Sunday, September 7, 2008

Formigas @ putanesca



`Quem abre uma escola, fecha uma prisão.`
Vitor Hugo



Báh...vocês gostam de formigas, saúvas, aquelas que ficam atrás do açúcar, carregam as folhas maiores que elas?
Normalmente as pessoas n§ao tem medo de formigas, mais de aranhas ou lagartixas, eu...baratas, aquelas grandonas marrom, que quando pisamos sai aquela gosma, e não morrem.
E os formigueiros então?.
Formiga pra mim sempre foi foram um assunto interessante, fazia parte da minha infãncia. Porque até os sete anos, eu só podia brincar no nosso imenso quintal...e como não tinha irmãs, e os meus irmãos menores brincavam sempre juntos, eu ficava sem companhia. Então minha companhia eram as formigas. Viviam brincando com as formigas, conhecia todos os seus territórios, observava-as, cortava com faquinha...e depois me sentia um lixo, má, daninha...de matar aqueles bichinhos quase indefesos.
Destruia formigueiros, e me sentia mal também. Era amor e ódio.

Quando pude ir brincar lá fora, na calçada depois obviamente de fazer a licão de casa...e ainda não podia atravessar a rua (aos poucos fui me afastando) pra desgosto da minha mãe. Guria não brinca na rua, isso é coisa de moleque.E eu tomava gosto ao brincar na rua, com guris e ir inclusive brincar num "campinho" perto de casa. E no final da tarde ouvia o soar do meu nome, bem de longe:

- Berna-detiiiiiiiiiiiiiiiii....passa pra dentrooooooooooo, será que ela gritava mesmo? Ou será que o campinho era mais perto do que eu pensava?

Às vezes não ouvia mesmo, dava uma de surda, completamente entretida na natureza, na biologia, estudando que nem meu filho as lesmas, que são bem mais interessantes visualmente que as formigas, e também comestíveis. E lá vinham meu irmão Mário (um ano mais velho que eu) dizendo. Se você não entrar agora, a mãe vai te dar uma surra.

Surra? Vixe, saia correndo pra casa, morrendo de medo da tal surra que nunca chegava. Pra mim ele inventava aquilo. Porque eu me divertia no meu pequeno universo de criança. E minhas bonecas, eram pros maricas que gostavam mais dela do que eu, coisa chata boneca, aquela coisa parada, aqueles olhos azuis ridículos, que só o que faziam eram ficar abertos, ou fechados.
Nunca achei interessante brincar com natureza morta. Eu gosto de vida, de ser.

Assisti o filme Estomâgo na sexta. Fui sózinha (5 minutos da minha casa de bicicleta na chuva).

Um ingresso pro filme estômago faz favor!

- Oh! Estômago???

É assim que se pronuncia? Eu queria mesmo saber.


(Me falou a menina da porta do cine clube - cinema que é a extensão da sua casa, afinal...de tão caseiro), serve cafezinho, chocomel, cerveja, chá na pausa°intervalo) coisa de holandès que já falei nesse blog.

Atrás de mim, duas senhoras falaram:

- Dois ingressos para o "Estômago" (agora sabemos como se fala).

Ai ai ai, esses holandês que adoram falar idiomas estrangeiros, se sentem...sissi, sissi mas não a Imperatriz, si sentem, endendido.

E assisti, dei muitas risadas.
Adoro filme de prisão, filme de comida, filme brasileiro, filme.
E porque holandês não ri como eu?
Seriam as piadas, nada universais?
Pasta a putanesca.....puta nesca?
Seriam as legendas francas, inapropriadas...literais demais?
Seria porque tinha muito neguinho na cela da cadeia?
Seria porque as prostitutas aqui ficam nas vitrines, e lá na rua.
Seria porque eles gostam mais de peito, e os brasileiros mais de bunda?
Seria porque eles acham politicamente incorreto, rir da desgraca alheia...já que a realidade do filme / Brasil...é completamente diferente dessa aqui?

Filha da puta= klotezak
Buceta = kut
Porra caralho = esqueci...

No Brasil é a bunda, aqui os peitos...talvez seja isso mesmo, porque muitos aqui nem tem bunda, bunda é pra sentar, defecar...a nova geracao até gosta.
Holandês não é bicho macho, uma mulher é a pessoa, sendo mulher.
Quer sexo? Não tem? Faca voce mesmo, compra, vai na internet...no bar.
A malícia e a sacanagem é coisa de brasileiro...seria um fetichismo pra dar mais tesão, também vale para outros países, católicos hipócritas.

E voltando as formigas??? Como tira gosto, farofa de formiga tem proteína.
Gorgonzola.
Coxinha de frango.
Carpaccio.
Alecrim.
Raimundo Canivete.

Sempre vale a pena ver a criatividade brasileiro, a verborragia desmesurada Rodrigueana, se diz assim.
Raimundo Nonato é um pouco o Zé Contente de Horácio Indarte, com o humor do Marcos Jorge.

As unhas pretas fazendo a massa das coxinhas, as unhas limpas tecem os quitutes no Restaurante italiano familiar.

Brasileiro no exterior teme. Teme filme brasileiro. Mas com "Estômago", não tem o que temer, e quem gosta de cinema não teme nada, porque vê o filme, e filme não precisa ser embaixador de nada. Cinema é cinema.
Mesmo com a cadeira quebrada ao meu redor, o que gostei mais ainda. Ninguém senta ao meu lado, e assim fico com o braço da poltrona só pra mim.

Hoje domingo, tá chovendo canivete...
E aproveito as horas sola pra escrever essas breves linhas, essas formigas, mas vou continuar ler "o Estrangeiro" (Albert Camus), descobri um site português bacana, um clube de leitura, onde você pode ler livros pela net, não é a mesma coisa que livro de papel. Principalmente pra mim, que não posso levar lap top pra cama e tenho que ficar confinada aqui na sala, a brincar com as minhas formigas, que são as letras e palavras.

Uma estrangeira desse mundo aprisionadas na minha prosa, que cada vez mais não me enquadro, desse mundo deles.
Quisera antes ter descoberto o absurdismo de Camus.
Mas eu estava ocupada com as formigas.
Cada coisa tem sua hora, dizia minha mãe.E com oito anos, você poderá brincar lá fora.

3 comments:

anlene gomes said...

eita que texto bom, gostoso de ler. também fui de brincar com formigas e cigarras no quintal. aqui em madrid nao ouvi falar deste filme. a última coisa que passou foi a tal tropa que me deu pena de tao fraquinho. besote

Antonio Da Vida said...

Eu ja li "O Estrangeiro" de Camus e gostei bastante, mas é aquela coisa bem hermética, tipo "não há saída para o homem".
XXX/A

Bebete Indarte said...

Dizem que Camus é o Existencialista do Absurdo...
quando comecei a ler, achei que ele era um sem opinião, sem crítica, um sem nada.
Depois fui pesquisar melhor o porquê.