Wednesday, March 23, 2011

Maquiando os fracassos


Cena 1:
Claro que não sou de ferro, sou multi-mídia...seguem-se risos na platéia.


Cena 2, novo milênio, pós '2000', simplesmente um porre no sentido em que as pessoas ficam 'posando' de boazinha, de criativa, de isso e de aquilo, é o século do marketing, do 'se vender', mais do que produzir algo, e quem não consegue ser bom na mentira, na eloquência, acaba ficando pra trás, e onde fica 'atrás", obviamente em algum lugar do passado, parado no tempo, esquecido pela platéia, atrás da cortina que nunca mais vai se abrir, o que não é verdade em absoluto, uns preferem a verdade, tudo que é autêntico e cru (ou no plural), outros só conhecem as máscaras, a maquiagem, a cortina aberta, tudo polido...limpinho, desprezam  Les Misérables.


Antigamente se vender era muito feio, hoje em dia, as pessoas não só vendem sua alma pro diabo, elas parecem nem perceber o que estão fazendo à si próprio, pros outros, ou pras futuras gerações, quem prega mais mentira e tem cara bonitinha (maquiada), 'marketing' de BOM ou MAU comportamento também é cool (pro consumo de jovens/mentes iniciantes e sem experiência ou sem maldade), são os ídolos do novo milênio, repetitivos, enfadonhos, com seus 15 minutos contados de fama. Mas felizmente há ainda muitos jovens que não acreditam na Lady Gaga, e no Justin Bibier pra ser bem extremista. Os pais deles, simplesmente não aceitam porque vêm da mesma geração que eu e não engolem gato por lebre..., e eles são jovens calados, que nem precisam provar seu repúdio de 'modernidades' sem conteúdo,    a cultura pop foi invenção do século XX, mas sempre existiu gosto popular, e gosto não discutimos aqui, principalmente o popular.


"No meu tempo", ( daqui pra frente parece que vou escrever muito assim, no meu tempo, antigamente, lá atrás), ladrão era ladrão, gigolô era gigolô, prostituta era prostituta, artista era artista fazia arte, músico fazia música, descocupado era biscateiro, picareta, se encosta em alguém, sem diploma era sem diploma, diplomado era diplomado, boêmio era boêmio (gostava da noite) gostava de sexo, drogas e música, mulheres, homens, banheiros, mundanidades da danada...

Dona de casa era dona de casa, cuidava da casa, dos filhos, do marido, cama, mesa e banho.
Gente ruim, tinha lá de vez em quando um ímpeto de bondade, e vice-versa, mas hoje em dia tudo mudou, quem não se gaba de si mesmo, quem não tem a aparência necessária do 'sucesso', é um loser (perdedor) e seria ponto final, se não fosse um incompreendido como os artistas, poetas, literatos, do século passado, pessoas avantes do seu tempo e pessoas que quebraram regras. Hoje em dia o sucesso é imediato, os elogios são baratos, os valores antigos, desvalorizados na ciranda do imediatismo, da mídia e nem faço idéia no que será, só sei de uma coisa, educação vem sempre em primeiro lugar, então me pergunto: onde estão e o que fazem os pais dessas pessoas banais? O que faz a mãe, o pai? Estão realmente educando? Ou estão muito preocupados com seu ego, suas posses, seu poder de consumo?

A mídia que dita regras, e as pessoas (vulneráveis) absorvem e consomem tudo que vêem pela frente, muitos sem se questionar, sobre não só argumentos de certo ou errado, mas onde isso vai levar, essas cabeças ocas, regerão as nações nas próximas décadas? Espero que não.

No século passado, foi comprovado que os Nerds iram dominar o mundo, e esses mesmos nerds, já estão ficando velhos, dominando o mundo há algumas décadas, uns até vão morrer em breve. A tecnologia e a ciência, sempre gostaram de ditar as regras, arte é pra vagabundo.


Poema em linha reta


Fernando Pessoa(Álvaro de Campos)


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.








Pára, pára tudo, desliga a escada rolante...mexam seus neurônios!

O caráter das pessoas não se modificou tanto com o passar dos anos, o mundo sim, esse mudou: senão Fernando Pessoa não teria escrito isso, em tralalá bolinhas, na época que escreveu no início do século passado.
Fast-Forward: 2011...

