Monday, June 4, 2007

Queres uma xícara de chá?


Sábado que vem, será o meu aniversário, 9 de junho 2007.


E todo santo ano, além de não esquecer esse óbvio acontecimento, lembro de meus aniversários na distante infância em Porto Alegre no Rio Grande do Sul.


Meus aniversários, eram sempre chatos - digamos, não dignos de uma criança.




Minha mãe, cozinhava divinamente, e fazia "tortas"(bolos) com recheios diferenciados, uma pasta de nozes divina, ovos mole, diversas camadas. Praticamente não tinha negrinho (chamamos brigadeiro de negrinho no RGS), muitos salgadinhos feitos por minha mãe, e jamais refrigerantes e outras crianças...as outras crianças eram meus irmãos, e o que era servido era CHÁ, sim chá quente bem gostoso no bule perfeito, com cubinhos de maçã, e com um impecável conjunto de louças de porcelanas para ocasiões especiais, na época tinha que ser assim, eram os anos 60, ainda com o ranço dos anos 50.

Em junho, na época era quase inverno - e frio, sim antigamente era muito frio no RGS, e realmente o aspecto de festa pela atmosfera intimista era quase nulo, inverno é sempre lúgubre, melancólico...quase deprimente.


Eu acho que me divertia, aliás sei lá...não gostava muito de ser criança, na minha família quase não tinha mulheres, e prima com a minha idade não tinha nenhuma, algumas mais jovens Rosane e Solange, mas que eu me lembre nunca participaram da festa, pois o aniversário era sempre comemorado no dia, e pelas estatísticas....a maioria nos dia de semana, e com certeza as pessoas tinha sua rotina. Enfim, em família eu era muito sózinha, sem ter amigas da minha idade, sempre aquele bando de varões, aquelas mulheres recatadas, e algumas menos...as mais interessantes. Tinha uma tia (separada) divórcio não existia, protegida pelos irmãos, e sem o aval de arrumar outro marido, vá que repita no erro. Era uma prisão, ela vivia pra agradar a família, super talentosa, costurava, fazia salgadinhos, mas não era o suficiente para o padrão de vida oferecido pelos Bordas(parte da família de minha mãe), os Bordas eram as pessoas mais facistas que conheci, criança não tinha vez, mulher não tinha vez, arrogantes ao extremo, até minha finada vovó, que se envergonhava quando eu ia pra piscina pegar sol..."ser morena é horrível, uma mocinha tem de ficar na sombra"...bom, ela nasceu no século XIX, e repudiava meu sangue indígena herdado da avó paterna Camila Indarte, que nem meu pai t eve a honra e o privilégio de conhecer. Coisas de família, meu vô Horácio (vinha de Pelotas, e me adorava...me chamava de Gaivota, e dizia que eu era linda, já a minha irmã era feia), eu fazia-o lembrar de Camila, assim de cabelos longos e lisos...gente grande.




Mas nos meus aniversários onhava com coca cola, grapete, balões, negrinhos, barulheira de crianças...mas isso tudo era só parte de minha fantasia.


E quanto ao chá, apesar de ser gostoso..., era uma bebida estranha, formal, comportada, todos ao redor da mesa.


Passei anos, me perguntando porque minha mãe não servia outra coisa.


Se bem que a coca cola, fanta uva, fanta laranja e outras bebidas começaram a aparecer mais tarde nos lares dos brasileiros, era ainda duvidoso, falavam cada coisa sobre a coca e a pepsi cola.




Adorava ir estudar na casa de uma amiga, que se chamava Sandra Jamardo, era minha melhor amiga, a melhor parte do estudo, é quando íamos na única venda da esquina comprar coca cola e biscoitos recheados, num caderninho que a mãe dela mandava ela levar. Eles tinham conta na venda. E o pai dela era economista, profissão que eu não entendia bulhufas a que se referia, achava que era gente que fazia economia, já que aquela palavra não era estranha, minha mãe falava de vez em quando.




Quando eu falava, que tinha bebido refrigerante na casa da Sandra, meu pai dizia:




- É, mas casa deles é alugada(?), e eu me perguntava se era ruim ter casa alugada, e se gente com casa alugada era pior que gente com casa própria, era o grando trunfo de meu pai, ter casa própria no bairro classe média alta de Petrópolis, filhos estudando em escolas particulares, já que ele não tivera oportunidade para tal, de origem humilde, um trabalhador que se fez, a custa de muito trabalho e de um caráter extremamente terno e correto.




Anos mais tarde, dei mão a palmatória...na nossa casa, apesar de ninguém falar sobre vida alternativa, produtos orgânicos, era tudo muito fresco, feito em casa. Nos estudos na minha casa, minha mãe sempre preparava laranjada (suco de laranja com mais água), suco de uva feito por ela, e muitos quitutes que ela sabia fazer, croquetes, empadinhas de galinha com azeitona, camarão, palmito, risoles, mas quase nada lá em casa era enlatado, ou de procedência duvidosa.


Todos os meus colegas, adoravam ir lá em casa, porque minha mãe também adorava contar estórias mirabolantes da minha infância, de que quando tinha dois anos havia matado Zezé (nosso jacaré), e pra minha vergonha...que quando eu era bebê, me encontrara uma vez com uma barata na boca (o que eu achava a coisa mais repudiante do mundo), e que quando era bem pequena subi numa escada muito alta, e só não chamaram os bombeiros, porque ficaram com medo que eu me assustasse....enfim, coisas de mamãe, que adorava um papo furado com meus colegas.




