Saturday, October 22, 2011

Amores antigos batendo na porta



Ontem um amor antigo bateu na minha porta. Uma pessoa que não via desde o rompimento em fevereiro de 2009, ou seja, um tempo bem longo atrás.
O relacionamento que tinha durado cinco anos, chegara ao fim com uma grande briga (lugar comum), e com a grande probabilidade de nunca mais cruzarmos o mesmo caminho, a distância seria o melhor remédio, o tempo, o afastamento e rompimento total, pra não ocorrer nenhuma minúscula possibilidade de recaída, a ferida precisava cicatrizar.

Inúmeras vezes tentei imaginar, como teria sido um provável encontro nas ruas de Haia (cidade em que ele reside) e visito com frequências, e até procuro evitar, ou quando vou olho ao redor, imaginando que ele estaria em algum lugar. Uma vez uma amiga estava indo ao cabeleireiro em Haia e o encontrou, depois do ocorrido, me ligou correndo e disse: adivinha quem eu vi? No fundo fiquei morrendo de inveja dela naquela ocasião. Até a infeliz e trágica idéia de que um dia ele estaria no leito de morte, um acidente quase fatal, uma doença terminal, e diria ao parente mais próximo, preciso revê-la, preciso falar com a Bebete. A situação seria inofensiva, não voltaríamos, ele abraçaria a morte, e eu seguiria sossegada pela vida afora, longe do traste, finalmente LIVRE.  Pensava cada idéia esdrúxula (inconfessáveis dirão muitos), pensava que ele um dia ia querer falar comigo novamente, me ver, sonhava que um dia ele iria deixar o orgulho de lado e querer pelo menos a minha amizade (apesar de saber que amizade nunca funcionaria no nosso caso, teve paixão demais, amor demais, brigas demais, ódio e esses sentimentos combinados, não foi um relacionamento qualquer, foi amor, e amor é dor, destruição, guerra, e todos os sentimentos que as pessoas sonham em ter um dia, e eu tive. Um amigo pra conversar, ir ao cinema, tomar um café? Jamais, amava muito esse homem, me descabelava, acabávamos o relacionamento, e sempre um ou outro arrumava uma desculpa da mais esfarrapada possível pra voltar. Certa vez, ficamos 5 longos meses separados, brigados, e mesmo assim, voltamos.  Sonhava que a vida feliz a seu lado seria ele mudo numa cadeira de rodas, e eu lá empurrando, ele totalmente dependente de mim, num inferno de relacionamento claro, mas juntos, melhor de corpo presente, do que nada, melhor ódio mortal, do que não poder estar juntos e respirar o mesmo ar, pra vocês verem o quão passional eu sou.
Onde as pessoas chegam por amor...o quão baixo as pessoas se nivelam, como certos corações rastejam, são bregas, marginalizados, sem ética, sem códigos de condutas, sem fórmulas, e as pessoas digo eu, o coração digo o meu, a lógica e o raciocínio inexiste, cegueira.  Nosso relacionamento era osmótico, destrutível, a única salvação era o afastamento, e foi o que finalmente aconteceu. Tentávamos usando todas nossas forças a agradar um ao outro cada vez que voltávamos, já sabendo do nosso fracasso, do pisar em ovos, eu sempre me sentia diminuída, menosprezada, incompreendida, e ele se sentia incompreendido, traído, e outros sentimentos que nem mesmo procurava entender, eu o deixava louco por existir costumava transparecer, eu era expansiva demais, tinha vida demais, mudava demais, ele tinha muito rancor no coração, não tinha senso de humor, tinha um ranço político exacerbado, era culpa acima de culpa, ele o dono da verdade,  queríamos estar juntos, felizes, mas não conseguíamos agarrar essa felicidade, não vivíamos em paz, pelo menos por muito tempo. Fui eu que dei a palavra final, a derradeira. Ele ficou lá naquele dia em fevereiro, falando sozinho. Eu dei um basta, o salvando, me salvando, afinal amar demais, enlouquece, e como diz a música do Sting ...if you love somebody set them free

Foi assim que aconteceu, nunca mais procuramos um ao outro, entretanto, foi ontem que o vi novamente, numa grande loja de departamentos em Amsterdã, no mesmo andar, ele na parte da livraria (Livros de História) e eu saíndo da ótica, no quarto andar, tinha ido à Amsterdã pra comprar de vez meus óculos, e deixaria as lentes pra mandar colocar em Leiden.

