Monday, November 10, 2008

Ik wil chocola (eu quero chocolate)



"The table is red."

Era o segundo semestre de 1996, quando aportei na Holanda. Dava tempo de ir com meu marido Peter ao cinema de vez em quando, no cine clube Kijkhuis em Leiden, e fomos assistir "L'utieme Jour", um filme tocante que me marcou até hoje, e eu gostaria muito de rever, mas filme antigo não se acha tão fácil, tem que comprar na internet, procurar, tenho a maior preguiça, raramente compro artigo pela internet, gosto de ir na loja, e talvez seja até bom, porque senão não sairia mais de casa, e ficaria gorda que nem no filme do W-ally.

Ik wil chocola, dizia George, o carinha no filme com síndrome de Down. Sempre me lembro do jargão: Ik wil chocola. George tinha alergia a chocolate, e quanto ficava triste ou frustrado comia chocolate e pensava na mãe morta, que era a única pessoa que se importava com ele, mas depois pagava o preço, passava muito mas muito mal.
Às vezes quando estou mal, digo pras crianças com o mesmo tom de voz do George:

IK WIL CHOCOLA...um dia eles também vão assistir esse filme, porque já o conhecem de tanto que eu falo.

E semana passada eu sofri, fiquei de mal com a vida, chorei, porque eu também tenho de certa forma um George em casa, mas outro tipo, um George que não se percebe nas feições, um George que é difícil de explicar quando os outros perguntam o que é mesmo o "autismo"? Minha filha não somente vai na escola, ela segue um tratamento, e tem altos e baixos, e ultimamente mais baixos que altos, atravancando o conhecimento e aprendizado escolar, o mundo dela é o mundo de um seriado da TV Holandesa Het huis Anubis, sua nova obsessão...que poderá durar até 3/4 anos.

Lembro-me bem como se fosse hoje, eu perguntei ao Peter:

- E se tivermos um George?

ele respondeu:

- Vamos amá-lo de qualquer jeito, não será nenhum estorvo.

Aquilo me deu conforto, porque eu não tinha a mínima idéia do que era ter um filho com distúrbio do autismo, e nem pensava em ter dois filhos, como tenho hoje, foi tudo muito rápido, olhando agora pra trás.

Mas é fácil falar, aqui na Holanda quando a gestante tem uma idade de risco, e faz o teste pra detectar se o feto possui coluna bífida ou outra anomalia, ela pode optar pelo aborto. Porque só mesmo os pais para saber que não é fácil ter um filho assim, um filho assim tem que ser protegido constantemente, um filho assim precisa de atenção, dedicação, muito amor, mas muito mesmo.
Com um filho assim praticamente não se tem vida própria, pro resto dos seus dias, não há férias, não é trabalho das 9 às 5...tem dias que é um fardo, e não se pode deixar pra lá.
É como se eles andassem sob a água, leves, sem pecados, sem maldade...mas ao mesmo tempo você como mãe o levasse o tempo todo sob os ombros, como Atlas, chega num momento, suas costas doem, você se olha no espelho e não se reconhece, você envelheceu, mas não na idade, por dentro. E tem de achar milhões de maneiras para anestesiar sua dor, que ninguém mais sente, só quem passa pelos mesmo problemas, dificuldades, acredito que seja assim pessoas que estão com problemas de câncer, outras doenças em estágio avançado, doenças psiquiátricas, você precisa de um grupo, de um conforto, de um interesse, de colocar sua estória pra fora, pra não sobrecarregar amigos, família.

É tudo tão fácil, e tão difícil...com essas pessoas.
São preto no branco, sem meios termos.
Os Georges são pessoas muito especiais, ao mesmo tempo que podem ser um peso, eles têm tiradas absurdas, engraçadas, que fazem-nos perceber como a vida não é só triste, dramática, alegre, cômica, mas um fluxo oscilante de momentos, um tobogã, um aviãozinho que voa alto e depois cai lá embaixo, nessa gangorra inesperada das emoções e sentimentos que um ser humano possa ter.
Os Georges da vida...aqui onde moro é invadido de Georges...eu os vejo, estão em todos os lugares.
Talvez porisso que a Holanda (ou outro país parecido) não seja hipócrita, eles estão por todos os lugares, as caras já são conhecidas, e não existem mais chacotas...não são permitidas, já foi assim tempos atrás porque mongol, é ainda um adjetivo usado para xingamento, mas as pessoas de bem se policiam, para não proferir tal cúmulo, é passé...(me corrijam aqueles que escrevem francês), fora de moda toda, retrógrado, antiguado. O termo mongolóide, fora do contexto médico, está como o acender um cigarro na sala de visitas de alguém com câncer no pulmão.
Fazê-lo, é pura maldade.

