Sunday, April 29, 2018

A conexão com a angústia



Tenho sentido uma urgência de fugir, ir ainda não sei pra onde, e não somente ir, mas fugir mesmo.
Como antigamente, ir pra longe de tudo e de todos...só levar meus filhos e ficar desconectada com os dias que tenho vivido, com a realidade atual, sei lá, novos caminhos, não propriamente um lugar no mapa.

Amigos dizem: "tu não vais conseguir, eu te conheço" (por muito tempo), okay...essa é uma premissa que pago pra ver. O que eles não sabem, que apenas umas semanas, sem precisar fazer ABSOLUTAMENTE nada, no meio do verde, do sossego, já seria tudo, para colocar os pensamentos mais do que em ordem, dar mais perspectiva à minha vida intelectual. O meu objetivo é usar mais ainda do meu intelecto para construir um mundo melhor, onde as pessoas realmente se aproximassem mais, ao invés dessa competição toda que vejo por ai e divisões.

Diante de tanta polaridade e bipolaridade na minha vida, vou explicar:
Moro em um país distante geograficamente, na Europa, onde me sinto muito bem e me adaptei e me expresso, me sinto ativa na sociedade, trabalho numa fundação para mulheres e crianças (seus filhos), colaboro com ideias, execução, agenda e dou aulas de hatha yoga. Onde habitei no Brasil (Porto Alegre/Pelotas = minha formação educacional e familiar) depois São Paulo, início da vida adulta (dos 25 aos 36 anos), e depois aqui.  Passo boa parte do meu tempo online no Facebook/Instagram e desde o advento das redes sociais (orkut, depois facebook) entre um e outro país, e também no mundo. Piso em Terras Baixas, e vivo com boa parte do meu tempo no ambiente na língua portuguesa, e também percebo que não estou em nenhum lugar físico, como se meu próprio eu fosse um país sem bandeiras, uma terra desconhecida.

Todos sabem o quanto viciados estamos em redes sociais, em smartphone em compartilhar tudo que achamos que devemos, e muitas coisas até por impulso. Vivemos em associações, em grupos virtuais, usamos aplicativos de tudo, compactuamos com as mesmas ideologias políticas, fazemos política, respiramos política, cultura, e expomos nossas vidas que não são mais privadas, pertencem ao Google, ao Facebook, as grandes empresas tecnológicas digitais, que movem uma elite econômica de governos, com a nossa DATA, tudo o que clicamos, procuramos está lá sendo negociado e todo o nosso perfil: onde vamos, o que gostamos, como pensamos, o que não gostamos ou desaprovamos. é uma ilusão pensar que temos uma vida 'privada' quando postamos nossos filhos, nossa casa, o restaurante ou a ópera, show, concerto, evento que participamos, quando vamos de A para B e pra onde vamos, na academia, tomar um capuccino, fazer uma visita para uma tia distante.

Lá encontro 'meus amigos' praticamente todos os dias, penso e digo eu sobre o Facebook, lá me sinto conectada, lida, LIKADA (o que faz a distância do meu passado menor, no presente), ainda é conveniente e sou feliz por isso. Todos os dias, leio o que escrevem, às vezes não dou conta, e sigo o algoritmo (nos meus news fee), porque o dia tem 24 horas e eu tenho mais de 2000 amigos na minha lista de conhecidos, amigos, desconhecido, familiares...mas estou lá. E eles estão lá com seus assuntos também.

É uma torre de Babel em muitos casos e sinto cada dia, que não estou comunicando muita coisa por lá, porque as pessoas interagem pouco, ou só interagem no que lhes interessam e porque como eu, também estão vivendo pra mostrar como vivem, para terem uma sensação de que nada é em vão, se não for fotografado, dito, mostrado, não queremos estar só. No momento em 'comemoro", dez anos de Facebook, um jubileu, se tem uma coisa que me interessa, são novos ares, novidades, pensamento mais profundo a verdadeira conexão entre as pessoas, que não são tapinhas nas costas, dizer que estamos lindos, e vivos, e amados, nem pregações, que mundo lindo, e como estamos próximos, mas pensar num mundo melhor juntos, e infelizmente tenho encontrado cada vez menos pessoas com pensamentos próprios e mudanças de um mundo melhor.

Recentemente 'perdi' um amigo virtual muito inteligente, querido, atencioso, uma pessoa de uma sagacidade única, e até acredito que tínhamos muitos pontos divergentes.  Uma pessoa única, que adorava viajar pelo mundo afora, e podia se dar à esse luxo, de conhecer lugares diferentes do lugar comum das viagens que as pessoas fazem hoje em dia, e veio a falecer na África o que trouxe pra mim e muitos outros uma tristeza um vácuo. A vida que se interrompe e nos deixa assim sem explicações, pois continuamos.

Foi comido por pedradores do destino, e lá se foi a inteligência e a perspicácia Facebookiana, e as viagens, e roupas lindas que usava, os perfumes exclusivos, e todas aquelas estórias pra contar  à todos nós, que só ele tinha numa retórica própria. Luto, tristeza. Fim.