Todos são multi-mídias, e até acho bem bacana esse termo, multi-mídia. Cantar, dançar, sapatear, representar, produzir, cuspir no chão e se vender, escrever um livro, plantar uma árvore...ter filhos(???), sucesso às vezes só maquia alguns fracassos pessoais necessários, pra lidarmos melhor com nós mesmos, pra nos sentirmos confortáveis sozinhos. Meu fracasso mais evidente  foi achar que ser mãe, dona de casa era fácil, descobri que é a profissão mais difícil do mundo, através da experiência, sim porque pra mim é tipo profissão, ganho dinheiro por isso, ganho salário.

Eu mesma já fui 'multi-mídia' sendo 'entertainer', mas foi ter filho que minha maquiagem derretou totalmente, não que tivesse maquiada, aliás sim, muitas vezes me maquiei literalmente como indo para um espetáculo de circo, era uma palhaça bem sucedida, foi hobby trabalho e ganha pão...a profissão que mais fui, foi 'promotora de eventos' (do meu evento), mas nunca estudei pra isso, nunca ninguém me ensinou, tive umas cadeiras na faculdade de turismo de Marketing mercadológico, Publicidade e Progaganda fiz no segundo grau, nos anos 80 era tudo, fazer 'faculdades' como Propaganda, Jornalismo, Relações Públicas nas ciências "Humanas"...e se perguntasse pro meu pai, homem simples, que trabalhou a vida inteira pra sustentar, isso mesmo sustentar 8 filhos (porque nenhum chegou nem aos pés dele nesse sentido) começou aos 11 anos de idade, e só parou pelos 70 (aos 50 se aposentou, e com um pouco mais liberdade, começou seu próprio negócio.

Se perguntasse ao velho, porque desde que me conheço por gente meu pai já era velho: O que eu fazia? Juro, que ele não entendia nada desse negócio de multi-mídia, mas sabia que eu tinha um boteco qualquer, era negociante como ele, o boteco tinha cliente, e pagava minhas contas, de vez em quando eu aparecia na TV, pra falar não sei o que, sempre com quilos de maquiagem. Anos mais tarde, numa visita em Porto Alegre, meu pai também não entendeu, quando disse pra ele, que depois do divórcio, era difícil de criar e educar as crianças sozinha na Holanda, e pela problemática de minha filha autista estava impedida de trabalhar fulltime, o sistema na Holanda é bem diferente do que no Brasil, creches são caríssimas, no que ele respondeu: que mamata (benefício).


Vai explicar pra um velho que nasceu em 1917, e nunca teve a mamata de ficar desempregado, porque senão morria de fome, ou deixaria faminto os filhos, sem escola, sem comida, sem calçados, ao relento, conheci meu pai, como pai, não solteiro trabalhador, vaidoso, com seus ternos feitos sob medida com alfaiates, caligrafia impecável, caneta tinteiro Schaeffer, depois Parker...(li algumas cartas de amor enviada pra minha mãe, na época do cortejo).

Mas era essa sua mentalidade, a mentalidade de um arbeider (trabalhador), a mentalidade de sua realidade e da realidade da época, casar com uma moça direita, constituir família, cuidar da família, mas muitas vezes ele me assustava dizendo que a vida não era doce de leite como eu pensava que fosse, aliás eu não pensava nada, jovem não pensa muito sobre pedregulhos futuros.
Ele assumiu a responsabilidade de sua função, aceitou e não trabalhar seria não ter que correr atrás pelo seu próprio ganha-pão, do seu sustento, do sustento da família e ser um pária da sociedade, tendo um senso de responsabilidade que nunca vi igual, viu, viveu venceu.

Deixando meu pai de lado, penso se é assim na vida, como nas Universidades, ou ciências Exatas ou Humanas, difícil você ser médico e filósofo.
Eu acredito que sim, não dá pra ter o céu, o sol, o mar e a lua ao mesmo tempo, cantar, dançar, sapatear, comer farofa e assoviar rodopiar, cair sem sentir dor, levantar...só em musicals.

Nem sempre na vida podemos executar todos os papéis que gostaríamos de ter, aliás até podemos, mas bem? acredito que não.
Minha mãe era imperativa ao dizer: ou se segue Deus ou o Diabo!