A Dominique ficou contente ontem, dei o primeiro celular de verdade de presente, desses pre-pagos, bem bonitinho da Nokia, e coloquei na agenda de endereços o meu telefone, o do pai...virão ainda o dos avós, escola, e outros poucos. Mas primeiro ela vai ter que aprender a usá-lo, não entende nada de nada, quando falei que era pré pago, ela achou que tinha dinheiro dentro do telefone.
E sempre essas coisas de ser canhota, dificultam um pouquinho também.
Mas aos poucos ela vai, as únicas duas colegas meninas também tem, a Amber e a Emily.
Ela odeia a Emily, que roubou a única amiga dela a Amber.
Ficou desconsolada...mas agora melhorou.

Essa semana as coisas estão entrando nos eixos, a vida continua mesmo, eu mesmo já estou dançando na sala, que me diz que estou em paz comigo.
E assim no oitavo dia, George subiu ao céu, sem antes não deixar de dar uma lição de vida ao amigo Ari um bem sucedido homem de negócios, mas com a vida privada na privada, divorciado, sem contato com as crianças, irritado, solitário, estressado, calculista.

E no fundo é o que importa na vida das pessoas, a família - aqueles à que queremos bem, e os laços de amizade que se fazem espontaneamente, e crescem através dos anos.
É quando começamos a sorrir, quando temos amigos por perto, que estão sempre dispostos a dar uma palavra de conforto nas situações críticas, ou nos fazerem sorrir, mesmo sorriso colorido. Ou a esses Georges, repetitivos...mas muito engraçados, porque se não fossem eles, o mundo seria muito chato, previsível, e fácil uma loucurinha de vez em quando não faz mal à ninguém.
Sabemos que a vida não são só férias, carnaval, sorrir o tempo todo, ou só ser sério, aliás é preciso saber pra sobreviver, que a vida graças a toda a dinâmica, tem altos e baixos, tem fases, e depois mais fases, sempre muda.
Então George, não coma mais chocolate, eu me importo com você, eu vou cuidar de você nem que seja até o oitavo dia.

6 comments:

anlene gomes de souza said...

Oi, beleza? Estou ajudando a atualizar este site:
http://www.mundopequeno.com/

Linkei teu blog. Se não quiser, avisa, please.

plinio said...

olá Bebete, já faz um tempo que tenho lido seu blog, pouco mais de um mês... e hoje resolvi sair da condição de 'voyeur' pra agradecer sua sensibilidade e tecer outras pontes entre a holanda e a frança, além do thalys. Pra resumir (muito) quem sou, sou um paulistano que mora em Paris (desde 2001), mas que quando saiu do Brasil (em 99) nunca imaginou que viria pra Europa. BOM, o mais importante por ora é que seu texto ecoou além das fronteiras do seu blog e está aqui, materializado numa sacola. "ik wil u 'georges' sturen"
deixo aqui meu email: pliniojunior@yahoo.com
e pra essa mensagem não ficar com ar 'bizarro', te adicionei no orkut apenas pra você ter uma idéia de quem sou eu.
abraço grande,
p.

Beth Blue said...

Bebete, não é fácil né?
En ik wil ook chocola...;-)

Alice - Rotterdam said...

Manda seu endereço que vc ganha, não chocola, mas o filme!
Um beijo.

Bebete Indarte said...

Mandar pra onde?
Vou responder no orkut.
xxx

Andrea Drewanz said...

Caramba!
Vc me emocionou muito com este post... Tô até sem palavras...
Lindo!
Vou tentar encontrar este filme pelas locadoras, apesar de achar uma tarefa meio impossível.
Depois, se puder, me responda quem é o diretor do filme, tá?
Bjks