar no mesmo ambiente (dá uma de normal), só faz perguntas, normalmente são as mesmas perguntas, pras diferentes pessoas.

É muito estranho o autismo, conviver com um autista é estar com alguém e sentir solidão, que nem sinto quando estou só, porisso que disse:

"Houston, we have a problem."