Sunday, February 5, 2017

Um gato pra chamar de meu

Postagem do outono de 2015.

Ando pelas ruas com a maior energia, se ando sozinha, é uma festa, no sentido que faço o que quero e ninguém me enche o saco, se ando com a minha filha, procuro lugares não muito tumultuados onde ela não saia do eixo dela. Se ando com meu filho e namorado, precisaria escrever sobre isso numa outra ocasião, eles me podam e às vezes parecem que eles me odeiam, não propriamente odiar, mas são contra o meu jeito de ser. Assim, na ida para algum lugar, ou sem destino, se vou pra rua, sou completamente dona de mim, porém no fim do dia...estou cansada, como uma anciã de 100 anos.  Hoje por exemplo fui pra Haia (Den Haag), voltei pra Leiden e tomei um trem e fui no meu filho que matou aula, dois dias sem ir na escola (mama mia), o que fiz para merecer isso? E lá chegando ele tinha acabado de acordar, meio-dia. Mandei ele tomar banho, e ir pra escola, que a coordenadora (diretora) queria falar com ele, no que ele demorou uma hora e meia pra tal. E quando eu sai para um lado de trem, e ele de bicicleta, ele não foi pra escola. Foi fazer a identidade dele, já que só tem o passaporte.

Estou cansada. Duas semanas atrás deu tudo errado quando fui buscar a minha filha. Ela começou a me bater na rua, e tive que ligar pro pai dela para buscá-la. Ela desconta em mim, todas as frustrações. Depois se arrepende. Não é à toa que ela mora num 'begeleidingwoning', numa moradia com acompanhamento, assistentes, toda monitora e auxiliada nas atividades diárias. Me canso. Eu faço tudo pra agradar as pessoas, mas o que está acontecendo que estou esquecendo de mim? Não, não esqueço de mim, e não sou a única. Ter filhos, marido, namorado, pesa muito em responsabilidades, e às vezes estou somente cansada, e são nesses momentos que sinto. Eu mereço me dar atenção.

Fico cansada e estou cansada e começo a me queixar pra mim e lá vem o diálogo interno, o que será que está acontecendo. Eu deveria chutar o balde, e mandar todos pra pastarem. Penso no meu namorado, que acha ridículo minha maneira de fazer as coisas, colocar a mesa bonitinha, guardanapos combinando, copos todos do mesmo tamanho, garfos/facas na posição correta. Umas uvas para enfeitar, e ele reclama, que é uma besteira eu fazer isso. Claro, eu deveria mandar ele pastar também.
E esses dias de golpe, impeachtment, falcatruas, brigas com amigos, que nem sei se são amigos. Não quero agradar ninguém, cansei, estou cansada.
Por mim sumiria, iria para um lugar bem longe de todos, sem internet...e voltaria com outro nome, escolheria uma meia dúzia de amigos no Facebook, e começaria do zero, de tanta frustração, naquelas, foi comprar cigarros e nem fuma.

