Wednesday, September 5, 2007

Balneário dos Prazeres


Acho que pra muita gente foi assim quando era criança.



De volta às aulas tinha que fazer uma redação sobre as férias. Na minha época, redação se chamava "composição". E lá ia eu, escrever sobre minhas férias, na casa da minha chata avó. Depois que cresci um pouquinho, os assuntos foram ficando melhores, porque passei algumas férias em Pelotas no Laranjal (lagoa dos patos - maior lagoa do mundo), no balneário do Barro Duro. O nome eu não gostava "Barro Duro", mas se agora vou pensar, tinha um porquê da lama, o chão era batido, e quando chovia tinha muito barro, e quando tava seco ficava duro, mas o nome mesmo era "Balneário dos Prazeres"..., mas esse nome ninguém usava.



Meu "rico" tio, ou tio rico chamado Osvaldo, mas mais conhecido como Vadico havia comprado uma casa com um quintal gigantesco, que mais parecia um sítio. E no sítio havia uma bomba e um poço d'água, plantas, parreiras, árvores, nada e tudo, eu lembro que a minha mãe pedia pra alguém dar bomba no poço, pra sair água, tinha torneira gigantesca que saia água, de vez em quando eu adorava fazer aquilo.
A casa era bem grande, de material, que pra casa de praia era bem chique, mas tudo era simples e funcional, e claro, não tinha TV, e essas coisas de cidade, aliás o que mais lembro era o matagal e o quintal, a lomba que tinha que subir pra ir pra praia, depois descer e ver a lagoa lá de cima, uma visão fascinante.





Ficávamos meses por lá, meu pai aparecia de vez em quando, sempre ocupado com o trabalho, e se comia muito, mas muito camarão. E eu mesmo várias vezes "arrastei" camarão na rede. A rede era longa, e tinha um pau de cada lado, íamos até os confins da praia, e voltávamos com a rede cheia de camarões, e também siris. Muito engraçado uma vez quando um siri mordeu o meu tio, e o meu tio mordeu o siri...criança gosta dessas coisas, e demos boas risadas, porque meu tio não tinha estômago, e era muito magro, aliás era elegante e não parecia tão velho, mas já tinha mais de 40 anos.



Foi lá aos 9 anos de idade que aprendi a nadar e mergulhar. Meu pai que me ensinou, contando como se fazia, e suas estórias quando era "guri" nos riachos perto de sua casa em Pelotas, e nas pontes sendo usadas para salto livre...ele não tinha diploma de natação como aqui na Holanda as crianças têm, diploma A,B,C....nem eu, mas aprendi a nadar direitinho, fui fazer curso de aperfeiçoamento e estilos aos 20 anos, e lembro a cena toda, quando tive a coragem de mergulhar pela primeira vez, devo ao meu pai isso.






Laranjal se situava perto do canal da cidade do Rio Grande, onde fica o maior Porto do Rio Grande do Sul, e dependendo do vento, a água em grande parte da lagoa era salgada ou mista, fazendo que os pescadores e curiosos, fosse com suas redes arrastar a batelada de camarões.



Se dizia: Hoje tá pra camarão...e o que é melhor do que obter por si próprio a "carne" de sua refeição? Eu até enjoava, pois a minha mãe tinha que variar as receitas, até a gente dizer, chega de camarão, queremos outra coisa...






Lá no Laranjal, aliás "Barro Duro", nasceu meu amor por camarão, siris....frutos do mar, e às vezes me sentia um pouco pra baixo, porque gostava muito do mar, mas lá era lagoa, e as ondas só eram grandes quando batia vento forte, talvez o El ninõ de então, o mar tinha mais requinte e mais imensidade que lagoa, lagoa é limitada, o amor a gente olha e imagina a África, na lagoa a gente ficava pelo RG do Sul mesmo.






Depois de uns anos, nossa alegria acabou, a tia Maria (esposa do meu tio), faleceu num acidente vindo do Laranjal pra Porto Alegre, trazendo no colo no carro uma panela de pressão. Meu primo que dirigia o carro, e ele tinha fama de acelerar, era louco por carros, corridas, e na época a segurança dos automóveis como cinto, e outras informações não eram conhecidas, o carro bateu numa grande árvore um eucalipto, e a panela de pressão amassou o tórax de minha tia, ainda levada com vida ao hospital, mas era tarde demais, falecera pouco tempo depois pela colisão e lesões internas.



