Monday, June 16, 2008

As vidas de Bebete


Revista brasileira: Carta Capital

Arnild van de Velde


O vestido, um modelo evasê branco, com silk floral preto, é atemporal e composto de um casaquinho também preto, do tipo que sugere aquela elegância à Jackie Kennedy-Onassis. Os sapatos, pumps negros de verniz, revelam o traquejo de quem aprendeu a permanecer no salto. Emoldurado por um corte chanel, o rosto, de inquietos olhos escuros, destaca-se pelo clássico batom vermelho. Braceletes largos complementam o visual Sex & The City, embora a personagem em questão esteja, como ela mesma costuma brincar, mais para Desperate Housewives. Em sua versão pós-moderna, Bebete Indarte, de 48 anos, adotou o discreto charme da Mona Lisa. Como a autora norte-americana Harriet Rubin, tomando emprestada a sugestiva figura de Leonardo Da Vinci, batizou as quarentonas verdadeiramente poderosas, mulheres nem um pouco interessadas em bancar as vítimas da moda, ou melhor, do tempo. Doze anos depois de ter deixado a noite paulistana, a célebre fashionista clubber de São Paulo abandonou o estilo extravagante com que fez história, mudou de guarda-roupa e de ambiente, mas manteve o gosto por se reinventar e a seu espírito.
No cenário atual, ela é a mãe da Dominique, de 10 anos, e do Dimitri, de 8, ambos nascidos em Leiden, Holanda, para onde Bebete, depois de um casamento que já terminou, se mudou em 1996. Com eles, divide uma casa com parquinho na frente, em cuja janela há uma placa informando: “O amor mora neste lugar”. Ao fundo, um jardim, onde a existência holandesa é selada por um par de bicicletas. Pela filha, faz sua parte para uma melhor compreensão do autismo; por si mesma, passou a estudar hata ioga, não sem antes ter experimentado o budismo. No que costuma chamar de sua “terceira encarnação nesta vida” (para a idéia, ela encontrou inspiração em depoimentos de Sharon Stone), Bebete Indarte, contudo, personifica apenas em parte o destino que um entrevistado de jornal anteviu para ela, quando perguntado sobre o que seria dela nos Países Baixos. “Vai ser dona de casa, porque Bebete já fez de tudo.”
“Tudo” – como dissera a pessoa – começou em 1985, quando a turismóloga Maria Bernadete Borda Indarte chegou a São Paulo, onde estava um de seus sete irmãos. Na metrópole, a garota de Porto Alegre recebeu a iniciação no mundo cosmopolita, no qual, não muito mais tarde, viria a estar em seu elemento. O primeiro emprego, numa agência de viagens holandesa, durou o suficiente para que ela entendesse que aquela não era a sua praia. No segundo, aproveitando a paixão pela música, foi vender CDs na Malaysia Discos, uma loja pioneira que funcionou no primeiro andar do Singapore Slings, um bar descolado daquele fim de década. Três meses depois, a empresa iria à falência e a “Gaúcha”, como ainda era conhecida, se viu desempregada.
Aqueles eram tempos em que a gente cool do Madame Satã migrava para outros espaços, um deles o Nation Disco Club (fechado em 1991), na rua Augusta. A casa estava à procura de uma hostess moderna. Como andava por lá, Bebete resolveu se candidatar. “Acharam meu perfil legal”, lembra. Acertado ali perto, na padaria da esquina do Bar Ritz, o emprego a deixou a princípio morrendo de medo de olheiras e de não poder mais dançar na pista como antes. Três anos depois, ela havia se encontrado profissionalmente. “Eu fazia a coisa do meu jeito. Era simpática, mas firme.” A “coisa” era selecionar o público, o que ela procurava fazer com muita diplomacia. Do Nation saiu também a banda Que Fim Levou Robin?, que tinha Bebete entre seus integrantes. Quando o clube pereceu, ela despertou para a sua segunda vida. A nova identidade incorporou o sobrenome basco, Indarte. No auge desta encarnação, Bebete foi a exuberante primeira-dama do Massivo, o club que abrigou as melhores festas de São Paulo, como querem os saudosistas. Ali ela não era a aia da porta, mas a própria rainha. Nas quintas-feiras, o buzuzu era fenomenal: por lá circulava quem tinha (e ainda tem) nome, gente que se divertia até mesmo com a fila da entrada, onde se davam as encenações de Bebete, que, bem antes de Paris Hilton e Gisele Bündchen, já sabia o valor de uma inseparável cadelinha. A dela chamava-se Paloma, em homenagem à homônima filha de Picasso.
Diva, luxo, musa, icônica. Quanto mais over o adjetivo, mais ousava Bebete. Eram tantas palavras, que ela até pensou em montar um dicionário da cena. Um dos códigos daquele mundo excitante e bizarro era “milho”, grão que a “louca” (outro codinome que lhe foi dado) de vez em quando jogava no público, com intenção de comunicar algum evento momentâneo. Seu forte eram as montações. Para proceder às várias interpretações de si mesma, lançou mão das perucas, boás, plataformas altíssimas, fantasias e trajes mais cotidianos – o de freira, por exemplo. Não bastasse, ela ainda tinha um dublê, a drag Bebete Cover.
“O Massivo era muito democrático”, diz, tentando explicar a aura do lugar. Um grande carnaval em que as pessoas se entregavam à felicidade, numa espécie de transgressão criativa. Os habitués vinham de várias tribos, mas não se estranhavam. Naquele clima de alegria, Bebete comemorou o primeiro ano da casa, vestida de bolo cor-de-rosa.
Antes do fim, ela ainda foi dona de loja (Amostra Grátis, no Espaço AZ 70, onde um então desconhecido Alexandre Herchcovitch dispunha em consignação). Ao completar 33 anos, comandou sua última grande festa. O Fusca 1969 que ela dirigia, revestido de gérberas pelo decorador Vic Meirelles, simbolizou o evento. Quatro meses depois, Bebete Indarte ressuscitaria. Dessa vez com o Latino, um projeto mais tropical, para o qual uma temporada londrina serviu de motivação. A experiência inglesa incluiu a ingestão do primeiro ecstasy. Uma viagem menos exótica do que havia imaginado, mas que a “dissolveu” dentro da música. Daquela vida, Bebete só guarda o cigarro, que aprendeu a fumar aos 26 anos. No Latino, uma virada do tipo que São Paulo festejou recentemente como grande novidade levou um dos presentes a dançar 72 horas ininterruptas, fato que a impressiona até hoje.
Em Leiden, ela está sentada à direita de sua cozinha, falando em velocidade meteórica de uma época que deixa saudade, mas da qual se desprendeu sem pesar. Dominique e amigas tocam a campainha a cada dois minutos. Dimitri tem de ser apanhado na casa do coleguinha, o jantar precisa ser preparado. Bebete ouve música e gargalha. Para quem não sabe, o altar da deusa é uma comunidade do Orkut.

