Tuesday, May 29, 2007

Inland Empire de Lynch


Por que a gente escreve?

Como dizia Anais Nin, a gente escreve pra construir o "nosso Mundo", não o mundo que nos é imposto, o mundo real, o mundo diário, o mundo - pra mim - chato.

Dizem que sou uma sonhadora, e assim é bom, construo o meu mundinho nessas pequenas e mal traçadas linhas e esse mundo é só meu, apesar de dividir com as (poucas) pessoas que lêem isso.


Escrevendo a gente pode ir pra cima e pra baixo, ser pobre e ter jeito de rico, ser inteligente e preguiçoso ao mesmo tempo, fazer de conta, brincar com as pessoas, sonhar, divagar, ir além do nosso consciente, da ética, dos valores morais, o relógio é mero enfeite.


Escrevendo a gente questiona tudo e todos, não propriamente critica, mas almeja nem que seja em palavras um mundo que gostaríamos que existisse, o mundo nosso do jeito e com a cara que a gente quer.
Ai, porque inventaram o trabalho obrigatório, e eu que nem tenho trabalho tenho várias obrigações como se fosse trabalho, mas outra hora escreverei sobre isso.
Eu seria a eterna estudante, nada pra fazer só o compromisso de estudar o que quisesse, filosofia, cinema, antropologia, sociologia...
Porque os sistemas políticos nunca funcionam direito, como tem incompetente liderando, no poder, garanto que todos tem pinto pequeno, fora o Bill Clinton. Sei lá não li o livro da Monica Levinsky e nem sei se ela menciona isso lá.


Por que há tão poucas mulheres no poder, será porque seria que muitas mulheres não querem entrar em barca furada? Incompetência eu não acredito.
Será que é porque somos nós que damos a luz, e esse mundo ainda é dos homens?
Enfim, esse mundo chato....deles, nosso, mas não aqui...e digo chato, porque não fui eu que criei.




Sábado fui ao cinema, e adoro ir ao cinema, detalhe...viajei pra ir ao cinema, fui em Amsterdã, já que tinha companhia pra ir e voltar, e que também estava imensamente a fins de ver o filme (novo) de David Lynch, Inland Empire.
O que significa esse título, ele foi senão me engano mencionado uma vez no filme, é uma região na Califórnia, com vários vales.
O filme tem duas horas e setenta minutos de duração, ou seja é bem longo.
E eu até pensei que ia ter pausa, não teve, porque a sessão começou às 21:15...a última.


Primeiro fomos jantar num restaurante italiano (turco), aliás eles até não são tão cara de pau, o próprio restaurante é denominado assim, normalmente existem uns restaurantes "caça níquel"(falando que a cozinha é tal mas não é). O restaurante fica perto do cinema Kriterion em Amsterdã, aqueles cinemas bem legais, cineclubs cheio de "gente alternativa", estudantes (aqui se fala estudante quando é estudante universitário, gente que faz pós, doutorados, mestrados...tudo estudante...cheio de flyers e a camiseta da fofa que pegou os tickets tinha os dizeres "fast food". Acho que ela era a fast food pros garotos.
Pelo menos a comida estava boa no restaurante, mas eu ultimamente estou achando tudo muito parecido, aliás tô pra lá de chata, eu não estou achando nada em COMIDA, enchi o saco de comida de restaurante, eu gosto de comer em casa, e feito pelos outros, pois há 10 anos que cozinho e minha criatividade foi pro beleléu. Só vou em restaurante meia boca, que o cardápio se parece, e comer bem mesmo, só comida de fora, ou em outro país.

Acho que estou voltando a infância, quando comia obrigada só pra não cair tonta.


Minha mãe sempre dizia:
- Saco vazio não pára em pé...

Mas o filme foi bom, apesar de eu achar muito longo, e estava morrendo de sede no meio do filme, "comida salgada"*argh). Eu já sabia muita coisa do filme, porque já tinha visto o trailer, e tinha visto uma entrevista com o diretor na net, e sabia dos coelhos (que pelo amor de Deus - foi uma coisa que me deixou mais louca do que sou, COELHO povoa meu subconsciente há anos. aliás meu id ego e super ego, né?), aquela situação família Coelho, a mãe coelha passando roupa, e as risadas de comédia no fundo, e a cor da sala da família..., ele fez muito bem, poucos elementos, e eu até agora pensando sobre o significado daqueles coelhos e a conexão entre os outros personagens, pára pára...senão fico mais louca ainda, é tudo coisa do subconsciente do próprio Lynch, assim como isso aqui, ele faz filmes.


E também do vômito de sangue na calçada da fama...junto com os homeless, e aqueles momentos nonsense com as prostitutas dançando, e batendo palminhas. E o catchup na camiseta do marido da LD no BBQ. Dizem que o David Lynch é um gênio com Alzheimer, e que foi longe demais...eu acho que iria ficar decepcionada se ele não tivesse ido "longe demais".

Tenho simpatia pela Laura Dern desde o tempo de Blue Velvet (alguém lembra aquele choro horroroso dela), a boca dela fica completamente torta pra baixo, com cara de palhaço, nunca vi um choro tão feio em toda a minha vida de cinema como o choro da Laura Dern em Blue Velvet.


