Friday, August 31, 2007

Farol de Santa Marta


Se tem um lugar mágico na terra, aliás acredito que tenha muitos, é o farol de Santa Marta, na ilha em Santa Catarina que faz parte do município de Laguna, uma cidade que conheço muito bem, dentre outras do litoral catarinense.


Eu sempre fui uma daquelas pessoas que oscilaram entre o oriente e o ocidente, a direita e a esquerda, a mundanidade e a espiritualidade, hotel ***** o amor e uma cabana, as ondulações suaves da areia da praia nas dunas, as intempéries da montanha, e outras dubialidades na vida.

Se tive dinheiro não queria aparentar ter, se não tive tudo que eu queria era ter, o lado materialista-consumista se degladeia constantemente na minha vida, como se eu nunca tivesse paz, eu e meus dilemas de luxo.

Pelo menos não sou monótona pra mim mesma, dizem que através da dúvida chegamos a Deus criador, que eu não acredito, mas se não acredito é porque o nego, então ele existe, sei lá.

Mas foi no farol de Santa Marta que passei aventuras incríveis de contato com o nada, fora da civilizaçao, quando na praia de santa Marta passei um inverno com meu namorado que não era só um surfista, mas uma surfista da verdade, o homem mais inteligente que eu conheci em toda a face da terra, uma pessoa apaixonante que todos se apaixonavam, homens, mulheres. De matemático a enfermeiro, me dava aulas de química, história e qualquer encontro com ele, não é um mero encontro casual, sempre aprendo muito. Ano passado vivendo em Passo Fundo - uma cidade no interior do Rio Grande do Sul (4 horas de carro de Porto Alegre), ele me confessou sua paixão diante da personalidade de George Ivanovitch Gurdjieff. Sai de lá morrendo de curiosidade sobre a vida do cara, e quando cheguei em Porto Alegre, achei um livro que ele me falara "Encontros com homens notáveis", consegui lê-lo no conforto do meu trailler as margens do rio Ourthe, onde ficava o camping International, onde fiquei 8 dias com meus dois filhos e meu namorado P.


P. já conhecia as Ardennes - região que compreende uma parte da Bélgica, Alemanha, Luxemburgo e França. E quando se tira férias com crianças, temos que ir pra lugares onde as crianças se sintam a vontade, com várias atividades pra fazer e principalmente em contato com a natureza e situações diversas, diferentes da rotina do dia a dia, e meu filho principalmente é uma criança que demonstra muito interesse no mundo animal, mineral e vegetal, colecionas fósseis, pedras e aprendeu a fazer fogo, o que um dia descobri seus lençóis, cobertos de manchas pretas, e uma parte da cama também.


O lugar era ideal, a paz que eu procurava pra ler, meditar, se bem que no primeiro dia relutei um pouco com as "facilidades do lugar". Usar toillete's coletivos, lavar a louça em outro lugar levando uma baciazinha tosca, uma esponjinha, escovinha e detergente, ui...boa notícia, os banheiros eram limpíssimos, a água era quente pra lavar louça, e o vai e vem era engraçado, porque sempre me encontrava com uma lagartixa que morava perto das plantas na escada onde se situava a recepção, lunchroom, WC's e lugares p/ lavar louça, buscar água.

Ainda falarei sobre minhas férias nesse lugar numa outra ocasião, porque visitei muitos lugares interessantes, e fiz muita coisas inimagináveis...mas confesso que foi uma de minhas melhores viagens em família.


