Saturday, April 21, 2007

LOST in Holland


Privacy pra reflexão, é o melhor caminho e a melhor escolha em busca do nosso autêntico EU.

Oscar Wilde dizia que "ficar sózinho é uma atividade intelectual", claro ele era um intelectual, mas pra mim agora é uma atitude fundamental.
Infelizmente a ilha deserta está longe, não sou um personagem de L O S T, mas não preciso...porque estou sózinha e também perdida que nem os personagens, mesmo com outros ao redor, mas certamente estou a procura de algo que me faça" feliz", e talvez eu não goste muito da resposta final, mas poderá ser novamente uma mudança de país, casar está fora de planos, bicicletas tenho pra dar e vender, plantar árvores, planto plantas, um livro(?), um trabalho enriquecedor(boa). No Brasil eu era (apesar de tudo) mais "feliz", ou pelo menos não encucava tanto, porque sempre com um projeto novo que sempre realizei, por anos a fio, a custa de muita luta, mas dançando em média 3 x por semana(endorfinas?), esforço pra ir atrás de clientes (muitos vinham por si) energia(sempre tive pra dar e vender), se você paga seu aluguel se considera bem feliz, mais um punhado de amigos aqui, problemas diários resolvidos, pode se considerar satisfeito...mas as pessoas sabem como fazer uma festa, e temporiamente esquecer de suas eternas misérias, vivem o dia de hoje, ou seria minha vida que era assim e mudou.
E aqui na Holanda é essa energia parada, essa dinâmica de lutar contra a maré, contra a corrente, ou seja, não é meu elemento...aqui me sinto robótica, tudo já está tão pronto, sou mais uma que deve baixar a cabeça(estrangeira), e aceitar...e agradecer, nos primeiros anos tinha porque de lutar, aprender, fazer...agora já falo a língua, meus filhos já nasceram e crescem bem, já sobrevivi as dores de um divórcio, já conheci várias pessoas, fiz amigos, mas agora sinto falta de meu entusiasmo pela vida, me sinto perdida, não são meus filhos, não são meus exes, não é minha casa, cidade...e talvez esse país...sou eu, perdida, doente, carente de projetos, é pra agradecer?
Recentemente tive visita brasileira, a pessoa em questão achou a Holanda "muito parada", e estava admirada que EU (pelo meu passado), conseguia sobreviver...mas acho que é isso que faço "sobrevivo", sem empolgação.
Eu quero tirar da vida, minha VIDA, tudo, pelo menos muito mais que esse poço de lamentações que virou esse blog e não somente sobreviver com um tapinha nas costas, que "eu faço bem"..., faça-me o favor, eu quero ACONTECER, mas parece que tudo já aconteceu por aqui. Todo ano aquela lamúria do final da segunda guerra mundial, dos veteranos, das vítimas, guerras e guerras, e a culpa na caras das pessoas.


Temporariamente cansei dos outros também, das cobranças, quero tempo pra mim, os "fãs" obstinados querendo saber quem será meu próximo futuro amante, quantos remédios eu tomo, qual a próxima briga em público que terei, skype, sem MSN's, não atendo telefone, responder loads of mails, correntes(why?) sim, por que preciso te responder de volta? se você é meu amigo não precisa de confirmações, se vc precisa será jogado aos leões por mim, e eu não perdôo, eu esqueço, salvo algumas exceções eu respondo, ouço minhas músicas e grupos favoritos na altura desejada, me sinto salva, penso em cortar o cabelo de uma forma que agrade mais a mim do que aos outros, a moda, o sistema...seria também crise de meia-idade?
Odeio formas, e todos vestidos iguais...saindo do forno.

Sempre quando penso em mudar, penso em o cortar cabelo....ele sempre cresce, e eu POR SORTE, não vim do Rio de Janeiro, o lugar no Brasil em que a maioria das mulheres são escravas do cabelo no estilo Pocahontas, elas acham que se cortarem os cabelos perderão suas forças e poderes sexuais, o que é verdade, porque certos homens gostam apenas de mulheres de cabelos compridos, isso se chama Fetiche de Sansão...ou de propaganda de shampoo????hihihihi.
Eu nunca fiz dread-locks e sempre tive loucuras pra fazer, parece cabelo piolhento, mas adoro, mas tenho certeza se eu aparecer de dreads amanhã, pedras serão jogadas na Geni.

