Tuesday, April 3, 2007

Aulas de escuta


Nos últimos dias, percebi que a verdade nua e crua não existe.
Ser a si próprio, é uma utopia. Podemos ser nós mesmos, no nosso íntimo, cortinas fechadas, portas fechadas, na intimidade do nosso lar, dos nossos quartos, dos nossos pensamentos.
Mas a verdade, pras pessoas dói, e se explicar, além de complicar, vira competição que nem com crianças, que querem sempre ter a razão.
E porisso que o ser humano mente, pra agradar o próximo.


As pessoas falam, mas não se comunicam, e não ouvem, é um mundinho de mentira confortável, colocam as sujeiras pra baixo do tapete e empurram as máscaras com a barriga, e qual o nosso papel nisso, deixar, porque todo ser humano manipula, manipula porque quer confete, manipula porque os dias são difíceis, manipula porque não encontram métodos pra felicidade, aquela felicidade de existir, manipula porque precisam se provar a todo instante pra si mesmo, que são legais, como criança também que precisa de elogios, 'sim tá fazendo tudo bonitinho', manipulam pra sobreviver.

Sites na internet, blog, orkuts, msn...são inofensivos, o que não é a palavra proferida, a verdade, eu mesmo já briguei com uma amiga via internet, inventei de dizer que ela era "hipócrita", pecado mortal, não, eu fui burra, devia ter dito que ela era um anjo de criatura...ou ter ficado calada e mordido a língua, mas sou assim, ou era...falava o que via frente, aliás na cabeça, e numa briga não me chamem, por favor, senão eu vou brigar mesmo.

Há cinco anos atrás, eu fiz um teste muito importante de holandês, que me fez pensar...eu não passei no teste de escuta da língua, o que de certo modo me deixou bem chateada, mas como sofria e ainda sofro de ansiedade, coloquei a culpa na ansiedade, tinha uma geladeira gigante por perto o qual o motor fazia um barulho horrível (era num hotel), e nas 100 questões o barulho do pip dos fones estava muito alto, me atrapalhava, é que na verdade eu não era lá muito boa ouvinte, até pensei que era surda.

Não, a responsabilidade era minha, sempre absorta na minha vida e no meu umbigo de tagarela, anos mais tarde, resolvi procurar a causa, e achei ...no budismo, onde sempre as reuniões eram ou na língua holandesa e ou na língua inglesa, as reuniões de palestras nas casas dos budistas.
Espressar seus sentimentos em português, já é complicado com estranhos, e numa língua estrangeira mais ainda, porque principalmente nas reuniões com estrangeiros, foi que aprendi....que existe a hora de falar, e a hora de ouvir, e assim era em círculos, cada um com sua hora, sendo que muitos nem se atreviam a abrir a boca, os mais humildes e tímidos.
E mais tarde ainda, quando percebi que os bipolares, falam MAIS QUE O NORMAL, quando há um episódio de mania/hipomania...e até normalmente, coloquei tudo numa panela, isso é uma verdade em minha vida, que quero superar, uma pedra no caminho.

E na comunicação com o outro, também temos que ter interesse de como o OUTRO recebe.

Ele entende o que queremos realmente dizer?

Ele só quer falar, não deixando espaço pra você?


Você está cedendo espaço pro outro, terminar uma idéia?

É assim uma vez, ou sempre?

É algo relevante que deva ser dito, ou é falar pra desabafar?

Qual a qualidade da conversa? Você está falando de você ou dos outros?
Quanto tempo você está falando do mesmo assunto?
Resolveu alguma coisa?



E assim, comparo com minha relação passada, onde o meu parceiro, parecia uma mulher e falava constantemente(sim porque as mulheres falam mais que os homens), onde cabeças rolavam pelo chão, cada um querendo falar mais que o outro, e por isso que nossa relação se dava tão bem quando praticamente não precisávamos de palavras, na horizontal. E nas raras vezes que sentávamos ao sol, sem dizer nada, curtindo o momento, como se fosse uma meditação, ou quando eu estava tranqüila sem necessidade nenhuma de abrir a boca - é, porque também teve esses dias, dias de paz.

Há sempre os dois lados da questão, nunca um só. Há sempre uma pessoa carente de afeto, ou duas, mas que não conseguem se comunicar, porque não possuem ou não estão conscientes que um dos fatores mais importantes da comunicação, é a escuta.

E qualquer relação assim, é fadada ao sucesso, quando duas partes relaxam, e dão vazão a leveza do ser, sem encucações, sem pulgas atrás da orelha desnecessárias.
Estou aprendendo a escutar, e mais engraçado ainda...lembrar de palavras de pessoas mais sábias que eu, aquelas que quero ser quando crescer, as que escutam, as que fazem yoga, as que meditam, as que não precisam se explicar...as ponderadas.

Um dia eu ainda chego lá.

2 comments:

Beth Pinheiro said...

é...eu também estou aprendendo a escutar. e estou aprendendo a respeitar o espaço dos outros. não tem outro jeito! o importante é a gente estar ciente dos problemas pra então poder tomar as medidas e mudar.

no mais, é bem como você mesma disse: Há sempre os dois lados da questão, nunca um só. Há sempre uma pessoa carente de afeto, ou duas, mas que não conseguem se comunicar, porque não possuem ou não estão conscientes que um dos fatores mais importantes da comunicação, é a escuta.

Paulo: Osrevni said...

Viver fora é ainda mais difícil para as pessoas que falam muito... não conseguir se expressar na língua dos outros nos obriga a ser mais passivos. No fundo, é saudável, um aprendizado...