A família culpara meu jovem primo, que ele era o responsável pela morte da mãe, outros culpavam a panela, ou o Eucalipto...enfim, ela se foi, e o mais incrível que era uma tia muito animada e anti-convencional, ganhava a vida fazendo vestidos de noivas, bordados lindos com canutilhos, tinha clientes famosos e ricos, era independente do meu tio, que também era um próspero comerciante, diziam que meu tio era mulherengo, mas na minha família os "Bordas" são mulherengos, machos, chauvinistas, dominantes, beberrões, bons empreendedores, e também carismáticos. E minha tia, era louco pelo marido, apesar de várias vezes ter ouvido rumores sobre suas escapadas, criança tem ouvidos.



Bom, meu pai não era....era fiel, e excelente marido, então nem dava ouvido sobre a vida dos outros.






Logo após a morte, meu tio Vadico vendeu a casa. Afinal, ele adorava abrir a casa a todos da família, mas devia se sentir culpado por sua ausência, e talvez por ter aprontado pra minha tia, eu não sei, mas sei que virou férias do passado o Barro ficou duro nas páginas de minha infância.



Minha mãe chorou muito, porque a tia Maria, era uma das suas melhores amigas, sua cunhada.



E antigamente era assim, os amigos da minha mãe, eram parentes.






Em 1979, meu pai decidiu voltar pras raízes, ou seja, se mudar pra sua cidade natal Pelotas, levando os três filhos menores, eu meu irmão Horácio e meu irmão Sérgio.



Os outros cinco ficaram no apartamento em Porto Alegre, mas eu tive que ir, porque não havia passado no vestibular em Porto Algre, não que fosse burra, mas adoeci numa das provas, e já fui desclassificada. Fiquei triste, mas afinal....tenho paúra a exames seletivos, simplesmente somatizo, tenho dores de cabeça, diarréia, tremores e muita ansiedade, e nessa vez tive uma desidratação aos 17 anos, época do meu primeiro vestibular...foi horrível, mas são coisas da vida.






Em Pelotas, uma cidade muito bonita, histórica, que teve seu apogeu na época das charqueadas creio que no fim do séc. XIX e início XX, onde a cidade prosperou muito, através da exportação do charque, e também importação de tecidos, produtos vindo da Europa. Muita gente enriqueceu o "se fez", a língua francesa era falada, e sorte da minha família porque os Borda (seriam Bordá) eram de origem francesa. Já meus avós são uruguayos, e o mais pitoresco, é que meus pais nasceram ambos em Pelotas, mas foram se conhecer e se casaram em Porto Alegre.






Enfim, meu pai foi pra Pelotas, e nos levou de mala e cuia...e fui agora, não só passar férias, mas morar.



Fiquei 8 meses e voltei pra Porto Alegre, o que não vou dar detalhes, mas esses oito meses foram uma eternidade. E até jurei de pé junto, cidade "pequena" jamais....meses depois voltam todos pra Porto Alegre, nem minha mãe aguentou, já acostumada com a vida na capital.



E cá estou eu há 11 anos em Leiden, uma cidade pequena, bonita, também histórica, cheia de monumentos...


Acho que estou me acostumando e aceitando a falta de mobilidade na Holanda, dia de semana sou uma mulher mãe Leiden, e no final de semana sou do mundo.




Morar não é, e nunca será a mesma coisa do que passar férias, parece que eu descobri a América, mas sei disso há muito tempo, e também quando você é mãe, a vida muda mesmo, mesmo que você more em Nova Iorque, uma mulher sempre terá que decidir, entre o sim ou não, e ás vezes depois da decisão, temos que aceitar simplesmente as coisas como elas são.



Agora estou escrevendo isso, sobre um pedaço do meu passado, e de minha descoberta, mas aceitação é muito importante, mesmo. E agora eu creio que estou aceitando mais minha vida como ela é, e aceitando-a, posso tirar mais proveito dela, saboreá-la. Tive uma conversa com minha psiquiatra, uma pessoa que admiro bastante, que tem muito tato pra lidar com espíritos inquietos como eu, e ela disse que muitas vezes perdemos energia, com coisas desnecessárias, queremos estar sempre certos, mas o mais importante é termos a consciência de nós mesmos, e ver que nós muitas vezes criamos esses inferninhos na nossa cabeça achando que eles são reais, o passado não volta atrás, somente as lembranças, aceitar nossas escolhas é um passo pra nossa felicidade. .






Claro, agora me sinto bem, parece que o tratamento está começando a ficar equilibrado, o curso de Yoga estava lotado, quando hoje me ligaram:



- Mevrouw Borda Indarte, uma pessoa desistiu, e assim eu deixo o ritmo da minha vida fluir, mas direcionando, e estando atenta aos "sinais".




E de Pelotas, Laranjal, Balneário dos Prazeres e Barro Duro ficou uma lição em 2007, aqui lá está totalmente modernizado pro turismo, o Barro nem mais Duro é...