Crise ou não, faço de meus valores de juventude, valores eternos, jamais me vender, jamais dizer não, quando queria dizer sim e vice e versa...se o fizer, estarei certa que a agressão voltará contra mim, quanto mais ficar distante de mim mesma, mais terei o efeito bumerangue desse ato, porisso que não me arrependo dos atos do passado, e procuro nunca dizer NUNCA, e ensino isso a meus filhos, que ainda me ouvem... meu coração de estudante está sempre presente pelo menos, e aprender com tudo e todos é o meu lema, li a idiotice que "é fazendo merda que se aduba a vida", pois...
Estórias como Eduardo Juliani Bello(te amo pra sempre querido), contava sobre as minhas escapadas (tínhamos uma relação aberta). "Berna, porque você fica com o cara dizendo que está apaixonada, se o você quer é trepar com o cara"? Ele me conhecia, melhor que a mim mesma, assim como minha mãe, sabia que eu ao acordar, ainda estava dormindo"...Eles me conheciam...as pessoas que realmente nos amam, também estão abertas pra conhecer o nosso eu autêntico, percebo agora, eles vêem mais que uma "pessoa normal", elas tem raio x da nossa alma, e eu mal consigo me olhar no espelho.

Quanto tinha 7 anos na escola, lembro de que todos riram de mim, e os que não entenderam riram juntos, quando por ocasião de uma pergunta sobre vegetais comestíveis, eu levantei o dedo e disse "alfafa"....rsrsrs(risos gerais)...acho que era pra ficar inibida e envergonhada, mas lembro que aprendi, que alfafa era pra cavalo e não para humanos...e ademais eles já tinham dito quase todos legumes e verduras que eu conhecia. Coisa de criança, e criança é assim - pura, era pra ser ridicularizada?

Todo mundo está querendo ouvir coisas belas, porisso que não adianta falar coisas que as pessoas não querem ouvir, porisso que estou pensando em mim e quero me curar, estou cansada de auto-flagelação, meu vício no mundo virtual e mundo real, cigarros, coca colas, biscoitos, Mac Donalds, comidas o tempo todo que eu nem gosto, eu nunca dei tanta importância pra comida(sempre saborosa no Brasil), sempre pensei nas gramas suficientes pra me manter viva, e no paladar com paixão..amo carne por exemplo, e o que estou fazendo aqui se a carne na Holanda, é a mesma que dava pro meu cachorro no Brasil.
Há 10 anos estou no primeiro mundo comendo carne pra cachorro mas bebendo vinho "francês"...ai como sou feliz. Ou será que é pra comer "alfafa", sim porque a alfafa é pra consumo humano aqui, que ironia do destino né?

E divago sobre esse país rico aqui, onde todos possuem tudo, e largam o lixo em outros países, porque "aqui tem que ficar dentro dos conformes", bonitinho, arrumadinho, clean em ordem...e a lixeira vai pra África, Ásia e até as baterias(pilhas das parafernálias) pra vizinha França, contaminando crianças no campo com o ar poluído da queima de lixo tóxico...aqui ao lado, na França.
Seria essa riqueza aqui justa? Por que primeiro mundo? O tempo todo vejo os drogados na rua, os bêbados "recuperados", nas portas do supermercados. Perto da escola do meu filho, vi recentemente um cara de picando (tomandonna veia), quando ele viu que as crianças se aproximavam...ele colocou a mochila em cima do braço, pra disfarçar. Aiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!Aquela cena não me sai da cabeça, imagina de uma criança. Meu filho não viu, por sorte...teria que falar a verdade.

Primeiro mundo? claro que não, enquanto isso reflito sobre uma criança de 4 anos morta, afogada em um canal de minha cidade. E um outro "bebê" encontrado em um canal em Amsterdã...boiando há dias na água. Como ficar feliz ao ler jornais? Como ficar feliz em ver tanta injustiça e violência no mundo, odeio notícias, estou evitando ver tv e ler jornais, pra manter o mínimo de sanidade mental que tenho, sou muito suscetível às injustiças do mundo, só que o tempo todo acontece barbaridades, em todos os lugares do mundo, e eu aqui sentada no conforto do meu lar nessa horrorosa cadeira da Ikea, ouvindo New Order, Older(save me from myself).