Porisso que relembrei o Farol de Santa Marta, no estado de Santa Catarina no Brasil, lá só existia na praia de Santa Marta, somente uma árvore, tomar banho era difícil, mas tinha muitas ondas, e eu como namorada de surfista, me contentava humildemente em contemplar o pôr-do-sol, comer camarão, tomar banho de canequinha, ou sei lá como era...porque fazem muitos anos atrás, o amor enchia nossas barrigas mais do que o camarão, a beleza solitária do lugar no inverno era completamente adversa ao verão e pessoas a procura de aventura confortável, sendo que poucos sabia sobre os "sambaquis"(cemitérios indígenas) datados de 4.500 anos do lugar, na época pré-colonização européia. Nunca mais voltei naquele patrimônio arqueológico, estou ocupada agora, em descobrir outros, me preparar pra minha viagem ao Egito com meu filho, mas antes disso me preparar pra rotina que começa na segunda feira.


De volta às aulas.

Friday, August 3, 2007

Trets


Voltei ontem a noite de Trets e Marselha na bela região de "Provence" na França.


Pela primeira vez fui a um seminário de verão organizado pela Soka Gakkai, a organização que faço parte do budismo de Nitiren Daishonin, o budismo do Nam myoho renge kyo.

A sede geral é em Trets.




Três semanas atrás tive uma recaída de depressão e não estava com a mínima vontade de ir ao curso, porque temia ter uma crise por lá, e ter que me confinar aos meus aposentos. Mas venci a apatia e temor e fui pra França, sem expectativas nenhuma...pensei, seja o que for, eu vou sobreviver e me preparei, apesar de ter achado um saco ter que deixar o meu líquido das lentes de contato, falaram que os mililitros eram acima do permitido, e lá fiquei eu sem lentes de contao, sorte que tenho os óculos.




Já no avião conheci uma menina francesa, e ficamos "amigas", conversamos sobre quase tudo, o pai dela é holandês, mas ela não aprendeu a língua pois cresceu na França, ela se chama Sáskia, e me ajudou com o francês dela, pegamos um ônibus no aeroporto juntas, e depois o metro. Ela desceu numa estação, e eu desci numa estação perto do hotel na belíssima região da cidade no porto antigo, em pleno mar Mediterrâneo, consegui até sentir as vibrações vindas de além mar do norte da África. Pobre Sáskia, se distraiu e esqueceu a raquete de tênis no ônibus, mas eu fortunadamente fui no achados e perdidos do aeroporto na volta, e consegui resgatá-la, como havia trocado contatos, mandei uma sms pra ela, que ficou super feliz e agradecida.


E lá eu andando pra cima e pra baixo com uma raquete de tênis...




Ao chegar no hotel, meu amigo Luiz (meu shakubuku pai) estava me esperando no quarto. Tomei banho, fizemos daimoku e gongyo da noite e fomos comer algo na região do centro/porto, a luz estava extraordinária, pôr do sol lindo, e depois saímos pra noite. Comi uma "pizza da Armênia" e tomei uma coca cola. Luiz fala fluentemente o francês e eu me atrevi a falar umas bobagens, voilá, merci beaucoup, informacion sis vous plait, e essa coisinhas. Sabendo umas palavras de francês dá pra se virar, porque cada vez mais as pessoas falam inglês na França, um inglês pobre, mas falam, principalmente os jovens.




Marselha é uma cidade de várias personalidades, multi-cultural e de imigrantes norte africanos,


e outros países.


Uma cidade muito antiga, que está sendo modernizada, e cada vez mais visita por turistas. Até brasileiros encontrei por lá (estamos em todos os lugares). E achei as pessoas muito amáveis e simpáticas. Dizem que a arrogância está mais em Paris. E gosto muito de sair da Holanda, porque além de ver montanhas, morros, percebo que as pessoas olham pra mim, fazem contato, e na Holanda...ninguém olha pra ninguém.