O encontro foi meio bobo inicialmente, bem besta e patético, parecia irreal, se for falar a verdade, você olha praquela pessoa que significou muito pra você, olha a roupa de relance, a aparência, a reconhece, as cores, o rosto, você é atraido como um imã para o olhar da pessoa, simultaneamente, leva um susto, se abala por milésimos de segundos, é tudo tão natural, tão inesperado,  não pode aparentar que está abalada, nem sabe se está abalada, estava abalada, ou estupefata? É preciso muita coragem pra ser natural, respirar fundo, seguir em frente cada segundo, não dizer besteira, pra abrir a boca, articular rapidamente na cabeça o que dizer, pensar rápido, falar pouco, observar, parece que qualquer palavra proferida, será clichê. Você mudou, a pessoa também. Todo mundo muda em 2, 3 anos...mesmo que seja algo superficial, engordou emagreceu, aparenta mais velho, ou não, mas tudo é familiar (sinal de que o amor não morreu?). O estilo dele era exatamente o mesmo, uma certa elegância, neutralidade... trenchcoat verde musgo (novo), o antigo eu conhecia, era também verde, ele usa muito verde, bege, marrom, essas cores neutras, cores de homem que são ou querem parecer sérios, cores que combina com ele, não ousa muito, não sai da zona de conforto, se conhece bem.

É preciso também deixar fluir, cada segundo é contado...ninguém tem pressa apesar do tempo não parar, o tempo em si parece que pára, o que você tem a fazer, fica insignificante. Você se pergunta, estou parecendo calma, estou bem? Será que dá pra passar que estou bem, estou feliz, mais velha, mas mais bonita, confiante, eu passo bem sem ele, ele passa bem sem mim. Deixa assim, tá tudo muito bem demais, até divertido, ótimo até, quanto tempo esperei por esse momento, sem esperar nada e agora que chegou o que seria, coincidência? Acaso do destino? O que significa isso mesmo? Um encontro casual? Uma nova aproximação. A cabeça faz muitas perguntas, mas na verdade se esquece, e só o que importa, é o momento presente, o encontro em si.

Vamos tomar um café? Ele convidou imediatamente. Afinal ficar parado conversando em pé, numa loja não fazia nosso estilo, senti que ele gostou de me ver, de estar comigo novamente, e queria mais, e claro, eu também, cheguei até a pensar que ele viraria a cara pra mim, emburrado...fazendo de conta que nunca me viu mais gorda, mas isso só acontece, quando um dos dois não amou o suficiente, e pra mim não era nosso caso, o amor sufocou nosso relacionamento.

- Naturalmente. Respondi. (No quinto andar da loja de departamentos, tem um restaurante). Lá fomos nós, subindo um andar acima apenas na escada rolante do amplo andar.

Capuccino por favor, eu disse,  ele pediu dois...pagou, pegou a bandeja decidido, fomos procurar uma mesa, uma menina pegou a mesa  vaga antes, tinha outra vaga, lugar agradável, neutro...pessoas bem vestidas, ambiente neutro, sem muito barulho, extremamente limpo, apesar de meu olhar se negar a ver outras coisas.

