Tuesday, September 13, 2011

Melancholia

Fui assistir o espetacular "Melancholia", novo filme de Lars von Trier leia a biografia incompleta aqui (antes de Antichrist e Melancholia) pra quem não conhece esse excelente diretor , um dos meus favoritos, pois pra mim Dogville foi um dos melhores filmes que vi em toda minha vida, Dancer in the dark também com a nossa diferente Björk que ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes em 2000 e nem atriz é, e acabou de lançar o álbum Biophilia que tem até aplicativo pra Apple, uma jogada multimídia, show, música experimental, e cositas de Björk más, mas chega de B.

Depois do carregado Antichrist estava esperando algo mais light visualmente, porque Antichrist foi osso duro de roer e digerir, tendo como tema o processo de luto de um casal pela perda do filho, o primeiro filme que ele fez na fase de depressão, e por mais que saiba das várias metáforas que ele usou no filme, não há como negar o desconforto, é o tipo de filme gênero passos no escuro da mente humana, que a gente nem imagina onde vai dar. Melancholia é o segundo e bem diferente, a gente já entra no cinema que o mundo vai acabar. Todo mundo já falou bastante desse filme aclamado no último Festival de Cannes, e os comentários do Lars sobre anti-semitismo dizem (interpretado por alguns) durante uma entrevista coletiva pra imprensa, onde foi considerado persona non grata no festival. Dizem que Lars foi ao festival da Dinarmarca até a França de carro, por medo de avião, ele não conhecia a música do Belchior, e nem foi criado pra externar suas emoções na infância, mas ele chegou lá, e a vampirinha Kirsten Dunst saiu linda e loira com a Palma de Ouro de melhor atriz na mão, só essa expressão (foto) faria jus ao prêmio.
expressão de depressão de Justine

Não quero fazer fuxico sobre os comentários, pra mim não significou muito, ele ter falado bobagens, ou idéias contraditórias, quem não fala? Gente que esconde o verdadeiro eu dos outros, e o Lars é o tipo da pessoa que não esconde nada, é só assistir seus filmes, o que reitera mais ainda seu pensamento out the box e seu talento como cineasta.

Pra mim o filme teve um gostinho muito especial, como já passei por depressões (foi uma fase curta e grossa da minha vida), onde desci ao chão, e o mundo não acabou, tudo continuou...só que consegui sair do limbo, graças ao help que gritei ao mundo em forma de médicos, química, visitas ao psiquiatra, psicólogo, yoga, tratamento vários e muita auto-educação psíquica que me ensinou a deixar de controlar as coisas na vida, principalmente as que fogem do nosso controle, e principalmente o presente de aprender as técnicas de respiração (pranayama) que uso até hoje. Na depressão o medo é vigente e evidente nos momentos mais seguros de uma rotina do dia-à-dia, como tomar banho, preparar uma refeição, preparar as crianças pra ir à escola, recordo que ataques de choro eram lugar comum com ou sem motivo, vergonha uma palavra inexistente, desespero, síndrome do pânico (uma das partes de maior agonia), agressividade descontrolada, pensamento suicida, paralisia, labilidade, interesse algum em nada.

O Tsunami passou e deixou sequelas profundas mas também para o bem, hoje sinto que o carvalho pode cair novamente, e procuro me policiar, bem diria me cuidar a cada sinal que meu corpo manda, pra que isso não ocorra novamente, pois não há glamour algum na depressão, não há orgulho, não há deuses nem anjos protetores, é uma doença que se manifesta para alguns outros não. O filme de Lars  tem uma belíssima fotografia, e o planeta metáfora "Melancholia" cria uma atmosfera por incrível que pareça de paz e ao mesmo tempo sinistra afinal vai dar cabo do nosso humilde planetinha cinicamente falando e vai levar o lodo todo junto, as divinas cenas iniciais em slow motion são imagens de drama, mas um drama antevendo a tragédia mor o final do mundo, uma noiva correndo com seu vestido branco arrastando raízes, galhos e tudo mais, uma mãe desesperada tentando fugir de galocha afundando na grama molhada pela estranha chuva segurando nos braços uma criança, a profundeza dos personagens, o prelúdio da ópera Tristão e Isolda (quando Melancholia se aproxima da Terra) nos minutos iniciais do filme, os medos dos personagens...que muitos nós temos, a sensação de apego e controle às coisas pra nos sentirmos seguros, causando situações ainda de mais insegurança e medo, o mundo, a vida não vale nada. "The earth is evil", melhor assim, já vai tarde.

O filme é dividido em duas partes: a primeira parte se chama Justine, e a segunda Claire, as duas irmãs.