Meus pais com 8 filhos, e mais os dois...significavam que praticamente era um aniversário por mês, ou seja, que ninguém roubasse latas de leite condensado da dispensa, e fico pensando a dedicação todo o santo mês pra uma FESTA, ou momento especial....




Nos anos 70 tudo mudou, o refrigerante começou a aparecer, o vinho, a cerveja, até whisky com meu pai tomava de vez em quando.


A festa mais inusitada que tive, foi aos 18 anos, cheguei em casa como se nada tivesse acontecido, e lá estavam praticamente todos os meus amigos/colegas do segundo grau e da vizinhança. Era uma festa surpresa, organizada pela minha mãe...acho que deviam ser ao redor de 40 pessoas, só da minha família uns 10...ou mais, nem me lembro, mas ainda tenho a lembrança, de querer registrar tudo aquilo, tinha um irmão fotógrafo, e minha mãe havia combinado com ele....mas ele chegou tarde, quando a maioria tinha ido embora, e restavam apenas as amigas da zona(vizinhança) Arlete Bernardes, Rosângela e Tina Marques Moura, Patrícia de Mello e Silva....tarde demais, tratante do meu irmão Paulo, um dos meus irmãos mais velhos, enfim tenho algumas fotos até hoje, e uma amiga que está nas fotos a Tina, se foi alguns anos atrás de câncer na mama.


Vida breve né?


Depois veio muitas festas, festa em São Paulo, festas pros outros...aliás festas viraram meu trabalho, e ai...tudo mudou, nunca mais chá, nunca mais festa surpresa, nunca mais salgadinhos e bolos feito em casa..muita coca cola e bebidas alcóolicas, mas nunca mais os meus aniversários foram o mesmo.


E neste ano, não haverá festa nenhuma, como no ano passado fui pela primeira vez em Barcelona, este ano irei pra Hasselt, na Bélgica, na casa de Denise Bertels, minha amiga gaúcha belga, estudamos juntos na PUC/RS, aliás eu não suportei aquela faculdade, e ela era a única que fiz amizade, mais tarde ela foi morar em São Paulo, e depois foi pra Bélgica, eu que vendi a passagem aérea dela, na agência Wij Komen, meu primeiro emprego em São Paulo, ironicamente uma agência holandesa.


Adoro a Denise, seus pais moram em Porto Alegre, são belgas, mas acredito que gaúchos, depois de tantos anos no Brasil.
Ela é inclusive um capítulo a parte na minha vida. E na casa dela com certeza não vou beber chá, tanto ela como o Stefan(maridão há vinte anos) adoram cerveja, e de quebra vou levar uma Champagne, nunca se sabe, mais engraçado que quando liguei pra ela, pra perguntar se podia ir comemorar meu aniversário lá, ela já atendeu o telefone: quando você vem?
Isso é que é presente de aniversário, de quebra agradeço meu querido amigo Antonio também - ele sabe do que estou falando, pelo convite...mas Bruxelas fica pra próxima.


E de qualquer forma, é sempre bom celebrar o aniversário, celebrar a vida com amigos, poucos, tanto faz, o importante é estar vivo, e cá pra nós, hoje em dia eu adoro uma xícara de chá e poucos elementos ao redor.


Parabéns pra mim!
Nessa data querida
muitas felicidades
muitos anos de vida


Cheers!

7 comments:

annix said...

Eu faço negrinho pra ti! Vem aqui quando tu voltar da Bélgica! hahaha

Beth Blue said...

Hiep Hiep Hoera!!! parabéns pra você mesmo! o seu presente está guardadinho aqui em casa, vamos marcar um encontro em breve. ah, e curta muito sua visita à Hasselt. o que seria da vida sem a presença dos amigos???

Anonymous said...

Poxa que pena o ano passado nao ter tido a oportunidade de encontrar-te aqui em Barcelona, que te juro que pensava em preparar-te um bolinho e sair pra farra, e justamente calhou de estar aqui meu filho e ele querer ir para Mallorca, haveria estado encantada, mas bem Bebete quem sabe possas passar outro aniversario aqui em Barna, e entao prepare-se que te voy a emborrachar de coca-cola, negrinhos e tudo de melhor para celebrar um com tudo que voce merece!!!que seje muito bem comemorado e que passes divinamente esse dia especial aonde voce esteje!beijos e muitas felicidades, nam miojo rengue kio!!!
Vilma Marques

Beth P. said...

ei querida,

não fui acostumada a tomar refrigerante, detesto. parabéns por você existir, hoje e sempre. Aproveita muito na Bélgica, pra mim que sou da roça acho tudo chique demais.

beijãozão aqui das minas gerais.

beth

Antonio Fontelles said...

Parabéns pra você, e parabéns para nós todos que temos a honra de ser seus amigos...
E não esquenta com Bruxelas, fica pra quando der...
beijo, A.

Bebete Indarte said...

Obrigada pelos "brigadeiros/negrinhos"...hoje em dia faço sempre pros meus filhos (2 aniversários por ano), mas não se comparam com as "tortas" da minha mãe. hehehe

Miguel Andrade said...

Gente, o chá! Pobre Bebetinha! E esse lance de mãe fazer bolos... Aniversários para mim também me lembram acordar e a véia já fazendo barulho na cozinha com batedeira, formas, etc... e cheiro de bolo sendo assado. Todo aniversário dos meus bichos eu tento fazer algo, tipo reproduzindo o ritual, mas eu nunca lembro a data certa e dá medo de parecer estúpido!
Opa! Parabéns de novo...