Estamos realmente conectados nessas redes sociais? Ou estamos por lá berrando nossas frustrações, chorando nossas mágoas e desafetos, empurrando os dias com a barriga em nossos achismos de 'como viver' e eu vou te convencer que a minha maneira é melhor que a sua, e que o que quero te mostrar aqui, é para você dar um jeito nessa sua vida chata, que não interessa a ninguém e nem mesmo à você, porque estamos apertando o tempo inteiro no 'repeat, repeat, repeat". Eu por exemplo, remo contra essa maré. Todo o dia eu acho uma música diferente, mas também me repito e me dano, que droga, sim os vícios são drogas, quando o efeito passa, precisamos dela novamente pra ficarmos 'high".

Assistindo uma entrevista com o grande Charles Bukowski, ele confessou que a vida depois de uma certa idade é só repeteco, os lugares que vamos se repetem, a roupa que usamos, as pessoas, as festas, as experiências, o caminho que trilhamos, o que comemos, como nos movemos, até o que pensamos, nos repetimos todos os não santos dias com datas temáticas, com maneiras de viver que mostram apenas o quão 'playing SAFE" estamos tentamos nos afastar da morte, mas estamos cada dia e todo dia perto delas, e não ousamos mais nada, como quando éramos jovens e transgredíamos regras, pulávamos muros, roubávamos frutas do vizinho, ou colhíamos uma flor do jardim alheio, pisávamos na grama, transávamos sem camisinha, tomávamos um porre, misturávamos comida com bebida, e passávamos mal, e aprendíamos com o porre, que nunca mais iríamos nos permitir nos sentirmos assim, e lá chegava o outro carnaval, ou festa, ou motivo qualquer, e novamente acontecia o vômito no banheiro nas madrugadas, e todos os erros.

Estamos realmente vivendo? Percebo que a morte de meu amigo, ainda jovem aos 48 anos, não foi em vão. Ele não viveu o suficiente para nos contar todas as impressões em diversos países na África que trilhou, onde ver a ação da caça e predador ensina muito mais que um ano inteiro de postagens no Facebook que falam sobre a maldade que existe na humanidade.

Estamos muito distantes de nós, da natureza das coisas, de nossa existência. e o que procuramos é conexão com os outros. E como nos conectar com os outros, se não conseguimos por poucos minutos estar conosco?

Se repetir, repetir repetir repetir, dar e querer de volta. E fazer beicinho, faz de nós um adulto imbecil, rancoroso, e podemos nos esconder atrás de sorrisos, frases de auto-ajuda (pro outro) que não nos ajudam em nada no momento que queremos mudar os outros. Quem está vivendo realmente? Se não usarmos nosso cérebro pra ver e procurar, pesquisar as respostas para termos uma vida mais plena de coisas simples, sem beiços, sem narcisismos, ostentação de inteligência, mais centrada em nós, em prol dos outros, e principalmente daqueles que infelizmente intelectualmente necessitam de nossa ajuda para ver o que já somos conscientes? Reclamar do outro é sempre mais fácil, mas isso não muda o outro, apenas uma conversa franca, e uma conexão verdadeira que vai de coração pra coração mas que se usa o cérebro.

Poucas pessoas ensinam por serem, a maioria mostra os 'estilos de vidas', como vivem, mostram o quão solitárias são e rodeadas de gente igualmente solitárias, mas juntas, se acham as tais, e não percebem que estamos todos no mesmo bote, barco, navio. Sem saber há uma competição. Eu estou me sentindo melhor e você está se sentindo mal, porque eu sou superior que você, e você é inferior na minha concepção e maneira de viver. Você esconde seus fracassos, e por isso mostra o quão feliz que é, como se houvesse apenas dois caminhos, preto no branco, e não multitudes.

Todo o não santo dia, eu resolvo mudar um pouco, aprender o que me proponho a aprender, desaprender o que já não serve mais,  numa eterna 'bucket list' mental como continuar a aprender notas musicais para o piano, um idioma como o frânces que comecei e tive que parar, a sentar aqui e escrever algo que sirva pra alguém mas mais precisamente pra mim, pois escrever é uma necessidade, e busco palavras, busco idiomas, expressões, sensações, e elocubrações, e sofrimento entendido, e pensamentos, e paz para conseguir concluir um raciocínio lógico, para expressar o quão insatisfeita estou com o curso das coisas que nos levam correnteza abaixo e nem podemos fazer nada a não ser nos afogarmos e sucumbirmos à tudo que está aí, à todos os sonhos de jubileus que um dia acontecerão, todos os aniversários que comemoraremos, e todos os riscos que não mais correremos porque a vida se transformou num infinito diário de repetição, e tédio, e perguntas sem respostas, problemas sem soluções, pois somos meros mortais que se deixam levar pelo já imposto, e não temos tempo, energia, vontade, e estamos desconectados de nós mesmos, porque se estivéssemos em paz conosco, poderíamos entender que assim é, e sim devemos lutar para nos mantermos vivos, e arte e pão, compaixão, empatia, comunicação, não são meras palavras soltas ao vento.

Respostas, final feliz? Só encontro na natureza, na arte, o resto fica sem fim até a hora que deitamos nossa cabeça no travesseiro, e adormecidos nos despimos de quem somos e dos papéis que temos.
O consolo é que todo o dia, temos uma nova chance de viver.

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