Fomos no club "Lust", uma disco média, e a música estava muito boa, apesar de eu não estar empolgada pra dançar, e a faixa etária ser abaixo de 25 anos. Era um club mix, gay and straights, e eu adoro observar as pessoas pelo menos, ver os flyers, e tinha um vídeo incrível dos jogadores de Rugby franceses em p&b, vídeo erótico, mas todos pareciam bofes. Luiz é bem mais viajado do que eu, e já conheci um menino chamado Richard de 18 anos, e fizemos amizades com o Stephan que por coincidência é divorciado e tem dois filhos de 7 e 9 anos, e até ofereceu bebida pra gente. Uma coca cola custava 5 euros, o que eu achei um roubo. O cigarro Marlboro também era mais caro que na Holanda, também 5 euros...Fume tue...


Voltamos pra casa de taxí (como falam os franceses), e o motorista falou que conheceu o Riô (Rio de Janeiro), e percebeu que éramos brasileiros.




Era madrugada, e Luiz partiu pela manhã pra Cotê D'Azur, Cannes, Nice porque não conseguiu vaga no curso e eu voltei pro aeroporto pra pegar o ônibus pra Trets (lugar onde fica a sede cultural da Soka Gakkai na Europa e África). Fiquei 5 horas sozinha esperando o tal ônibus num calor de 30 graus. Finalmente vi alguns budistas que também tomariam o mesmo ônibus.




Ao chegar em Trets, no meio das montanhas e de uma área verde, fomos recebidos pelos voluntários, indicando como funcionava tudo e com a programação das "intensivas" atividades do curso.




Cada quarto tem 3 camas, banheiro, lâmpadas individuais...tudo bem bonitinho, limpo, organizado, melhor até que muitos hotéis, dei sorte e minhas companheiras de quarta eram duas mulheres super simpáticas, a Mônica (matraqueava bastante), e a Maureen (que é holandesa ms morou 15 anos na Itália, e foi casada 3 vezes).


E as refeições eram abundantes, café da manhã completo, depois almoço com prato inicial, prato principal e sobremesa, vinhos tinto e rosé e água, pães.


E nas pausas café, chá, sucos...nossa comi, tanto que fiquei com um barrigão enorme, mas aproveite, não bebi álcool por causa dos remédios, deixei pra última noite, porque a bebida influencia no meu humor, fico speed, depois deprê.




Passei dias de incrível intensidade, estudo dos Goshos (escritiras budistas), rezas (chanting), e reuniões em grupo para interpretações pessoais dos estudos e leituras.


Pra comprovar a eficácia dessa prática budista, há também o relato de experiênciais pessoais.


Pessoas que venceram o câncer, filhos com problemas, problemas de alcoolismo, pessoas que acham que a felicidade está fora delas, e outras experiências como morte na família por exemplo


Algumas me tocaram profundamente, porque percebi que existe gente muito pior que eu, e que se eles conseguiram superar, eu também conseguirei, é parece fácil, mas quando você ouve uma experiência de uma mãe que quase perdeu o filho, ou de um filho drogado e que se auto-mutilava, ou de uma que perdeu o seio e teve que fazer quimioterapia, ficou careca, e outra que perdeu o marido, e depois teve câncer, e outro que perdeu a esposa alcóolatra e a filha começou a beber, ou de outro gay que queria ter um namorado porque queria, largou tudo por "amor"...mudou de país, depois descobriu que o "love" era prostituto. E por ai vai....




Estava sozinha, e às vezes me sentia sozinha, mas conheci algumas pessoais as quais me afeiçoei, adorei uma japonesas que pareciam bonequinhas, eram muito divertidas, e nos últimos dias, sentávamos juntas à mesa, servíamos umas as outras, sei lá, tenho uma coisa com os orientais, uma atração, sinto que eles dão mais, sem receber nada em troca, e nós os ocidentais, somos mais egoístas, em geral claro.


Ao todo éramos em 150 pessoas, no terceiro dia eu estava completamente "quebrada", com tanta atividade, como se fosse uma maratona espiritual em prol do desenvolvimento pessoal pela vida diária e a filosofia de Nitiren. O sozinha era por causa propria, porque também conhecia duas pessoas tipo pai e mães Maarten Beckers e sua esposa japonesa Kyomi, pessoas na faixa dos 65 anos, budista há séculos, e eles sabiam do meu caso, de vez em quando aparecem em Leiden para uma visita, ou seja, podia contar com eles se acontecesse algo.




