Saturday, April 25, 2015

California dreaming - A praça do jardim de inverno



Cinco meses no Instelling (Instituto) local onde moram as pessoas especiais, deficientes intelectuais e também alguns físicos, de várias idades, autistas, etc, separados por prédios e muito jardim, verde, grama, árvores, prédios bonitos.
Cada um tem seu quarto privado e seu banheiro, áreas comunitárias (sala/cozinha/mais banheiros/jardins = no máximo 6 pessoas por casa, e sempre da mesma faixa etária).

A ruazinha dela se chamava Rua (vila) das Cerejas, mas mudou para Praça do Jardim de Inverno.
Há jardins por tudo na Holanda, na primavera, vemos flores desde o início de março, onde começam os brotos, e dependendo do inverno se não foi muito rigoroso até no final de fevereiro...a partir de, e assim vai até setembro, tem gente que tem flores no jardim até no outono, no inverno...bom, o inverno é um capítulo a parte nas estações do ano, e flores estão por toda a parte, mesmo as pessoas morando em apartamentos, sempre foi assim, e acho que sempre será.
No terreno de 's Heeren Loo

E assim as flores aparecem, cada uma na sua fase, na sua estação própria...e lá mora ela, com esse nome mais triste ainda, porque a palavra inverno pra mim é triste, lembra de frio, solidão, saudades do calor do sol, dias curtos, não necessariamente é uma estação triste, mas a palavra apela para introspecção e se aquecer, ficar em casa, curtir outras coisas.
Agora é tempo de flores, de alegria, de calor, de dias longos, de pessoas sorridentes, de vida ao ar livre, de andar de barco pelos canais, de apreciar as formigas, as borboletas estão chegando.

Mas não quero falar das flores, nem do inverno, nem de tristeza, nem propriamente das estações do ano, quero falar da minha flor, chamada Dominique, 16 anos que está morando lá, nesse instituto na rua agora chamada Praça do Jardim de Inverno.

Hoje fui buscá-la, fim de semana sim e não ela vem pra cá, e às vezes ela fica meio nervosa, em voltar para 'casa', da mãe, a minha, a nossa pelo que acontecido nos últimos anos.
No pai dela vai bem, ele anda de bicicleta com ela, longas distâncias, vão pra Haia de bicicleta até, ela curte e no final ganha um bom sorvete.
Faço questão de dizer pra ela, que quando um dia ela não quiser mais ficar lá ela poderá voltar, na hora que quiser.

Tenho aprendido muito com a distância da minha filha, aprendido sobre mim, sobre como sobreviver sem meus filhos, sobre como entendê-la melhor, porque agora felizmente aqueles cuidados, o trabalho pesado, fica por conta deles por lá, os 'begeleiders' assistentes e cuidadores e assim tenho até tempo para pensar em mim, pois mãe como eu dificilmente tem tempo pra si, completamente, agora tenho até demais.
Wintertuinplein aka Kersenhof
No início foi muito difícil, apesar de saber que era para o bem dela, meu, de toda a família, e esse é o momento, sem dramas, mais do que o drama de estar longe dela, que nunca foi a minha intenção, foi difícil, e ainda é, mas menos, bem menos.

Enfim, são tantos detalhes, e  ninguém cuida dela melhor do que eu, sou a mãe dela e pronto,  ela está sendo bem cuidada...só não nos detalhes: como por exemplo, todas as noites ela usa um aparelho nos dentes com um céu da boca falso e um gancho...o 'trem", fica numa caixinha durante o dia, mas ambos devem ser higienizados diariamente. Infelizmente isso não estava acontecendo, vou tomar providências (escrever um email para a coach dela), claro isso apesar de ser o mínimo, é um desses detalhes importantes, afinal colocar um aparelho cheio de bactérias para melhorar a sua arcada dentária, é incongruente.

E hoje 5 meses, ela me confessou: 

- Mãe estou tendo pesadelos. - "você não dorme bem lá? Indaguei.

- Não mão, acordada, agora...não consigo me concentrar, estou triste, e ontem me senti sozinha na escola.

Disse pra ela, lembra da Anne Frank e o diário? Escreva! Tudo que se passa na cabeça. E dei um caderno de capa dura pautado pra ela escrever. Ela raramente me conta, confessa, divide comigo algum sentimento, pensamento e emoção, raramente pede ajuda por algo, ou pergunta como faz.

Fui ligeiramente ao supermercado e quando voltei vi que ela tinha escrito muito mal, apenas 4 linhas, a maioria das palavras ilegíveis, grudadas umas às outras, muito esquisito.

Leiden, 25 de abril de 2015, em holandês, (etc etc), acho que ela nem escreve mais na escola, com aquelas crianças que nem sabem ler e escrever, é tudo tão complicado. Uma escola muito difícil, que ela não acompanhava, essa tudo mastigado, mas eles nem tem aula de leitura praticamente.

Falei pra ela. Querida, amanhã, faremos yoga, antes do café da manhã...pro "pesadelo" sumir, e o seu lado alegre vai vencer o lado triste, respirar fundo, ficar tranquila, vai te ajudar nessas horas. E ao mesmo tempo que estou a dizer isso, ela já está no mundo dela, olhando pro teto.

Deve ser muito difícil ser autista, deve ser muito difícil não ter amigos, não ter a capacidade de resolver os próprios problemas, deve ser muito difícil depender dos outros pra tudo, olhar ao redor e ver pessoas da sua idade ou até menores, com celulares, com fones de ouvido, andando na rua sozinhas, de bicicleta, mandando 'app'...o que é whatsapp? Indo pra escola, de turma, rindo, normalmente os adolescentes andam em turma.

Dominique não sabe o que é isso, não sabe o que é 'qualidade', não sabe o que é download, upload. 
Comprei lápis de cor, canetas hidrocores/hidrográficas...e disse pra ela, esses lápis não são de boa qualidade. No que caio por mim.

- Você sabe o que significa 'qualidade'? 


Não. Procurei explicar de uma forma simples, mas percebi que estava complicando. Ah! No momento isso não é importante, saber o que significa a palavra 'qualidade'. 
O importante é ela não ter pesadelos acordada, e que 'eles' lá façam o trabalho deles, como fazem...bem, mas tem os tais detalhes, que acima de tudo, são detalhes, não dá pra controlar tudo, não dá pra controlar demais, controlar...é um passo à frustração.

Esses detalhes, darei eu um jeito por aqui, na burocracia dos emails para os mentores, para a coach dela, Jacoliene. Nunca será como na casa da mãe, esse escudo de força, de proteção.
Caderno pra colorir para adultos e pra quem quiser e os lápis de cor = qualidade :-( 


Afinal hoje ela me ajudou a fazer appelflap (um doce de maçã no forno), deu tudo certo, o outro pesadelo em mega potência, o do ano de 2014 já passou, aquele sim, foi muito pior, agora é tempo de sonhar com um verão, viver plenamente essa primavera, deixar o jardim de inverno pra lá...

California dreaming. :-) 


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