8 comments:

SUPERBEAT said...

ameiiii o texto....uma bela homenagem a pessoa q vc é....bons tempos....nunca houve desde então, uma personalidade como a sua na noite de SP....saudades....=)

Eu penso que... said...

Uhuahsuhsuahauhauu!!!
Querida BBT, acabo de descobrir que vc é uma mulher de mil faces e mil fases.
Muito legal este perfil.
Adorei saber mais sobre vc.
:-)
Bjssssssss

Andréa N. said...

Muito legal essa materia da Carta Capital. Eu sempre leio o teu blog, mas nunca comento. Vim aqui pelo blog da Dea, aih em cima, mas ja te conhecia de vista (e de ler sobre vc nos jornais quando morava no Brasil) desde a epoca da Nation e do Massivo. Eu morava em Santos, mas ia as baladas em Sampa sempre e nunca vou me esquecer das quintas-feiras no Massivo. Dancava muito, ate o dia clarear, e fui muito feliz. Levava meu ex-marido que tentava fazer cara de quem nao estava assustadissimo com as figuras maravilhosas que frequentavam o lugar, hehe. Bons tempos. Hoje moro em Nova York com meu segundo marido (meu amor) e as baladas sao MUITO mais escassas. :)

Tudo de bom pra vc, Bebete!

Bebete Indarte said...

Obrigada lindos...
E bom saber que a gente às vezes se cruza no mesmo espaço físico, cósmico, telepático, virtual, e que mudamos de fase, de faces, mas o coração sempre ansiando por mais.

Valeu os postings!

Beth Blue said...

E viva a Bebete!!! ;-)

blog said...

cara...eu dancei com essa mulher varias vezes em cima da caixas de som do Latino,eu trabalha num bar perto desses e as drag sempre convidava os funcionários...eu fui,gostei e ali dancei ao lado delas muitas vezes,logo depois o fervo foi no hells localizado na R.estados unicos esquina com algusta,quem lembra?...o lugar abria as 4:30 do domingo e a galera dançava frenética até o meio dia do domingo oOe ali via bebete também..A ultima vez te vi ela foi em 1 das primeiras festas raves que teve na escola circo picadeiro loukura lourura
Pow essa mulher eh muito louka e eu sou 1 sortudo de ter dançado em tantas madrugadas alucinantes...obrigado B.I

blog said...

cara...eu dancei com essa mulher varias vezes em cima da caixas de som do Latino,eu trabalha num bar perto desses e as drag sempre convidava os funcionários...eu fui,gostei e ali dancei ao lado delas muitas vezes,logo depois o fervo foi no hells localizado na R.estados unicos esquina com algusta,quem lembra?...o lugar abria as 4:30 do domingo e a galera dançava frenética até o meio dia do domingo oOe ali via bebete também..A ultima vez te vi ela foi em 1 das primeiras festas raves que teve na escola circo picadeiro loukura lourura
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