Puxei a cadeira pra ele (que estava com a tal bandeja), tirei o casaco de lã, o cachecol, coloco a bolsa na cadeira de design forrada ao lado...começo a entrar numas com o meu pescoço (estou com 51, o rosto envelhece mais tarde, mas o pescoço?) deixo esse pensamento pra lá, estou confortável comigo mesma, confiante, elegante de preto (me sinto), sem óculos (de lentes), sem maquiagem...apenas com um bom batom vermelho, uma pele bem hidratada, um pouco de pó de arroz, meus cabelos estão curtos, bem curtos mas no corte, estariam curtos demais? Bobagem de mulher penso eu, estou ótima, eu que escolhi...estar assim, com cabelos curtos, brancos, a idade não escolhi, mas estou numa fase ótima, a dos 50, a fase do PHODA-SE! Falo pra ele, ter 50 é ótimo, uma libertação. Ele ainda está com 46.  Mesmo que houvesse alguns resquícios de insegurança, as unhas não estavam imaculadamentes pintadas por exemplo (coisas de mulher se estressar por bobagens), mas o anel é bonito, o relógio é minimalista, o casaco é de boa qualidade (tiro sempre as pelugens brancas antes de sair de casa), o sapato é bonito da Galeries Lafayete uma marca comum, de couro Oxford, estou perfumada, estou bem cuidada, o resto que se dane, o que ele nesses poucos minutos, pensará de mim, não quero esnobar, dizer que tenho namorado (firme), que meu namorado é muito querido, mas acabo dizendo... ele sabe mesmo assim...diz que segue esse blog de vez em quando, deve continuar traduzindo no Google de vez ou nunca.

Ele me conta as novidades, trabalho novo, profissão nova, segue as mesmas causas irritantementes políticas, uma delas era a minha maior rival no passado, tamanha a obsessão, a paixão, o que no fundo até o admirava.

Ao lado do grande prédio da loja de departamentos mais cara da Holanda a Bijenkorf onde estávamos, a ironia das pessoas do Occupy Amsterdam, dois mundos bem opostos.

Você tirou fotos? Viu o Occupy?

- Eu não fotografo mais, vendi minha Leica (é verdade, eu lembro), mas passei por ali, sim, muito importante esse momento no mundo, blablabla.

Eu também acho, tirei algumas fotos, bacana esse troço mesmo: Occupy

Pois é.

E eis que chega minha amiga (tínhamos marcado um encontro), ela sentou, estava com um casaco parecido com o meu, preto de lã, só que no meu os botões eram maiores. Eu conto a novidade: que me mudei de casa, que a casa é bem bacana, minha amiga confirma que é bem bonita, espaçosa, toda branca, Falo nas crianças, ele pede pra mandar lembranças, falamos um pouco sobre as crianças, que já estão grandes, falo só que está tudo bem, não entro muito em detalhes.

Começamos a falar inglês, português, eu holandês devagar pois ela não domina, em Amsterdã é normal, é assim, nem todos os estrangeiros falam holandês. Ele diz que tem vindo à Leiden (minha cidade) encontrar amigos de escola de muitos anos atrás, nunca nos vimos. Acabei dando meu endereço novo, me mandou um request de amizade no Facebook, coincidentemente ele já é amigo dessa minha amiga, eu já estava a par. Minha amiga fala em códigos (língua portuguesa), não dá o endereço boba. Mas eu fiquei com vontade de dar, ninguém dá mais endereço, as pessoas te adicionam no Facebook, te acham fácil no Google hoje em dia, eu bem sei, mas sou diferente, gosto de escrever em guardanapos, gosto de pegar canetas. Soy vintage. Ele não vai bater na minha porta, holandês não bate na porta...e se ele bater na minha porta...bom,

O diálogo passou a ser de três. Tirando o foco do nosso encontro a dois.

Por ele, e por mim... talvez ficássemos conversando até, até...até sei lá quando, até anoitecer, até as palavras acabarem. Não sei, não sei o que seria, ele com certeza ia me convidar pra jantar em algum restaurante bacana, é doido por comida. Teria eu coragem de me aproximar mais ainda? Estávamos mais próximos do que nunca de uma certa forma, novamente, por pouco tempo. Sentia um certo encantamento mútuo no ar, mesmo ele dizendo a minha amiga, que não estava mais apaixonado por mim (mas afinal ele tocou nesse assunto). Antes de minha amiga chegar, ele também tocara no assunto da derradeira briga naquele dia na piscina...eu o interrompi, afinal não queria estragar o momento, falando de briga...mas entendi, que o deixei falando sozinho, e tinha dado um ponto final, sorte que foi exatamente nesse momento que minha amiga chegara, mas parece que ele queria desabafar sobre o ocorrido anos atrás, talvez fosse bom, ruim, não sei.

