Tuesday, October 11, 2011

E assim se passaram 15 anos



Completei 15 anos de Holanda no dia 31 de agosto 2011, gosto dessas datas fechadas e arredondadas, 5, 10, 15, 20...25...50, pela ocasião, não quero deixar passar em branco.

Pois bem, muita coisa mudou desde então, do dia que desembarquei com mala e cuia no Aeroporto de Schiphol, pronta pra uma nova vida. Mas o que sem dúvida me marcou mais, é que foi aqui na Holanda que me tornei mãe.

Nem meu casamento, nem meu divórcio, nem meu diagnóstico de bipolaridade, nem o diagnóstico de autismo de minha filha, nem a radical mudança de vida, de Rainha da Cocada Preta à estrangeira com vida aparentemente pacata em Terras Baixas, depois de uma exaustiva jornada de independência, carreira, e individualismo.

Ser mãe, ter me tornado mãe, essa sim foi a grande mudança de minha vida. O mundo que pertencia, e o mundo a qual tive o privilégio de passar a pertencer, a vivência antes e depois de ser mãe, a conhecer a diferença  abissal entre esses dois mundos. Tive minha filha as vésperas de completar 38 anos, e meu filho aos 39 anos, ou seja, tarde, e considero que quase 40 anos (de vida), é bastante tempo.

Foi uma escolha minha (antigamente não queria ter filhos), nunca me sentira preparada para tal, nunca vira aquele romantismo todo de ter bebês, nem de bonecas gostava quando criança, morria de medo de colocar filhos no mundo, perder meu tempo (muitas atividades na minha vida pessoal a serem feitas), dedicar minhas horas pra outros seres, seres novos nesse planeta, seres vivos, vindos de dentro de mim, não imaginava e nem pensava sobre isso, fora que minha mãe teve 8 filhos (minha heroína, principalmente agora), e quando baixava a 'aborrecente" em mim, eu dizia à ela:

- Sai dessa vida!!! Você é masoquista!

No que ela me respondia:

- Quando você tiver filhos, você vai ver!

Ver o quê, respondia? TV? malévola eu gargalhava de minha mãe, e sua vida (de sacrifícios) dedicada aos filhos (8 ao total) onde passou dezoito anos de uma gravidez à outra, embora eu valorizasse tudo que ela fazia por nós com o cansaço físico estampado em seu olhar (minha mãe sorria pouco), eu tinha dó de olhá-la com a vida voltada para nós e não entendia, achava que ela precisava sair daquela situação, queria ajudá-la de alguma maneira, mas nada poderia ter sido diferente, 8 pessoas, é muita gente, é casa cheia, e atividades o tempo inteiro, é servidão o tempo inteiro, abdicação,dedicação, responsabilidades, não há saída, e no fundo eu sabia. Antes de ter filhos, ela também começara tarde pra geração dela (27 anos), casara aos 26, e naquela época uma moça casava mais cedo, assegurava um partido pra não ficar pra titia, ou seja, solteirona. Mas não é bem essa a história de minha mãe, ela também teve sua própria vida, por algum tempo, também foi uma mulher independente e decidida, aos 21 anos saiu de Pelotas pra ir morar em Porto Alegre, no apartamento de um tio, trabalhou como contadora, enfermeira, e quase entrou para um convento, pra desgosto de minha avó, que fez das tripas coração para que ela desistisse daquela idéia absurda, que vendo agora, nem tão absurda era, talvez ela tivesse mais tempo pra si, não teria os derrames cerebrais que teve, nem tantas dores de cabeça...talvez, talvez, mas ela também foi feliz, com os filhos ao redor, boa parte de sua vida, teve sua própria mãe como amiga, cena que jamais esqueço quando minha avó se foi, minha mãe chorava como criança no funeral, perdi minha mãe Dedete (meu apelido em casa), perdi minha amiga...aquilo me comoveu mais do que a morte de minha avó.

Medo, medo inicial, isso sim eu tinha, medo de ser mãe. Queria outra vida, diferente de minha mãe, e uma coisa que ela sempre me incentivou era ser independente, não depender de ninguém, nem de marido, nem procurar casar (nem com bom e nem com mau partido), se encostar, e sim, ir à luta, estudar, trabalhar, ser jornalista como tanto queria desde os 12 anos, ir atrás dos meus sonhos e de minha emancipação, minha revolução pessoal.