Quando o cansaço vem culpo a idade, ou seria a acidez do corpo, as frutas que não como (ou como de menos), legumes de menos, o vinho, a yoga diária que virou olhar pra fora e viajar na maionese, olhe pra dentro Bebete! Mas o que fazer? Sempre tive muita vitalidade, energia, mas o gás agora tem que ser melhor trabalhado, nada a fazer, é a idade mesmo? Ou sim, continuar nessa labuta e achar uma harmonia, entre o cansaço físico e o mental, e a minha vitalidade e energia, dando limites para os outros não forçarem a barra.
... os longos 55 anos andando, caminhando, pintando cabelo, mirando um monitor, o celular, sentada na cadeira, poltrona, sofá, miro um espelho passando batom, os carros passam, as bicicletas passam, as pessoas passam, o tempo passa e não sou vista, e nem quero ser vista, como antigamente, acostumei assim e até me escondo, quando resolvo fazer uma aparição, ou chamo atenção me sinto uma estranha no ninho (saio do esquema do comum com algum detalhe), eles me olham, mas não me vêem realmente...coloco um chapéu, coloco um gorro, quero ser discreta e sigo na camuflagem, preciso ser discreta, passar batido e as folhas vão caíndo, amarelas, vermelhas, como se ainda fossem belas, tudo na minha cabeça diante de meus pés, elas caem e secam, feias, desidratadas, esqueléticas, mortas. Outono, essa estação maravilhosa, todas essas cores, esses convites...à preparação do longo inverno, também maravilhoso, a hibernação, o vinho, o chocolate com creme, tudo uma festa, com livros, papéis, luminárias, o piano capengando mas indo. ♫...até Netflix eu tenho para me manter longe de mim.
Ponho o pé fora da porta, toda montada (vestida da cabeça aos pés) pessoas doidas, bêbadas, estrangeiras, urinam nas alamedas, se drogam à luz do dia, me xingam...eu sou daquelas que ando nas alamedas, se procuro é por coisas belas, uma vitrine de loja, ou de casa, os gatos que andam por ai atrás das vitrines, um chão, um piso, uma folha que ainda não morreu, lojas de antiguidades, artes, monumentos históricos, meu olhar fotografa o banal, o normal, o comum, incomum e me deparo com loucos, bêbados, sem teto, gente que circula por ai, sem refúgios, sem lar. Gente infeliz, que não pensa direito, sobrevivem sei lá como. Sorte que para casa 1 infeliz tem 9 felizes* circulando pelo planeta, e como eu gostam de viver a própria vida e não ser estorvo para ninguém. E toda a felicidade que falo, é ficar na sua, não odiar o outro por ser outro, um desconhecido.
Entro num dos cafés prediletos, barista, sou exigente...tenho a liberdade de escolha. Odeio comércio só com objetivo comercial, financeiro, ideal comercial, sem alma. Gosto dos pequenos cafés, onde os donos são aqueles que trabalham, pequenos comerciantes atrás do que curtem, do que gostam de fazer, do que sabem. Artistas e não somente vendedores, artesões do bem estar. Um café latte s.v.p.! Um biscoito, uma água pra acompanhar, uma torta de maçã ou de caramelo com gengibre, sempre um livro e um cadeiro capa dura na bolsa, fora o celular, e a necessidade viciante de compartilhar um estado de animo. Esses segredos de pessoas como eu, o ser feliz andando a esmo, nas alamedas, se vestir pra mim, tomar café, chá, livros, piano e sempre em busca de inspiração em brechós, lojinhas...
A vida segue errante, chega um momento que nada lá fora é tão interessante quanto as minhas caminhadas pelas ruelas, becos. Tudo já passou, como se tivesse vivido na grande prosa da vida, vários livros, vários contos, vários poemas e não me resta mais nada, a não ser sobreviver e viver a meu modo, acabaram-se os ensaios, e esse é o pensamento cansado, porque no dia seguinte...o humor muda, o pique muda, fico sonhando em encontrar alguém como eu, pra conversar, parecido, mas diferente...e olho tudo que tenho, tudo que colecionei, todos os cartões, papéis, móveis, cores, livros, olho pra mim com esse cabelo longo, penso novamente, pintarei ou não pintarei...corto ou não corto? Se eu pudesse teria alguém fazendo por mim, cuidando dos meus cabelos, mas como não tenho, eu mesmo tenho que me esforça. A 'boa' aparência no reflexo no espelho, os cuidados com o meu templo, meu corpo...dizem muito sobre como me sinto por dentro. Tudo que faço é pra mim...sou uma caçadora de inspiração, tudo me inspira como se tivesse ainda a curiosidade daquela menina de 13 anos, com a vida repleta de aventuras pela frente.
Ser muitas não é uma tarefa fácil. Fácil acho é ser alguém que é uma só, um só. Eles nascem e já sabem o que são, o que querem fazer, o que os move...e nem a palavra fácil se adequa.
Eu sou o contrário, por medo de fracassar em meio à tantas escolhas eu não me jogo completamente, não me dou ao direito de arrependimentos, não me arrependo, palavra riscada no meu vocabulário particular. Eu pondero, penso, me organizo, demoro muito para tomar uma decisão perante tantos caminhos, tantos interesses, apesar de minha destreza de resolver pepinos como mãe, como uma mulher emancipada, independente, descobri que sou ótima, nesses anos todos e lá se vão...13 anos no divórcio, enterrei de vez um pseudo príncipe que vai me salvar de todos os dragões, do mal. Vejo pessoas cometendo os mesmos erros que cometi. Todos eles foram ótimas lições, apesar de todo o sofrimento, toda a lenga lenga, do amor, do desamor, do medo da solidão. Se eu soubesse antes que eu me bastava, não estaria agora a escrever essas linhas.
Volta e meia aparece um gato aqui dentro de casa, um gato bichano mesmo, que não é o meu, e penso...que desapego, não preciso de nada e ninguém pra chamar de meu, porque tudo é meu e ao mesmo tempo nada.
E um gato pra chamar de meu, mesmo que seja esses gatos da vizinhança, seria mais um apego ou trabalhar o desapego, porque ninguém é dono de ninguém.


Tchau querida!

Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes? O mar da história é agitado. As ameaças e as gue...