Monday, July 16, 2007

Pausa para o prozac


Quem diria, mas é isso mesmo.


A depressão chegou devagar e de repente, novamente.


Eu que pensava que apesar de minha falta de entusiasmo e lerdeza, estava indo bem no quisito humor estável porque estou sendo medicada há quase um ano com estabilizador de humor, seguindo a risca a litmia, fazendo tudo dentro do protocolo, quase tudo, porque o desânimo começou a aparecer gradualmente e lentamente, num belo dia não conseguia mais correr, no outro comecei a desmarcar encontro com amigos, no outro parei de praticar o budismo, no outro nem meu cabelo conseguia pintar, no outro as unhas precisam ser lixadas, estão enormes e dificultando de colocar as lentes de contato, e sem as lentes fico cega, e ficando cega, as pessoas vêm com piadinhas se você não leu um cartaz corretamente, e você acaba usando o condicionador antes do shampoo...argh!!!!!! Odeio doenças, odeio, ficar velha e cega, odeio não ter dinheiro pra pagar o laser dos olhos, e porque esse seguro de saúde não paga uma parte pelo menos, pois pra mim 4000 euros é muito dinheiro, ai e eu preciso tirar a carta, e descobri que terei que dizer que tomo remédios ininterruptamente, porque se bater o carro, o seguro não paga, e a lista de necessidades e prioridades, vão ficando apenas no pensamento.
Mas ela a depressão chegou novamente, e trouxe junto a "fobia social", insegurança, culpa, pensamentos suicidas, prisão na própria casa, irritação, choro, paralisia, pânico, apatia, fedor (sim porque quando se tem depressão) não se toma banho, não se escova os dentes, não se sente fome, não se quer nada, a não ser sumir, morrer, evaporar, que o mundo te esqueça, porque você mesmo se esqueceu, ah! eu consigo fumar...eu consigo fumar, como sou feliz por conseguir fumar, e fumo fumo fumo fumo...durmo durmo durmo, durmo e fumo, fumo e durmo (também graças ao seroquel).


Isso é vida?


No início dá pra contornar um pouco, fazer uma piadinha aqui outra ali, mas não dá...o pensamento fica fixo, o pensamento de morrer, morrer diferente, morrer porque parece a única saída, todas estão fechadas, escuras, você não tem a chave, você se sente um nada, mas até pra morrer sou incompetente, penso numa morte sem dor, penso em uma explicação plausível para deixar para meus filhos, argumentos..."estou cansada", não estava nos meus planos ser doente, não estava nos meus planos perder o gosto pela vida, logo eu, a festeira de plantão, cheia de deboche e vida, cores, vaidade, glamour, prazeres mundanos, sede por tudo, conhecimento, sabedoria, ser a dona da verdade só pra mim. Mas essa foi enterrada metaforicamente, agora é a hora da verdadeira morte, e porque não adianta essa morte. Todos nós iremos um dia não é mesmo?

Até se constatar que não se quer morrer, a gente só quer mudar de "humor", mas é difícil, porque vai-se isolando, e todos abandonam o barco, nós nos abandonamos, eu me abandonei, não consigo me comunicar comigo, fazer contato com a minha entidade, porque perdi a identidade, essa é a diferença de TER UMA DOENÇA NO CÉREBRO, no órgão que comanda tudo!

Que droga, minha psiquiatra perguntou: por que você não me procurou, por que você não me ligou, antes, e a psicoterapeuta já te procurou?


- Não, ainda não, estou numa lista de espera qualquer, dentro do sistema de saúde holandês, e que eu vou dizer, "é muito bom", mas doente é doente, tua vida fica bichada e pronto, e agora pode ser que meu nome suba na lista da terapeuta, é só falar em pensamentos suicidas que eles vão correndo te ajudar.


