Thursday, October 20, 2011

Meia-noite, um barulho no portão...



Apesar de nem ser novidade comentar sobre o último filme de Woody Allen Midnight in Paris, eu faço questão de registrar e dar a dica por aqui aos saudosistas e sonhadores como eu, pois ele saiu da cinzenta Londres e foi à (chuvosa) Parri à procura de fantasia e encantamento, encontrada depois das 12 badaladas do relógio (sino) da meia-noite, só pra provar que o presente, é o maior presente e não é tão ruim e aborrecido assim, com um empurrãozinho do passado tudo pode se encaixar sem muitas frustrações. E trouxe a magia de volta pra nós ou pelo menos pra mim, que me descubro amante de tudo que é retrô, vintage, antigo. Sou sua fã, desde os meus verdes anos com filme O Dorminhoco, quando fiquei sabendo sobre a viagem do espermatozóide e outras cositas más.

A grande mágica do filme acontece do outro lado da meia-noite, as luzes cintilantes de Paris dos anos 20 onde o personagem Gil via como seus "Anos Dourados" (época do passado preferida da pessoa).

Onde moro não é Paris, mas tem muita coisa antiga e também velha, afinal aqui é Velho Continente, o soar de sinos de Igreja é igual, silêncio ao redor, igualzinho, depois da meia-noite na verdade acontece muito pouco por aqui, é um silêncio que se demora pra acostumar, principalmente porque o Brasil é um país tão barulhento. A prefeitura na minha cidade parece uma grande igreja olhando inicialmente, tem uma torre alta, com relógio, sino e tudo, e no vídeo acima toca essa melodia inigualável, que realmente faz uma diferença, não é só blém blém blém, é uma barulheira com hora marcada, que diga-se de passagem eu aprecio e muito.

Há um ano atrás mudei de casa e claro que gosto de onde moro agora, mas com todos os contras de minha maison anterior (pequena, velha -construída em 1910) a localização era abençoada; de frente pra uma praça silenciosa, na ruazinha ao lado, passava vagamente e vagarosamente um veículo a motor, eu até reconhecia os motores de alguns carros, como por exemplo o da van que pegava e trazia minha filha todos os dias num determinado horário da escola, o caminhão de lixo às terças e sextas, o carro do meu ex marido quando vinha buscar as crianças, um táxi que havia chamado, etc. E participando da santa paz do lugar, era perto de uma igreja católica a Igreja São José (coisa rara nessas bandas) de meia em meia hora tocava uma badalada apenas, e nas horas cheias tantas vezes conforme o horário, somente antes da missa de domingo 11 da manhã, o sino era perturbador...tocava ad infinitum sem prestar contas com o tormento e o sono alheio (o meu por exemplo), e às vezes me acordava, já que no andar
de cima de minha antiga casa, não havia vidros duplos (não temos venezianas na Holanda), salvo...casas muito antigas, e quando falo antiga, digo, século XVI. Uma vez caiu um raio, sim, um raio na torre/cúpula da Igreja, acho que fui eu praguejando o som torturante do sino de domingo, o único que reclamava. Na casa nova tenho vidros duplos nos 3 andares (térreo/primeiro/segundo), que além de proteger do frio (o que até protege pouco), veda o barulho lá fora, e também o barulho dos sinos e sinto claro uma imensa falta, daquela sensação do tempo parar pra se prestar atenção a algo, e saber as horas, sem precisar olhar o relógio.
Sint- Josephkerk atingida por um raio
Essa poderia ter sido eu

Voltando ao filme, sai dali querendo ir pros anos 20 também, e ter um corte exatamente o meu favorito, da icônica Louise Brooks, que já tive várias vezes, mas me deu vontade de ter novamente, vou deixar meu cabelo crescer num futuro próximo. Aliás tudo na moda dos anos 20 e também 30, eu a-do-ro, sou uma irremediável retrô, pois nessa semana mesmo comprei um boneco de madeira feito na antiga União Soviética, um soldado de capacete vermelho. Tentei achar mais informações sobre o boneco, mas não achei nada, deixa assim, afinal não preciso saber tudo, não é mesmo? Só sei que é velho, e não pude deixar passar. Dizem que a gente compra emoções, e foi isso, e ainda comprei um poster do filme Beth Blue, difícil foi trazer na bicicleta o poster já com moldura num dia de muita ventania, e quando olho pra imagem da Beatrice Dale, linda, jovem, também volto aos anos '80', que também curti muito.

 Pensando bem, queria ter na verdade uma máquina do tempo, no quartinho das bicicletas, e poderia ir pra onde quisesse no calendário. Aliás desde criança quero ter uma máquina do tempo, só que quando criança eu não queria ir pro passado, achava-o muito violento e sem graça, pois no seriado americano Túnel do Tempo, eles voltavam mais pro passado do que pro futuro, e no passado sempre tinha uma guerra chata.  Usando essa máquina daria uma passadinha como adolescente nos anos 60 em Londres, bem na Carnaby street, usando saia Mary Quant, num visual totalmente MOD, participaria da gritaria histérica de um show dos Beatles, andaria por uma Londres que não existe mais.

 Outros 'anos dourados' que não deixaria passar, seria estar em Nova Iorque, nos anos 70, bem na época de Studio 54 nem que fosse por meia hora na pista de dança, seria pedir muito? Aliás numa madrugada inteira, já que dá pra sonhar alto.




Prolongue a magia,  Disneyland Paris o slogan de natal. E foi o que fiz, sai do cinema flutuando, admirando (como sempre) os postes antigos de luz da cidade parecidíssimos com os de Paris, rumo a um bar com J., chegamos no bar clima outonal, tira-se sempre os casacos, bebemos cerveja e não champagne, e a maioria dos jovens do bar, eram oriundos dos 4 cantos do mundo, estudantes da Universidade de Leiden, vestidos com suas roupas surradas de estudantes, sem glamour algum...várias pessoas encarando a cerveja choca com seus celulares, quebrando o encanto de qualquer coisa (eu sei), pufff a bolinha de sabão estourou, queria correndo voltar e pra casa. Woody Allen, usou um misto de Cinderela, magia, meia noite, sino, carruagens, oldtimers, pra dizer pela voz de um chato, o "Paul pedant" que Nostalgia é a negação da dor (sofrimento) do presente, e pra fazer de um escritor muito empolgado, mas de talento literário duvidoso, aliás medíocre, um homem comum, mais um americano em Paris, exatamente como criança com algodão doce nas mãos em parques de diversões, à procura de romance, exotismo, amor, sal e pimenta do reino à gosto na sua vida incolor, inodora e insípita.


Teria tantos lugares pra visitar com a minha máquina do tempo, históricos e especiais pra mim, lugares que guardo na memória, pessoas pra conhecer ou rever, mas por enquanto, fico viajando na maionese das aventuras de uma máquina do tempo telepática, o que faço muito bem, graças a minha excelente memória e imaginação, pois o que não quero de jeito nenhum é parar no tempo, e no futuro não tenho necessidade de ir, já que me sinto fazendo parte dele.



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