Justine e Claire
"Ela é doente". Assim se refere Claire ( pra irmã depressiva Justine), e uma pessoa doente precisa de cuidados, não é vítima, o algoz seria a doença em si a depressão (o incômodo), o estorvo, como uma pérola dentro da concha, mas o marido de Claire é muito rico, se orgulha de seu campo de golfe de 18 buracos, ele pode muito bem comprar telescópio caro, ter haras, pagar o táxi da irmã moribunda que está na cidade. Assim também é a depressão, tristeza, cheia de buracos. O incômodo profundo transformado em algo belo, porque só aquele que foi ao fundo do poço sabe o valor precioso de um dia comum, uma respiração calma, o sorriso de uma reflexão qualquer, levantar, tomar café, sentir o vento, tomar banho, escovar os dentes, abrir os olhos, e ter a coragem de sair lá fora dar o primeiro passo, olhar pra fora, e ver pessoas e não bonecos passantes, vencer o medo e viver. Ou pelo menos é isso que senti e sinto agora, sobre depressão, no caso a minha. No filme Justine se transforma da pessoa a ter depressão (fraca), a pessoa que ajuda a irmã boazinha e empática mas que vira frágil e descontrolada. Na hora do 'vamos ver' Justine é a forte também ajuda o sobrinho a esperar o final do mundo (o planeta Melancholia colidir com a terra) a fazer uma cabana mágica, de tacos/galhos de árvores. Juntos de mãos dadas bem à moda primitiva, parece menos estúpido do que ficar bêbadas no terraço.


Casinha de Sapê
Sai do cinema muda, normalmente consigo proferir algumas palavras pra quebrar o gelo, mas nesse caso, senti que foi uma viagem minha, bem particular. A espera do final do mundo é dolorosa, agoniante, mas o final é feliz, porque tudo acabou, o filme acabou e assim acabou toda a tristeza, o mundo acabou e pude voltar pra casa no conforto do meu lar, a depressão acabou, e agora quero assistir a 'A árvore da vida' pois a vida continua, depois de Melancholia e nada como um filme bom após o outro.



Wednesday, September 7, 2011

Amizade


Num mundo que se faz deserto, temos sede de encontrar um amigo.
Antoine de Saint-Exupéry

Hoje encontrei com uma amiga que fazia tempo que não via, ela veio me fazer uma visita e conhecer minha casa (nova) que nem tão nova é (logo fará 1 ano que estou morando aqui), me trouxe um presente de aniversário e um belo cartão de motivo vintage feito por ela mesma como scrapbooking pois é muito criativa, fora outros talentos que possui. 


Essa mesma amiga mora em Amsterdã (bem pertinho), e esteve recentemente no Brasil, depois de ficar 12 longos anos sem ir, e voltou contando bastante novidades e suas impressões depois de tantos anos, e até denotou  uma certa vontade de voltar a morar por lá com o filho no futuro, o filho dela adora animais, tem lagartos e tudo o mais, e ficou encantado com a fauna e flora do Brasil, fizeram passeios incríveis no Rio de Janeiro, que continua lindo.

O que eu entendo perfeitamente, pois cada vez que volto em viagem de férias do Brasil tenho sentimentos semelhantes, às vezes quero voltar a morar lá, outras fico louca pra voltar pra minha casinha onde meus filhos nasceram aqui na Holanda, às vezes penso que meu lugar é aqui mesmo, outras vezes que lá seria melhor pra mim, Dimitri também adora animais, plantas, natureza, e outras vezes fico na dúvida mesmo (com a Dominique aqui me sinto mais amparada e segura), e resolvo não fazer muitos planos sobre um futuro longínquo, porque na realidade, se eu voltasse a morar no Brasil, sentiria falta da Holanda, e ficar fazendo planos sem certeza do que eu realmente quero, pois pelas minhas prioridades (educação das crianças e tudo mais) são melhores aqui. Não faz parte do meu estilo de vida ficar brincando de ping pong, tudo é possível eu sei e sou uma pessoa bastante aberta, mas mudanças radicais ao meu ver tem de ser muito bem pensadas. Mas de uma coisa é certa, sempre gosto de ir de tempos em tempos, pisar em solo brasileiro, matar a saudade.

Ter amigos nessa vida é fundamental, onde quer que estivermos, mas morando no exterior ter amigos tem um significado diferente, já que os encontros são mais escassos, cada um segue sua rotina e sua vida e nem todo mundo mora na esquina. Amizade competitiva, amizades pra impressionar, amizade pra se gabar pelo número de amigos, amigos puxa-sacos (tapinha nas costas) conhecidos, isso não é amizade verdadeira, só quem tem amigos de verdade que sabe do que estou falando, e nem todo mundo os tem. A amizade simples e pura, é aquela em que a presença da pessoa em si já é o bastante, não precisa ter confeitos nem enfeites, e o maior presente, o mais importante é compartilhar idéias, pensamentos, divagar junto, viajar na maionese, se divertir com a presença da pessoa, trocar experiências compartilhando interesses comuns, ou seja, raridade, admitir as diferenças (ainda bem), e poder se abrir com a pessoa (essencial), nos mostrarmos nus, poder confessar nossos medos e inseguranças sem temer que o outro tire proveito de nossas fraquezas, porque amigo que é amigo, jamais fará isso. A amizade preenche e acrescenta às nossas horas, não tira, não diminui, não empaca, não nos coloca pra baixo, só nos leva a seguir adiante, com mais confiança em nós mesmos e na vida, uma virtude que cultivo desde pequena e sei do seu precioso valor.

Obrigada Beth (blue) por ser minha amiga e até nosso próximo encontro inspirador!