A conversa a três continuou, mais alguns minutos, teriam sido, 10, 15, 20? No que ela disse:

- Vamos amiga, as lojas vão fechar. (querendo me tirar daquela situação, afinal esse era o meu objetivo), comprar o óculos, da tal armação Prada (coleção passada), a nova achei sem graça. Não consegui achar mais...odeio essa coisa de coleção, eu quero o óculos que eu goste, que eu veja a armação e diga: é esse, e depois colocar as lentes, e enxergar tudo.

Ele disse, esse óculos (o atual), você tem já há bastante tempo, não?. Sim, 3 anos...gosto muito, só que agora chega, preciso de um mais forte, esse até lascou...é multifocal, e mais blablablá, frivolidades, ele deu algumas risadas.

Tive tempo de perguntar se ele tinha namorada (não me segurei) no que ele respondeu que não, não estava interessado, depois de mim. Coisas de holandês pensei, não apareceu, ele não vai atrás, não teve sorte, sei lá, deu um certo gostinho, talvez ainda goste de mim, pois pelo menos dizia que me amava, e eu sentia esse amor, apesar de todas as brigas, todo o drama, todos os inúmeros rompimentos, a raiva, aquela guerra de 5 anos.

Vamos amiga?

- Sim vamos. Colocamos nossos casacos, descemos as escadas rolantes, falamos sobre yoga, ele estava mais magro, dava pra perceber, mas mesmo assim, eu conheci aquele corpo, mais gordo (ele nunca foi, tinha corpo escultural (que raiva), mais trabalhado às vezes, mais magro noutras, de todos os jeitos, de ponta cabeça, pra mim tanto faz...eu gostava até dos ossos daquele cara, daqueles dentes de Coelhinho (o apelido que dera à ele).

Nos despedimos na frente do prédio. Ele pegou um cigarro (ainda fuma), nos despedimos com um abraço, 3 beijinhos, ele abraçou minha amiga, deu 3 beijinhos (típico na Holanda), disse que tinha uma reunião (?) whatever.

Take care!
Ele foi pra um lado, nós pro lado oposto.

E ai, o que você achou dele, perguntei pra minha amiga? O que você acha que ele achou de mim...cheia de perguntas.

- Ele está magro...você está ótima, nunca te vi tão bem.

Você fala sério?

- Sim claro, adorei esse seu cabelo novo, tá com uma cara ótima, elegante (preto sempre me cai bem, pensei)...emagreceu. (preto me emagrece, sim), e talvez até tenha emagrecido, escondi a balança.
Seguimos em frente, rumo às outras lojas, às outras óticas, duas amigas queridas.

Preciso achar meu óculos, digo pra ela, claro...vamos lá. E seguimos em frente, pegamos a bicicleta dela, e fomos caminhando sob o sol nas ruas do centro de Amsterdã. O dia de outono estava simplesmente fantástico, era uma sexta-feira qualquer, um dia inesquecível qualquer...mas eu me senti mais viva como nunca e depois...de tudo,  ele me mandou uma SMS que eu não conto nem por decreto.



2 comments:

Aldine said...

Vim parar no teu blog nem sei como, li alguns posts quando cheguei nesse. Vou te falar, tenho a metade da sua idade (não me gabo disso, na verdade isso não importa) e me reconheci no seu texto muitas e muitas vezes. Talvez o tempo todo. Tive um pouco dos seus 5 anos em 2 e meio, e um reencontro que me marcou muito também. Interessante como as coisas são...Imagino o teor do SMS, também troquei alguns. A gente aprende tudo, espero aprender a deixar pra lah e seguir em frente, como vc fez (ou não?)...Enfim, adorei o texto. Bj

Bebete Indarte said...

Obrigada pela visita Aldine, eu marquei com ele pra "conversarmos", mas tive que desmarcar porque tive um festival em Amsterdã que queria ir muito (era no mesmo dia), e achei melhor deixar pra lá, e cancelei o encontro. Até agora não o procurei mais, deixei assim, estou com namorado novo (quase 2 anos), e time que está ganhando não se mexe, meu namorado me adora, e me sinto super valorizada por ele, pra que procurar 'sarna pra me coçar'(desculpa expressão)...Boa sorte pra você!