Você tem uma doença e essa doença é assim, mesmo tomando o santo(s) lítio(s) do dia...pode se ficar assim, pra cima, ou pra baixo, como você está, nessa gangorra...nessa ciranda de remédios, terapias, enchendo o saco e magoando pessoas ao redor, que chatice, e não é como antes, sempre fui uma pessoa melancólica, mas isso é diferente, não é ouvir uma música e ficar reflexivo, mas é não querer OUVIR MÚSICA NENHUMA, não conseguir ler, dormir, fumar, dormir fumar...
Ela queria mandar o enfermeiro aqui em casa, mas eu não quis. Aceitei que terei que tomar novamente anti-depressivo, e dessa vez um outro tipo, que auxiliará o priadel (lítio) e o seroquel...mama mia, onde fui parar, coquetel.
A farmácia fechou, não deu tempo de pegar o remédio hoje, ela passou imediatamente um fax para farmácia, mas a farmácia fecha as 17:30, cheguei 5 minutos atrasada. Mas amanhã eu vou engolir mais essa, porque tudo que eu quero agora, é não ter depressão.


As coisas estão indo bem, as crianças vão bem, o coração vai bem, tudo está em ordem, somente meu cérebro doente que não...

A única coisa que eu sinto vontade de fazer, é ver filmes. Assisti duas vezes Prozac nation nesse final de semana, filme fraquinho....mas pra mim disse muito, só consigo ver coisas pesadas, dores, ir nas comunidades sobre bipolaridade no orkut, conversar com pessoas que me entendem, porque são parecidas.


Enquanto isso, as pessoas se divertem no verão europeu, nos festivais ao ar livre, saindo de férias por ai, e eu queria tanto ser normal.


Pra mim hoje como nos últimos dias, está tudo escuro, pra não dizer uma M, não tenho a quem culpar, não tenho assunto, não atendo telefone, não quero ver ninguém. As cortinas estão fechadas, e se não fossem pelos meus filhos, acho que não estaria mais aqui, porque não tenho sonho nenhum, ambição nenhuma, não vejo graça em música, não vejo beleza nas flores do meu jardim, e pior nem negativa estou, é assim, adoro que é verão, porque posso sair na rua com óculos escuros, ir até o Albert&Heijn (supermercado), e assim fico na minha, desvio de conhecidos, até na escola meu filho não foi um dia, depois foi levado por outros, e odeio pedir ajuda, odeio ser mãe sózinha, odeio tudo nesses momentos, e as pessoas demonstram compaixão e interesse, mas eu vejo na cara delas, "olha ela a coitada"..."tudo bem com você?" eu me vingo depois saindo no maior modelão, toda maquiada - maquiagem que não aparece, cabelo pintado, linda POR FORA, realmente maravilhosa, óculos de sol novo, sapato novo (e milhões de roupas que eu compro, pra não ir a lugar nenhum)...essa é a minha vingança, toda emboletada, cheia de pose, pelo menos...graças ao prozac, priadel, seroquel bla bla bla.


Mas amanhã a farmácia vai abrir, tenho a receita da minha dealer, é só ir lá buscar, não é o prozac é um outro tipo, dose mais branda e "abrangente", de nome EfeXor...vai fazer efeito.

2 comments:

Beth Blue said...

Puxa vida, Bebete...sei muito bem do que você está falando e se precisar desabafar com alguém que (infelizmente) entende do assunto, pode me ligar! Espero que você se medique o quanto antes pra não afundar demais (como eu fiz). E de uma coisa você pode ter certeza: mais cedo ou mais tarde, a depressão passa (basta seguir o tratamento apropriado) e eu sou a prova viva disso...foram 5 anos tomando antidepressivos e tentando levar a vida da melhor maneira possível, hoje me sinto outra pessoa (OK, a paixão ajuda e muito).

Mas olha, fiquei triste com este post. Odeio ver meus amigos assim (porque sei muito bem o que é isso)...Melhoras e qualquer coisa estou por aqui!

beijos

Anonymous said...

Olá Bebete
Será que ainda vens ler este Blog?
se vieres, quero que saibas que descreves muito bem a descida aos infernos que é estar em depressão. É preciso passar por lá para o saber.E passo por lá todos os anos desde os meus 12. Se me quiseres contactar...
margarida.neves7@gmail.com
Abraço solidário
Margarida