Wednesday, April 25, 2012



Eu raramente choro, aliás...não choro mais, parece que os dramas da minha vida evaporaram, lágrimas de crocodilos então? Nem sei mais o que é isso, me emociono, mas as emoções mudaram, onde foram as lágrimas?

Será que ainda sou humana? Será que ainda me emociono de verdade? Tudo o que não quero é ser piegas, ser dramática, não quero mais isso, perda de tempo, apesar de saber que o tempo não se perde, se aprende, se vive, hoje em dia eu percebo as coisas como elas são, sei que tudo pode mudar do dia pra noite, numa fração de segundos, mas não me desespero como costumava me desesperar, não me (d)escabelo, não me arranho, não grito mais, não quebro espelho, não rasgo papéis, e fotos (nunca rasguei), e nem maldigo a Deus, eu sei que ele não existe, eu seguro a onda, eu amadureci, eu mudei, eu mudo.

Mas hoje chorei, e bastante, chorei por causa de morte * causa justa, chorei porque estou viva, e percebo que cada vez que a morte ronda, ela deixa pessoas tristes, confusas, ela deixa a gente com a boca aberta, com aquele vazio, vácuo, dá aquela rasteira...eu choro por nós os vivos, chorei pela fragilidade de nossas vidas, chorei porque vamos morrer um dia, e que todo mundo ao nosso redor vai morrer também, sem avisar (praticamente)...chorei porque não posso fazer nada, chorei porque o marido da avó das crianças morreu, deixando a mulher sozinha. Chorei porque ele teve um ataque no coração, um golpe fulminante, assim...nesse dia lindo de sol e céu azul, raridade na Holanda. Nesse começo de primavera fantástico, que deixa nós meros mortais do hemisfério norte felizes e cheios de energia. Chorei porque ele sempre foi legal comigo, desde que cheguei na Holanda, sempre pronto pra me ajudar. Chorei porque o conhecia há 15 anos.

O coração dele parou, e ele se foi...e nós ficamos, sempre alguém fica, uns vão, outros ficam, ninguém volta pra contar.
E me preocupo, sinto por eles os que ficam, eles sentem, e dos que vêem o corpo morto, de frente...os que dão a notícia, os que não estão preparados a lidar, com essas coisas da vida, a morte, porque na verdade, na vida real, quem está preparado? As pessoas próximas, as pessoas que sentirão falta no dia a dia, claro todos podemos viver sozinhos, somos sozinhos, porém é triste.

A vida continua após a morte, é preciso cuidar do funeral, do caixão, dos rituais de morto, é preciso se despedir do morto, é preciso protocolo, convidar as pessoas, participar a morte, mandar cartões, fazer cartões (é assim que é aqui na Holanda), se paga um seguro funeral (enterro/cremação), terá café, chá, bolo ou só biscoitos? Meus pêsames, se manda cartão de condolências, é educado, faz parte, o que não faz parte, é achar palavras, sorte que os cartões já possuem essas palavras que a gente não acha, assunto delicado, quem gosta? Morte, ninguém, compreensível.

É uma partida, uma despedida,para dar algumas resposta à nós que ficamos, em vida, nesse planeta, nessa esfera, nessa dimensão, nesse Universo.

Pra onde irão os mortos? Onde irá  opa Jan Willem?

Ultimamente tenho pensado muito na morte, nos mortos...e cada dia me convenço, que não resta nada, que a matéria se esvai, que o tal espírito/alma/energia...se dissolve no Universo, Multiverso, que nem antes da vida, antes da vida, não existia vida, se houver reencarnação, será outro corpo/carne/ossos, nunca esse.
Que não há vida após a morte para aqueles que morreram, apenas há vida após a morte, pra nós que estamos vivos, é muito duro, é muito triste, nunca mais veremos os parentes mortos, os amigos, nunca mais nos encontraremos, mas essa idéia...é a idéia de vivo, pra isso existe LUTO.

Não é preciso chorar (demais), nem se desesperar...acabamos calados, mudos diante da morte, sem explicação nenhuma, os que se foram, só ficam na nossa memória. Nós ficamos, até chegar o nosso dia, e assim ficaremos na memória, por um tempo determinado daqueles que ficam, pra depois deixarmos de existir pra sempre, ou pra existir somente em literatura/história...como os bons e maus que passaram por esse mundo civilizado, os famosos de verdade.
De resto, nada tem importância...é triste admitir, mas nada mais importa.

E quanto ao choro, fui consolada e consolei, tentei, consegui, cada um tem seu próprio luto, é individual.
Que fiquemos em paz, mortos e vivos, enquanto houver vida, e depois da morte.




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