Já sei, com um óculos cor de rosa posso tentar ver o mundo, não aqui na Holanda tem de ser um óculos COR DE LARANJA, a cor da família (sem graça) real...uma das maiores besteiras do mundo, a monarquia, pelo amor de deuz com Z, que mediocridade, e semana que vem é o importante dia da rainha 30 de abril, e a idiota aqui também vai ver o circo apagado, porque posso parar atrás das grades, então vou entrar no carnaval.
Vou fazer em dessas 48 horas chamadas fim de semana, minhas "48 party without people", a única pessoa, a única estrela aqui sou eu. Exceto no domingo, tenho um compromisso importante em Amsterdã (como dizia Belchior) e não posso faltar.

Pra achar o EU AUTÊNTICO, preciso muito auto-conhecimento, uma das partes mais difíceis depois do tempo dispensado à mim mesma, principalmente porque minha identidade camaleônica mais atrapalha do que ajuda, minha metamorfose e inconstância não cooperam pra uma conclusão linear, sei que ela não existe, aliás é a morte como diria Pessoa.
Poucos se conhecem...porque se muda o tempo todo, não somente eu, mas você também, mas sempre é necessário o primeiro passo pra tudo, e eu sou muito jovem pra morrer, e de certas festas já estou cansada, já vi tantos filmes.

Mas agora quero pensar diferente, pensar sobre uma reconstrução dos pedaços que ficaram, por fazer burradas num passado próximo, por não ter ouvido que essa síndrome da perda de si mesmo é coisa séria, e que por mais que eu dê uma de Brigitte Bardot, Greta Garbo, se eu não cuidar de mim acabarei que nem a Gloria Swanson, insana...querendo algo que jamais será como antes.
Na lista pra me encontrar, usufruo de tantos aditivos, meu salário mensal, livros comprados, revistas, roupas adquiridas que por mim jogaria todas numa fogueira e as queimaria sem perdão, se pelo menos pudesse receber o dinheiro de volta. Pouco importa, nunca fui muito ligada em dinheiro, ele cai do céu em abundância, sempre. Minha parafernália "media", Dvd player, cd player, laptop, ipod's, tv set, telefone, celular,controle remotos, e milhões de fios , e todos os apetrechos de cozinha, geladeira, fogão, forno, micro ondas, sugador de gorduras, aspirador de pó, batedeira, liquidificador, torradeira, prensadeira, lava louças, secadora e lavadora de roupas, cafeteira elétrica, bliblablibla...ah! meu secador de cabélo e mais duas vidas pipocantes que são quase extensões de mim mesma, e ah!...como carregar esse mundo pra uma ilha deserta? Seria melhor pra uma ilha mágica, habitada...Florianópolis, tenho dúvidas, dúvidas e mais dúvidas.
Adoro recomeços...

Mas agora me sinto LOST, felizmente não preciso tomar nenhuma decisão drástica, só me achar...tenho 48 horas pra isso, ou a vida inteira que não sei até onde vai.

3 comments:

Olaf said...

Ola Bebete,
Concordo com vc que acontecem, neste pais, coisas que nao ligam pro conceito 'primeiro mundo'. Mas observei que muitas vezes sao os brasileiros usando este termo falando sobre a Europa ou Holanda. Aqui nao se usa, e acho que vc mostrou muito bem o por que! E tem mais exemplos disso...
Acho que cada pais e povo - sem execoes - tem seus defeitos.
Queria saber o que seu amigo quis dizer quando falou que a Holanda lhe pareceu 'parado'. (mais sem cobranca nenhuma, claro, haha!)
Abracos, O.

Bebete Indarte said...

A minha amiga (uma mulher) de 50 anos...falou que faltava ALEGRIA, ENTUSIASMO, sorriso nos lábios.

E na casa que ela ficou hospedada:
De holandeses, eles tinham sempre a mesma rotina, como se todos os dias fossem iguais.
Claro, ela estava de férias, mas ela falou que jamais moraria aqui.
E ficou menos de um mês.

Anonymous said...

Escreve um livro... ja pensou nisso? Pensou seriamente? Acho que ia dar muito certo.
Beijo, Antonio