E mesmo cansada, me senti orgulhosa de mim mesmo, por não ter me escondido - digo, ter ficado trancada no meu quarto, e ter aprendido que a vida continua, e eu não posso ficar me lamuriando, tenho o direito de achar o equilíbrio entre o passado e presente, e procurar uma qualidade de vida, não comprometer a qualidade de vida e crescimento dos meus filhos, e não perder energia com "coisas baixas"...com atalhos, vencer, vencer a bosta (desculpe o termo) da bipolaridade, turn my world up.


O lugar inspirava um clima de tranquilidade, sem ser férias, muito pelo contrário, o trabalho referente a melhora pessoal de cada um era evidente, 6 dias sem televisão, ipod, internet, rádio, minha ligação com o mundo lá fora era meu celular que tocou 4 vezes, e eu fumei que nem uma condenada, apesar de ter áreas restritas pra fumo.




Meu grupo era o número 3. Já no primeiro dia, descobri que também iria cooperar, e arregaçar as mangas. Depois de almoçar, o meu grupo era responsável pela limpeza do restaurante, limpar as mesas, varrer o chão, e colocar os pratos, talheres, copos da próxima refeição...baixou a Maria em mim, mas o trabalho em grupo é inacreditável, fica pronto em segundos, e antes de começar a reclamar, já estava tudo pronto.




E no último dia, fizemos o mutirão da limpeza geral dos dois principais grandes prédios, o dos alojamentos e o grande prédio onde fica o altar principal com o Gohonzon (mandala).


Eu fiquei responsável pela limpeza das mesas.




Na noite anterior era a noite cultural, onde todos poderiam preparar e apresentar seus dotes artísticos, já que essa seria a noite de encerramento.


Piano, dança contemporânea, dança de casal, skechts, música jazz, música de Aruba, holandesa, inglês, drums, dança em grupo, recitação de poesia. A criatividade e improvisação foi o que eu mais gostei, e algumas performances em particular. É engraçado que com poucos elementos, e sem grande produção, as pessoas podem fazer milagres pra se expressar. Eu fiquei de público, apreciando e aplaudindo.




Tive também a sorte de ter uma conversa com o direitor da Soka em UK , o absurdamente incrível Robert Samuels, que homem admirável. Cheio de humor, compaixão, sabedoria, interesse, daquelas pessoas que a gente se apaixona e quer ficar junto, aliás não foi só eu que gostei dele.




E também tive um conversa inesquecível com o Sr. Kotera - o japonês responsável pela Soka na Holanda, ele não holandês, e fala inglês com sotaque japonês, o que faz o charme ficar duplo...uma pessoa com um estado de vida elevado. Me tratou com muito respeito, ouvindo o que eu tinha a dizer. E a dica que ele deu, é a mesma que Nitiren dizia, fazer daimoku (recitar o nam myoro renge kyo) é polir nossas vidas, não importa qual o problema por que passamos, todos tem problemas, mas temos que ter a coragem de vencer nossos problemas.


Bom fora a bipolaridade, e a busca da minha nova identidade, vencer o carma de disciplina- ou melhor preguiça que bate, sansho shima.




Já Mr. Samuels disse que devemos vencer nossa arrogância, nossa ignorância, nossos temores, nos "demônios" todos os dias, rumo a vitória em prol da verdadeira felicidade e desenvolvimento pessoal, não como obrigação, mas com o coração, não somente em Trets, mas na volta pra casa, na sociedade. Nesse budismo não há gurus, tudo vem de dentro de nós, toda a transformação das forças negativas vem de dentro de nós, devemos seguir em frente, não importa o que nos aconteça, depois do inverno não vem o outono, vem a primavera.