Só pra ver que certas coisas, lugares ou pessoas pertencem a nosso passado, ou povoam nossa imaginação fazendo parte de nossa memória, cabe a nós desenterrá-las ou não.



8 comments:

Antonio Fontelles said...

Adorei o texto!

Beth Blue said...

ela disse que muitas vezes perdemos energia, com coisas desnecessárias, queremos estar sempre certos, mas o mais importante é termos a consciência de nós mesmos, e ver que nós muitas vezes criamos esses inferninhos na nossa cabeça achando que eles são reais, o passado não volta atrás, somente as lembranças, aceitar nossas escolhas é um passo pra nossa felicidade.

puxa vida, é isso mesmo! aceitação é a chave da felicidade (leia-se: devemos aceitar o que não podemos mais mudar e tentar mudar o que ainda pode ser mudado).

e esta mente inquieta que vos escreve volta pra terapia semana que vem ;-)

Miguel Andrade said...

A parte mais incrível é a de que vc já está aí a 11 anos! :))
Olha, minhas férias infantis sempre foram chatissimas, minha mãe nunca levava a gente pra lugar algum, daí eu ficava constrangido em fazer estas redações e acabavam falando do que vi na TV. Triste...

Louis Alien said...

ola, achei um post seu sobre o mantra.
gostaria de saber mais sobre a pratica e se puder me ajudar agradeço de coraçao.

Paulo said...

Desculpe me atrever a responder ao teu post somente mais de quatro anos depois, a internet nos prega essas peças, escondendo (de quem não sabe que existe) textos fantásticos como o teu. Confesso que são raras as leituras que mexem comigo e a tua lançou-me, sem dó nem piedade, a uma época e local trazendo à tona lembranças boas a tempo esquecidas... Desculpe novamente, não me apresentei, meu nome é Paulo Roberto Ferraz, moro em Gravataí desde de 1997 quando vim de Pelotas e morei ou passei veraneios no nosso Barro-Duro na mesma época anterior a 1979. o Barro duro era muito pequeno naquela época e provavelmente nos conhecemos ou pelo menos nos cruzamos várias vezes, tentei puxar da memória os nomes dos teus tios e não saiu nada, pois não sei onde moravam e não sabendo onde moravam fica mais difísil
lembrar as pessoas. Será que tú poderia dizer onde moravam os teus tios, é que a curiosidade fogo.
Continuo passando as férias lá, inclusive vou dia 19/01 e só volto depois do carnaval, temos uma casa que era da minha falecida sogra próximo a caixa dágua. Gosto muito de lá, mas lamento o estado de abandono, já pensei até em fazer um movimento para solicitar das autoridades uma revitalização e voltar a ser aquele lugar lindíssimo que já foi.
Obrigado pela oportunidade de ler este teu texto e se der para responder onde morava os teus tios fico muito grato.
Um abraço.

Paulo said...

Desculpe me atrever a responder ao teu post somente mais de quatro anos depois, a internet nos prega essas peças, escondendo (de quem não sabe que existe) textos fantásticos como o teu. Confesso que são raras as leituras que mexem comigo e a tua lançou-me, sem dó nem piedade, a uma época e local trazendo à tona lembranças boas a tempo esquecidas... Desculpe novamente, não me apresentei, meu nome é Paulo Roberto Ferraz, moro em Gravataí desde de 1997 quando vim de Pelotas e morei ou passei veraneios no nosso Barro-Duro na mesma época anterior a 1979. o Barro duro era muito pequeno naquela época e provavelmente nos conhecemos ou pelo menos nos cruzamos várias vezes, tentei puxar da memória os nomes dos teus tios e não saiu nada, pois não sei onde moravam e não sabendo onde moravam fica mais difísil
lembrar as pessoas. Será que tú poderia dizer onde moravam os teus tios, é que a curiosidade fogo.
Continuo passando as férias lá, inclusive vou dia 19/01 e só volto depois do carnaval, temos uma casa que era da minha falecida sogra próximo a caixa dágua. Gosto muito de lá, mas lamento o estado de abandono, já pensei até em fazer um movimento para solicitar das autoridades uma revitalização e voltar a ser aquele lugar lindíssimo que já foi.
Obrigado pela oportunidade de ler este teu texto e se der para responder onde morava os teus tios fico muito grato.
Um abraço.

Donapacem said...

Bebete, não lhe conheço mas ao ler teu blog senti-me próxima.Sou pelotense nascida em 59, aos 3 anos meu pai comprou casa no Laranjal, pesquei camarão, e fazia piquenic até o Barro Duro, agora procuro uma casa para me refugiar , que para mim é o lugar mais lindo do mundo. Bj

Donapacem said...

Sou pianista e gaiteira, mãe de dois filhos já adultos, me identifiquei com tuas inquietações, bj