Young mother and two children - Mary Cassatt - 1905
A vida teve outros planos pra mim, passei no vestibular de Jornalismo na UC/PEL (estava morando em Pelotas temporariamente) não quis ficar lá por mais quatro anos...naquele interior chato, não me matriculei naquela faculdade, e só no ano seguinte, já em Porto Alegre, decidi fazer Turismo (queria conhecer o mundo) colocar o pé na estrada, já tinha saído de casa (aos 19 anos), e prometera à mim mesma, NUNCA mais voltar, e nunca voltei, radical como sou, só como hóspede, como filha, com minha própria vida desenhada, dona do meu próprio nariz. Anos se passaram, hoje estou aqui, de mãe, divorciada (há 10 anos), cuidando e educando os DD's, sem marido, o que faz uma grande diferença (quando os planos foram feitos a dois), e mesmo assim me sinto forte, praticamente não fico doente (fisicamente), sinto uma proteção incrível ao meu redor, apesar de todas minhas limitações, me sinto uma pessoa energizada, forte, animada, percebi depois do divórcio que tinha que cuidar de mim, deles, que voltaria a ser eu mesma, que os planos de casinha e filhinhos, papai mamãe não tinham dado certo, queria voltar a ser a mesma pessoa com ideais de independência e não de autocomiseração.
Nada me deixa mais feliz do que olhar no espelho, e me aceitar como sou, estou ainda na luta, me sinto ótima, eu mesma, não preciso provar mais nada, não preciso me apegar em bengalas, caio e levanto, mudo de opinião, me contradigo, danço sem platéia, choro sem platéia, não preciso de aplauso de ninguém e não preciso me mostrar forte, nem linda, nem jovem/velha,...eu já sou tudo isso, eu sou o que sou, com o passar dos anos, nossa própria companhia e viver em paz, é tudo que se quer, e saber aceitar que a vida toma rumos diferentes a cada escolha, e que somos o arquitetos de nossa própria casa, mas não podemos fazer nada contra as intempéries, a não ser fazer um bom telhado, colocar boas portas e janelas, nossa casa é nossa base, e uma base sólida, faz toda a diferença no mau tempo.
Mother and two children - unknown
 artist

Um dos motivos de me tornar mãe (da noite pro dia), não, não foi da noite pro dia na verdade, foi tudo planejado e organizado dentro da minha cabeça depois que o tal  relógio biológico tic tac tic tac começou a balançar, a tal natureza, comecei a me interessar...é que de alguma forma percebendo agora sempre fui muito maternal com meus amigos, irmãos menores, mãe de cachorro (estágio?), e ao atravessar a rua, sempre tinha a (infeliz) tendência de pegar a pessoa pelo braço. Teria sido isso instinto maternal? Pode até ser, mas sempre gostei de proteger os mais frágeis (os que considerava mais frágeis), os que ainda não tinham descoberto suas próprias forças, mas em um determinado ponto, algo me dizia que eu precisava ser mãe dos meus próprios filhos, o momento propício teria chegado como um bolo no ponto, que você tem que tirar do forno e não esperar nenhum segundo a mais sequer.

Aqui na Holanda, realizei esse sonho..., pois ser mãe se tornou um sonho, um sonho tardio. Claro que eu jamais imaginava ter os filhos que tenho, nem imaginava que teria uma menina, ou um menino, nessa ordem. Os tive, e isso marcou e mudou o rumo de minha vida pra sempre.


Tornando-me mãe, entrei pra uma outra dimensão...que somente quem é ou já foi mãe sabe (mãe biológica ou mãe adotiva, tanta faz), a responsabilidade maior na vida de qualquer pessoa, vidas que dependem de você, de sua dedicação, de seu vigor, do seu tempo. E mesmo quando eles (quem sabe um dia), não precisarem mais de mim, ainda estarei aqui e terei muitas lembranças, de todas as fases de crescimento e desenvolvimento.

Ás vezes meu filho se pega fazendo contas. Mãe, quando eu tiver 30, você terá 70, e quando eu tiver 60...

- E quando você tiver 60, eu já terei sumido desse planeta, respondo, afinal ninguém sabe do dia de amanhã (não somos imortais) e o tempo é implacável, pois assim se passaram 15 anos...e assim espero que sejam mais 15, quem sabe mais 15...e talvez mais 15, nunca se sabe.
Beethoven


2 comments:

Vivi em UK said...

Parabéns Bebete,
Adorei o texto.
Q venham mtos 15, 20, 30...
Felicidades sempre...vc é uma mulher de mta garra.
Bjs com saudades.

Urbanoantropofagia said...

Parabéns querida. Um relato sincero e bacana.Dá pra sentir que veio da alma, is the real thing.

Dum