Nem sempre podemos ser produtivos como gostaríamos de ser, e antes que algum possível fracasso se torne uma frustração, prefiro pensar que todas as pessoas são diferentes, suas fases na vida, a época em que vivem, (e eu sou uma pessoa de fases), se morrer amanhã, serei talvez lembrada por uma vida antes da Holanda, e depois da Holanda.
Com ou sem filhos, e pelos meus filhos, serei lembrada, como mãe. E nada mais justo, porque me sinto com um passado, carreira seja lá o que for foi meu passado, mas como mãe, parece sempre que preciso de uma apreciação de minha própria pessoa: sim, você é boa mãe, não tanto como gostaria de ser,que nem aquele livro  There is nothing wrong with you: regardless of what you were taught to believe, que tem que ser martelado na cabeça de uma pessoa altamente obsessiva, obstinada como eu, em fazer as coisas certas, ser correta (dentro de suas limitações...quanto menos melhor), não que preciso de louros, não preciso, apenas de mim mesma.


Então a palavra mágica nesse momento é: aceitação do que não posso mudar, aceitação que sou mãe e que de vez em quando há resquícios de nostalgia, mas me sinto com a alma lavada, sem arrependimento algum, porque arrependimento não ajuda em nada, só pra dizer que sua vida é uma farsa, como a minha não é, durmo tranqüila e agradeço cada momento por não precisar trabalhar pra sustentar minha família, isso eu deixo pro meu ex marido, ele trabalha, eu cuido das crianças, temos um acordo, eu não ficando louca, ele está feliz, porque como judeu deixar de ganhar menos (trabalhando menos) e cuidar das crianças ele não quer, ele não quer, escolhi o pai de meus filhos, pelo senso de responsabilidade e retidão, buscava meu pai inconscientemente, que horror (e encontrei), só que nunca quis ser minha mãe (antigamente), pois sabia que a vida de uma pessoa que cuida dos outros, é sim uma vida de sacrifícios.


Como está agora, tenho tempo e paz o suficiente pra não ficar louca, e sair por ai, deixando meus filhos pra trás, e ir fazer um curso na Indía de yoga, tirar um sabatical, fugir de minhas responsabilidades, escolher o diabo, mas nunca quis me vender, vender minha alma, tenho um compromisso com a verdade, mesmo que digam por ai que é melhor ser feliz, do que ter compromisso com a verdade.

Eu sei muito bem, a essas alturas do campeonato que não há um estado permanente de felicidade, felicidade é, o que sinto agora por exemplo, quando posso me dar ao luxo, de roupão vermelho, crianças na escola, estar escrevendo nesse blog.
Imagino que se tivesse um club agora, e o DJ quisesse tocar um remix qualquer da Lady Gaga (gênero), juro que prefiro passar o resto de meus dias coçando o saco, eu simplesmente não aceito o imposto da corrente, só se tiver Alzheimer, mas ai tanto faz.

Eu prefiro ter o compromisso com a minha vida, a verdade, agora.
Eu não estou no alto, não tenho profissão, eu sou 'dona de casa" tô nesse labirinto, também não estou quieta no meu canto, estou no meu canto, mas não quieta, mentes inquietas jamais ficam quietas, cordatas...estou onde cheguei, na minha (confortável) casa, que aos poucos estou deixando um lar (demora), percebi que apesar de gostar de cachorros, me identifico muito com a personalidade de um gato, prefiro a casa (lugar) que o dono, ou que obedecer a comandos, ficar no sol já é uma grande alegria.

A vida é um labirinto constante, é sempre agradável decifrar a saída mais próxima, mas descobrir a saída final é o mesmo que atingir o inevitável, a saída para a morte.

E falando em sol, a primavera chegou, finalmente...a hibernação acabou, consegui sobreviver a mais um intenso inverno (somente os fortes sobrevivem), somente os fortes, e sem opção como eu, porque se eu pudesse passaria os quatro meses de inverno nos trópicos, tomando caldo de cana, comendo pastel de feira, dançando, sapateando, comendo farofa e assoviando nas praias de areia branca e fofa, afinal uma dona de casa como eu, que nunca encontrou fracassos (hahaha), também gosta de posar de multi-mídia de vez em quando, mas nesse meio tempo quem levaria os cachorros pra passear, quem alimentaria os gatos, oops, as crianças? Nessa, estou sozinha.

Aprendii a gostar do inverno, a gostar de verão, do outono e da primavera, porque agora eu conheço e me conheço, as estações bem definidas com todos os seus dias melhores e piores, entendo que as fases da natureza jamais poderei mudar, entendo as minhas e aceito que como sou e sou grata ao inverno oportunos à meus momentos de interiorização e introspecção, tão necessários pra continuar seguindo essa trilha inquieta da verdade, sem precisar maquiar meus fracassos pra mim mesma, digamos em apuros, eu simplesmento GRITO, Ahahahahahahahahaha.













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