O filme é uma doidera só, eu achei que tinha muito momento de suspense e que perde um pouco o suspense quando tem muitos momentos de suspense, mas quem sou eu pra falar isso diante do Monstro Lynch. E principalmente que filme retratando a psiqué de uma pessoa, ou seja, uma atriz de Holywood, é pedir pra ficar boiando boa parte do tempo, se você não colocar no seu consciente que tudo pode acontecer, e diferente do jeito que você supostamente gostaria, aliás o truque do filme é esse, sair de lá pensando.

A meu ver, não é um filme que você sai do cinema e diz, entendi(pra quem não conhece DL), e cria conexões...no momento que você está lá, tem que usar a cabeça e os olhos o tempo todo, pra não ficar muito por fora, e pra poder aproveitar todas as cenas, quando era real(estória), quando era filme(filmando), quando era pensamento, quando era passado, presente, na América, na Polônia, e curtir cada ..longo momento.

Claro que o filme é genial, porque ele desafia tudo e todos, e principalmente a montanha de bosta que é Holywood. O filme foi produzido com dinheiro de órgãos de cinema da França.
Na América eles não investem nisso... Sei lá, não sou eu que faço cinema, eu gosto é de ver filmes, não importa a procedência, não sendo dinheiro sujo de trabalho infantil, máfia barra pesada.

E demais a mais, David Lynch também faz parte de um grupo de meditação transcendental, o caro gosta de mostrar pro público, que existe "mais coisas entre o céu e a terra...", sabe cumé né? Ele coloca isso em sua arte. Elefala de hipnose...uma coisa que nunca confiei muito, imagina eu dizer coisa que não quero, só porque um louco (médico) me hipnotizou....eu hein Rosa, eu falo por livre e espontânea vontade o que escolhi pra falar, que perigo.


Sou control freak e não nego.

Mas seria sem problemas hipnotizada por uma tribo indígena qualquer, contanto que eles não entendessem a língua que eu falo.
Pra assistir esse filme, tem que ser uma pessoa que gosta do estilo do cara, ou curioso pra conhecer, pessoa mente aberta. Apesar de que parecia só ter gente "mente aberta" no cinema.
Ledo engano, em um determinado momento uma menina do meu lado...começou a rir, e conversar sussurrando daqueles sussurros -qué qué qué qué - que atrapa. Peguei o braço dela e falei pra ela falar BAIXO (pra não ser grossa e mandar HOU JE MOND JO - cala a boca meu!


Minutos mais tarde ela e os dois amigos sairam da sala, minutos mais tarde também metade de uma fila saiu pé sob pé....acho que eles preferiram tomar uns copos, no bar do Kriterion, deviam estar com sede de cerveja.
Enfim, acho bom comprar o DVD e ver novamente, assim posso ir na cozinha tomar água, pegar uma cerveja, ir ao WC....e tentar entender o que a máfia polonesa tinha a ver, será que foram eles que mataram os protagonistas do primeiro filme?
Porque eu matei minha curiosidade, depois de tanto tempo, desde Mulholland Drive.


Me sinto aliviada, parece que sou exagerada, mas como tenho ido pouquíssimo ao cinema, pelo menos assisto só as pérolas que quero, já que em Leiden dessa vez eu acho que o Mr Lynch não ia passar tão cedo, é pra público mundinho dele, gente como a gente, gente como eu.


4 comments:

Beth Blue said...

uauaua, David Lynch, Lars von Trier... Bebete pegando pesado no cinema! eu já peguei muito pesado, mas atualmente ando sem saco pra DL...e até hoje não tive coragem de assistir Dancer in the Dark do Lars! e também não assisti Manderlay, a continuação de Dogville, que aliás adoro mas acho pesado pra caramba ( como não podia deixar de ser).

verdade seja dita, na minha lista atualmente tem mesmo é Bridge to Terabithia e Labirinto do Fauno, hehehe. Também estou louca pra assistir The Fountain (do diretor de Requiem for a Dream).

Antonio Fontelles said...

Nossa, adorei o teu texto, principalmente a primeira parte, e fiquei com vontade de ver o filme do Lynch, depois te conto se realmente vi e o que achei.
Beijo, A.

Beth Blue said...

assisti finalmente o Labirinto do Fauno (já que o assunto é cinema). muito bom, mas bem mais sombrio do que eu imaginava - na verdade, foi ingenuidade minha afinal um filme sobre o regime fascista na Espanha não poderia mesmo ser light. a fantasia do filme está mais pra filme de terror do que pra Disney...anyway, depois comento no meu blog.

Susana Jas said...

Bom dia Bebete !

Obrigada por deixar seu valioso comentario la' no meu texto no site Brasileiros na Holanda.
O paragrafo com o qual voce inicia este post deveria ser escrito em negrito, para que todos pudessem se dar por conta que, entender o que os outros escrevem e' muito mais uma arte do que o proprio escrever em si.

Um abraco,

Susana